O vídeo que mostra soldados a queimarem cadáveres em Cabo Delgado é mais um “acontecimento horrível” que mostra o que está acontecer nesta “guerra esquecida” em Moçambique, considerou esta quinta-feira a Amnistia Internacional (AI).

"Tragicamente, parece que incidentes de violência contra civis, execuções extrajudiciais e outras violações dos direitos humanos e do direito humanitário internacional ainda estão a ocorrer, como documentado anteriormente pela Amnistia Internacional", referiu, em comunicado, o diretor da organização defesa dos direitos humanos para a África Oriental e Austral, Tigere Chagutah.

Em causa está um vídeo, divulgado nas redes sociais, que mostra militares alegadamente do exército sul-africano e outros elementos desconhecidos a atirarem cadáveres para uma pilha de escombros a arder, um episódio que resultou na abertura de uma investigação pelas Forças Armadas da África do Sul.

"A queima de cadáveres pelos soldados é deplorável e é provavelmente uma violação do direito humanitário internacional, que proíbe a mutilação de cadáveres e exige que os mortos sejam eliminados de uma forma respeitosa”, acrescentou o responsável.

A AI defende que as forças moçambicanas e a força regional da Missão de Desenvolvimento da Comunidade da África Austral em Moçambique (SAMIM) “devem lançar uma investigação rápida, exaustiva e independente sobre as circunstâncias destas mortes e da queima dos corpos e qualquer pessoa contra quem existam provas admissíveis suficientes deve ser processada em julgamentos justos”.

Segundo o responsável, “a segurança em Cabo Delgado não deve ser feita à custa de violações dos direitos humanos".

Este ato já foi condenado pelos dois partidos de oposição moçambicanos com assento no parlamento, que repudiaram a “crueldade” e pediram “respeito pelos direitos humanos”.

A oposição criticou ainda o facto de o Estado moçambicano não se ter pronunciado sobre o caso, referindo que, como país anfitrião, Moçambique devia ser “o primeiro a posicionar-se”.

Também a organização não-governamental Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD) exigiu esclarecimentos e eventual responsabilização neste caso, repudiando “este crime macabro à luz da lei humanitária internacional, que estabelece regras claras sobre a atitude de militares perante soldados abatidos do grupo adversário”, disse à Lusa o ativista e diretor do CDD, Adriano Nuvunga.

Segundo uma nota da Força de Defesa Nacional da África do Sul (SANDF), o incidente, que já está a ser condenado pela oposição sul-africana, terá ocorrido em novembro de 2022 em Cabo Delgado, para onde a África do Sul destacou um contingente militar como parte da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) em Moçambique.

Exército anuncia morte de suposto líder de terroristas

As Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) anunciaram a morte de um dos supostos líderes dos grupos terroristas e de outras 13 pessoas durante confrontos no domingo em Cabo Delgado, província aterrorizada por ataques armados há cinco anos.

O homem, identificado por Abu Fadila, foi abatido em Nguida, no distrito de Muidumbe, em confrontos que decorreram até terça-feira, no âmbito de uma nova operação, designada Vulcão IV, lançada na última semana, refere-se num comunicado citado hoje pelo diário Notícias.

“As Forças Armadas de Defesa de Moçambique reafirmam a sua determinação perene na luta contra ações terroristas na região norte de Moçambique”, refere-se na nota.

Segundo o documento, dois militares morreram e quatro ficaram feridos, dos quais dois estão fora do perigo, em operações desencadeadas nos distritos de Muidumbe e Macomia, regiões onde se registam incursões nos últimos dias e as autoridades locais acreditam ser da autoria dos grupos rebeldes.

A operação Vulcão IV conta com a ajuda das forças estrangeiras que apoiam Moçambique no combate contra o terrorismo e visa “intensificar medidas de perseguição e destruição das bases terroristas do inimigo que aterroriza o norte do rio Messalo, distrito de Muidumbe, e o ocidente de Chai, no distrito de Macomia”, segundo o Ministério da Defesa de Moçambique.

A província de Cabo Delgado enfrenta há cinco anos uma insurgência armada com alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

A insurgência levou a uma resposta militar desde julho de 2021 com apoio do Ruanda e da SADC, libertando distritos junto aos projetos de gás, mas surgiram novas vagas de ataques a sul da região e na vizinha província de Nampula.

O conflito já fez um milhão de deslocados, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e cerca de 4.000 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED.

/ AM