Homens lidam pior com o desemprego e são mais infelizes quando são sustentados pela mulher - TVI

Homens lidam pior com o desemprego e são mais infelizes quando são sustentados pela mulher

  • CNN Portugal
  • MJC
  • 15 jul 2023, 12:00
Mulher (Pexels)

Estudo mostra que os homens estão mais insatisfeitos quando não são o ganha-pão da família. A condição de empregabilidade dos homens, e não apenas o salário, é importante para avaliar o seu bem-estar e isso está relacionado com os tradicionais papéis de género

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Casais heterossexuais em que a mulher é a única a ter um salário revelam um nível de satisfação com a vida inferior em comparação com os casais onde é o homem a principal fonte de rendimento ou em que ambos os elementos contribuem. Esta é a conclusão de um estudo realizado por Helen Kowalewska e Agnese Vitali e publicado recentemente na European Sociological Review. Mas porque é que isto acontece?

Recorrendo aos dados da European Social Survey (2004-2018), as investigadoras analisaram as respostas de mais de 42 mil pessoas em idade ativa em nove países a quem foi pedido que avaliassem o quão satisfeitas estão com as suas vidas como um todo hoje em dia, de zero (extremamente insatisfeito) a dez (extremamente satisfeito). A maioria das pessoas dá uma nota entre cinco e oito. Estes “pontos de satisfação com a vida” dão-nos uma noção de como é o bem-estar de diferentes grupos e permite estabelecer comparações.

A principal conclusão é que quando a mulher é a única fonte de rendimento do casal, a satisfação dos homens com a sua vida é de 5,86. Mas quando são eles a fonte de rendimento a sua satisfação sobre para 7,16. Para as mulheres, os valores correspondentes são 6,33 e 7,10, respetivamente.

Os casais parecem sofrer mais com a liderança feminina na Alemanha, Reino Unido, Irlanda e Espanha. No entanto, a situação é bastante universal em toda a Europa, mesmo em países com maior igualdade de género, como a Finlândia.

Neste estudo, não foram incluídas pessoas inativas por motivos de saúde ou incapacidade. Mas este estudo diz-nos que enquanto as mulheres parecem igualmente afetadas negativamente pelo desemprego de um parceiro masculino quanto pelo seu próprio, os homens relatam um bem-estar substancialmente maior quando é ela que está desempregada em vez dele. 

Os resultados sugerem que a condição de empregabilidade dos homens, e não apenas o salário, é importante para avaliar o seu bem-estar.

Em lares onde as mulheres são as "chefes de família", os homens parecem ter mais dificuldades mentais do que as mulheres. Ver as suas parceiras a sair para trabalhar todos os dias pode fazer com que os homens desempregados se sintam pior consigo próprios. O desemprego está associado a maiores problemas psicológicos, como insegurança, incerteza, solidão e estigma.

O fardo psicológico nesta situação é tão pesado para os homens que eles prefeririam que elas não estivessem empregadas. Ao analisar as características básicas, renda e atitudes de género, conclui-se que os homens desempregados referem uma satisfação com a vida significativamente maior quando ambos os parceiros estão desempregados.

Mas, se pudessem, os homens desempregados preferiam trocar de lugar com as suas mulheres provedoras. O bem-estar dos homens é significativamente maior quando a mulher está desempregada em vez do homem. Por outro lado, as mulheres relatam igualmente baixa satisfação quando qualquer um dos parceiros está desempregado.

Há outros fatores que contribuem para a insatisfação dos casais quando a mulher é a chefe de família. Por exemplo, esses casais têm em média rendimentos familiares mais baixos do que os agregados familiares com dois salários ou quando são os homens os provedores, e, portanto, consideram mais “difícil” ou “muito difícil” gerir o orçamento. Mas o fator que parece verdadeiramente fazer a diferença, explicam as investigadoras, é que o homem tem mais dificuldade do que a mulher em lidar com a situação de desemprego e com o facto de não ser o principal sustento da casa. Em muitos países, ser o ganha-pão continua a ser fundamental para o sentido de identidade dos homens. Garantir o sustento da família é a chave para a masculinidade e equivale a ser um "bom" pai. Quando esses papéis são invertidos, os casais podem sofrer "sanções" sociais e ser ridicularizados.

O estudo conclui, portanto, que os tradicionais papéis de género afetam a maneira como os casais lidam com o desemprego. A adaptação dos homens às mudanças nos papéis de género fica atrás da adaptação das mulheres. Além disso, percebendo a angústia dos homens, as mulheres podem recusar promoções e empregos com salários mais altos, o que reforça ainda mais as desigualdades de género quanto à taxa de empregabilidade, progressão na carreira e salário.

"Claramente, ainda há um longo caminho a percorrer para romper a ligação entre o sustento da família e a masculinidade. Desafiar essa idealização do ganha-pão masculino é fundamental para que os homens não se sintam mais fracassados quando ficam aquém dessa expectativa", concluem as investigadoras.

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