Uma tatuagem não impediu a "má vitória" de Ventura, que agora "está a um ano de vencer" umas eleições que não estão marcadas - TVI

Uma tatuagem não impediu a "má vitória" de Ventura, que agora "está a um ano de vencer" umas eleições que não estão marcadas

Ventura reportagem

REPORTAGEM || Na sede de Ventura, a ideia de que o líder do Chega está mais perto do poder após a derrota nas Presidenciais é cada vez mais clara. “O Seguro ganhou, sim, mas não é isso que o povo português quer e vocês vão ver isso brevemente”, ouve-se entre os apoiantes

Quando a contagem decrescente chegou ao zero, o quartel-general de André Ventura ficou consumido pelo silêncio. Poucos eram os que abanavam as bandeiras de Portugal que tinham sido distribuídas pela juventude momentos antes numa sala repleta de cadeiras vazias no Hotel Marriot, em Lisboa. O enxame de câmaras e tripés tapa metade do único televisor instalado ao pé do palco e, entre apoiantes, os nervos começam a aumentar ao mesmo tempo que, boca a boca, se começam a aperceber da derrota do candidato apoiado pelo Chega. 

“Porra, não podiam ter posto a televisão mais em cima”, protesta Ricardo Formiga, 52 anos, enquanto um militante lhe toca no braço e lhe explica o resultado. “Podia ter sido melhor”, responde com alguma impaciência enquanto aponta para a televisão, deixando descoberto uma tatuagem no pulso com o símbolo do Chega. “Eu sou o único apoiante que tem esta tatuagem, acredito mesmo nele, ele tem as ideias certas para o país e dá-nos uma força muita grande”, afirma, sublinhando que estava à espera de mais. “Não tinha ideia que o Seguro fosse ter tanto”, comenta ainda antes de ser confirmado que o candidato apoiado pelo PS foi o Presidente da República mais votado de sempre. 

Depois, o militante sorri e desloca as atenções de António José Seguro para a imagem da reação do primeiro-ministro na televisão. “O Montenegro está a roer as unhas agora”, explica, garantindo que os 33% de Ventura “só lhe vão dar mais força”. “Na Assembleia da República, as pessoas vão ver que ele é que vai mandar na direita. Sabe o que isto é: é uma má vitória, ele não sai derrotado”, sublinha. 

Enquanto vai recebendo mensagens no telemóvel da estrutura de militantes de Odivelas de que faz parte, Ricardo volta a mostrar a tatuagem para explicar porque acredita tão plenamente que André Ventura não tenha saído derrotado. “Para mim, e para pessoas como eu, que somos ex-combatentes, que temos sido desprezados e espezinhados, ele é que representa a esperança”, diz, apontando que estará presente “em todas as próximas batalhas do Chega”. “E eu faço isto pelos meus avós, pela herança que temos no passado, ele faz com que tenhamos orgulho nisso. Ao contrário dos outros. Ele veio abanar o sistema e veio mostrar a realidade do sistema. Sei que dói a muitos, mas é a verdade”. 

"Quanto mais mal falam do Ventura mais ele vai crescer"

Ricardo Formiga exibe a tatuagem do Chega / D.R

De entre o silêncio, Pedro Pinto, líder da bancada parlamentar, surge para assumir a derrota de Ventura, criticando as condições em que se realizaram as eleições - Ventura tinha pedido, dias antes, o adiamento por muitos municípios afetados pela tempestade estarem impedidos de garantir o escrutínio este domingo. “Somos os grandes líderes da direita”, diz, acrescentando que “os portugueses perderam a oportunidade de uma grande mudança”.

“Essa é que é a verdade”, vocifera Paulo Brandão, 60 anos, que veio de Alenquer assistir à noite eleitoral em Lisboa e que refere que “este resultado não é nada uma vitória de Seguro como se está aí a dizer”. “O Seguro ganhou porque grande parte da população e muita gente conhecida em Portugal foi posta contra o Ventura”, afirma, apontando especialmente para o grande número de antigos dirigentes sociais-democratas que anunciaram o seu voto no ex-líder socialista. 

“Quanto mais mal falam do Ventura, do Chega e dos seus apoiantes, mais ele vai crescer”, acrescenta, garantindo que todos os dias se sente “humilhado” quando liga a televisão. “Sinto-me humilhado porque o que eu vejo é um pacto contra o Ventura, chamam-nos antidemocráticos, mas antidemocrático é pôr toda a gente contra o Ventura - isso é que é antidemocrático”. 

Ainda assim, acrescenta, essa adesão de notáveis e de grandes figuras históricas da esquerda e da direita a favor de Seguro e contra Ventura só lhe “deu mais força”. “Quanto pior falam do Ventura, do Chega e dos seus apoiantes mais ele vai crescer”, afirma, sublinhando que tem a confiança de vir a ver Ventura a destronar Montenegro “brevemente”. “Não sei se o Montenegro vai conseguir resistir a isto, porque estes votos todos dão-lhe muito mais força”. E essa força, sublinha, nota-se no seu círculo mais próximo: “Cada vez mais gente o apoia, tenho familiares e amigos que antes estavam do lado oposto e agora são do Chega. Porquê? Não se pode dizer mal dos ciganos, por exemplo. É claro que apontamos para os ciganos, eles andam aos tiros na rua e isto sempre foi assim, está cada vez pior”.

Portanto, reforça este militante, “o Seguro ganhou, sim, mas não é isso que o povo português quer e vocês vão ver isso brevemente”. Esta é, aliás, uma ideia que se tem vindo a consolidar nas estruturas do partido com mais força desde que Ventura passou à segunda volta e, entre dirigentes, a noite veio provar justamente isso. À CNN Portugal, um “ministro-sombra” do líder do Chega coloca as coisas desta forma: Ventura “está a um ano de vencer as legislativas”, “este é o último primeiro-ministro do PSD, acabou, e acabou porque Montenegro não tem nenhum projeto ideológico”. De notar que essas eleições legislativas não estão marcadas nem estão no calendário, já que a legislatura termina, caso decorra tudo normalmente, em 2029.

Além disso, tem agora de lidar com um claro desgaste em algumas pastas do Governo, nomeadamente no Ministério da Administração Interna, cuja ação durante a tempestade foi altamente criticada, mas também noutros setores, como na Saúde, assolada por constantes crises. “Para quem tem governo há dois anos, a verdade é que devia estar a governar com muito mais apoio, mas o que aconteceu foi que o PSD não conseguiu manter o eleitorado, mesmo com todos os meios para tal”, afirma. 

Esse passar para o ataque ao Governo a partir de segunda-feira é assumido por um outro dirigente do partido, que acrescenta que os apoios vindos da ala social-democrata a Seguro vão acabar por prejudicar Montenegro mais tarde. “A forma como esses notáveis se posicionaram foi uma tentativa desesperada de relevância política. Mas a verdade é que sentimos o apoio popular a direcionar-se para fora da esfera do PSD, e não me parece que Montenegro vá levar a legislatura até ao fim”. Por isso, refere, “o PSD tem de perceber que os seus notáveis colocaram-se numa geringonçada e que isso fez com que tenha perdido o pólo da direita, que hoje é o Chega”. 

"Estava à espera que os portugueses realmente abrissem os olhos"

Chegada de Ventura à sede de campanha / LUSA

Quando há a notícia de que Ventura saiu da Igreja de São Nicolau, onde parou para ir à missa antes de rumar à sede de campanha, dezenas de apoiantes começaram a sair da sala e a posicionarem-se na entrada do hotel. Resguardada da chuva, com uma bandeira do Chega colocada sob os ombros como se fosse um xaile, Alexandra Fernandes, 30 anos, está emocionada a falar ao telefone. Esperava “mesmo” estar a celebrar hoje a eleição de Ventura. 

Quando desliga o telemóvel, mostra-se incrédula pela escolha dos portugueses num candidato de esquerda. “Entre esquerda e direita, votar no Seguro é realmente fazer com que Portugal vá abaixo, mais do que já está. As coisas não estão bem em Portugal, as coisas estão cada vez pior, está a afundar-se e com o Seguro não vejo isso a melhorar”, refere, acrescentando que via em Ventura “uma oportunidade para Portugal evoluir”. 

A esquerda para Alexandra “é igual a derrota, desprezo”. “Eu vejo a esquerda como destruidora de Portugal, estão a destruir Portugal completamente - tudo, tudo, já tiveram 50 anos e bastante oportunidade para evoluir Portugal e não vi nada”. O que vê, diz, “é dinheiro para ajudar os de fora, mas para os de dentro é tudo limitado, tudo escasso. Eu já via isso antes de ser militante do Chega”. 

Militante de Lisboa, e exibindo três pins distribuídos durante a campanha do Chega, Alexandra diz que Ventura é o único que “quer mesmo fazer a diferença e que não está na política para brincar”. “Não anda a jogar palavras para o ar e realmente quer mudar. E eu estava à espera que os portugueses realmente abrissem os olhos desta vez e acordassem e realmente que Ventura ganhasse”, afirma.  

Alexandra estava na expectativa de encontrar Ventura, mas o candidato acabou por trocar os planos. Ouve-se que já não vai avançar pela entrada, como em eleições anteriores, mas sim chegar pela garagem. Da rua, acorre-se para as escadas que dão acesso ao estacionamento do hotel. A comitiva, liderada por Diogo Pacheco de Amorim, espera-o, mas os minutos passam e nada. Sabe-se entretanto que o candidato contornou os jornalistas e que só irá falar na sala. 

O ambiente quando Ventura chega é totalmente diferente. Como se as horas de espera pelo líder do Chega permitissem aos militantes digerir o resultado e encontrar apenas boas notícias. E os aplausos foram mais altos quando Ventura anunciou ter superado o resultado da AD - o que só aconteceu em percentagem e não em número de votos -, apontando que os “portugueses colocaram-nos no caminho para governar este país”. Entre uivos a Marcelo Rebelo de Sousa e gritos de ‘corrupto’ quando a palavra socialismo surge no discurso, Ventura apontou uma mensagem “clara”: “Lideramos o espaço da direita em Portugal e vamos, em breve, governar este país”.

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