Guerra na Ucrânia não mudou pensamento da China sobre possível ataque a Taiwan, revela relatório - TVI

Guerra na Ucrânia não mudou pensamento da China sobre possível ataque a Taiwan, revela relatório

  • CNN
  • Simone McCarthy
  • 2 jun 2023, 22:00
EUA China e Taiwan

Cimeira analisa situação de segurança este fim de semana

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A China continua a ser o “principal desafio a longo prazo” à ordem internacional existente e não há provas de que a vacilante invasão da Ucrânia pela Rússia tenha alterado o pensamento de Pequim sobre “o calendário ou a metodologia” de um potencial ataque a Taiwan, afirmou um importante grupo de reflexão estratégica antes de uma cimeira de segurança regional em Singapura.

O conflito na Europa pode também acelerar as tendências na região da Ásia-Pacífico, no sentido de aumentar as despesas militares e os esforços para desenvolver capacidades militares, de acordo com um relatório divulgado na sexta-feira pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), que organiza o seu Diálogo Shangri-La anual em Singapura este fim-de-semana.

A guerra e as suas repercussões na região Ásia-Pacífico - bem como a crescente disputa entre os Estados Unidos e a China - serão os temas principais da cimeira de segurança, que desde há muito serve de plataforma para que responsáveis de topo pela segurança se encontrem pessoalmente.

Entre os participantes contam-se o secretário da Defesa dos EUA, Lloyd Austin, o ministro da Defesa chinês, Li Shangfu, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, e o ministro da Defesa ucraniano, Oleksii Reznikov.

Os chefes da defesa dos EUA e da China não deverão reunir-se este ano - um sinal da profundidade da fratura nas relações entre os dois países.

Lloyd Austin (á esquerda) e Li Shangfu.

Na quinta-feira, Austin afirmou ser “lamentável” que a China tenha recusado uma oferta dos EUA para se reunirem na conferência e alertou para o facto de a atual falta de comunicação poder resultar num “incidente que pode rapidamente ficar fora de controlo”.

Pequim refutou, no início desta semana, a alegação de que estava a bloquear os esforços de comunicação dos oficiais de defesa americanos, culpando os EUA de criar “obstáculos artificiais, minando seriamente a confiança mútua entre as duas forças armadas”.

Taiwan em foco

As preocupações dos EUA e de toda a região com a crescente assertividade da China aumentaram nos últimos anos, à medida que Pequim expandia rapidamente a sua marinha, militarizava ilhas no Mar do Sul da China, procurava forjar pactos de segurança no Pacífico Sul e reforçava a retórica em torno de reivindicações de territórios disputados.

Estas preocupações acentuaram-se no último ano, quando Pequim realizou por duas vezes extensos exercícios militares em torno da ilha de Taiwan e se recusou a condenar a invasão da Ucrânia por Moscovo.

Essa invasão também chamou a atenção para Taiwan como potencial ponto de inflamação da segurança na Ásia.

Apesar das grandes diferenças em relação às circunstâncias geopolíticas da Rússia e da Ucrânia, a perspetiva de um agressor aparentemente mais poderoso lançar um ataque motivado por uma visão de unificação intensificou a atenção sobre as intenções da China em relação a Taiwan.

O Partido Comunista da China, que está no poder, reivindica a democracia autónoma como sua, apesar de nunca a ter controlado, e prometeu unificar a ilha com o continente, pela força, se necessário.

O relatório do IISS divulgado esta sexta-feira, uma avaliação anual sobre a segurança da Ásia-Pacífico escrita por especialistas do “think tank”, afirma que não há provas de que a guerra na Ucrânia tenha “alterado o pensamento chinês sobre a escala de tempo ou a metodologia” para um possível ataque a Taiwan.

“A visão que Pequim tem de Taiwan como um desafio interno moldou a sua avaliação de que o uso da força pela China para reconquistar a ilha seria totalmente diferente da guerra na Ucrânia”, afirma o relatório.

Os pensadores militares chineses terão analisado, no entanto, as implicações do apoio ocidental à Ucrânia e os fatores que contribuíram para o fraco desempenho militar da Rússia, segundo o relatório.

O relatório acrescenta que é “impossível determinar se a China usará a força para tomar Taiwan em algum momento no futuro” e que a tomada de decisão de Pequim será moldada não apenas por “uma avaliação da capacidade militar, mas também por uma consideração das prováveis reações não militares dos EUA e dos aliados”, incluindo potenciais impactos económicos.

“Não há provas de que a China tenha um calendário fixo para invadir Taiwan”, acrescenta o relatório.

Entretanto, a retórica de Pequim em torno de Taiwan foi um dos vários fatores determinantes para a crescente preocupação do Japão em relação à China, segundo o relatório.

"Confrontação crescente”

De acordo com o relatório, a China continua a desenvolver as suas capacidades de “águas azuis” para operar em alto mar, longe dos seus portos.

Mas os esforços dos EUA e dos seus mais importantes aliados regionais para aumentar o seu financiamento e prontidão navais “podem facilitar uma mudança no equilíbrio naval a seu favor”, diz o relatório.

Nos últimos anos, os EUA têm feito esforços concertados para reforçar as suas alianças de segurança e a sua presença na região, face à ascensão da China.

Isso incluiu o reforço da cooperação trilateral com os aliados Coreia do Sul e Japão e a reformulação do grupo de segurança Quad com a Austrália, o Japão e a Índia, amplamente visto como um contraponto à ascensão militar da China.

No início deste ano, os EUA, o Reino Unido e a Austrália concordaram em construir uma frota conjunta de submarinos nucleares de elite.

No entanto, muitos Estados da região preferem evitar tomar partido na “confrontação crescente” entre os EUA e a China, segundo o relatório do IISS, acrescentando que “não existe uma tendência regional para o alinhamento com os EUA”, devido às dependências económicas e ao receio de uma escalada.

Pequim tem afirmado repetidamente que o seu Exército Popular de Libertação é uma força defensiva destinada a salvaguardar a paz e o desenvolvimento mundiais - um ponto que o chefe da defesa chinesa, Li, deverá enfatizar na conferência, onde também discutirá a visão de Pequim para a segurança regional.

É a primeira vez que Li participa na conferência desde que assumiu o cargo de ministro da Defesa no início deste ano. Li foi sancionado pelos EUA em 2018 devido à compra de armas russas pela China.

Está previsto que tanto ele como Austin façam discursos na conferência, que decorre de sexta-feira a domingo.

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