Yan nasceu na China há 27 anos e há nove que vive em Portugal, onde tenta manter os exigentes cuidados de beleza característicos das asiáticas, embora aproveite as viagens à China para se abastecer dos produtos que não dispensa.
A acompanhar o crescimento da comunidade chinesa em Portugal – que aumentou de 3.282 em 2000 para 23.025 em 2021 -, o mercado de lojas de cuidados estéticos em Lisboa para mulheres chinesas também se tem desenvolvido.
Nesta cidade, a antropóloga Isabel Pires realizou uma investigação sobre práticas estéticas de mulheres chinesas em Lisboa, no âmbito da sua tese de doutoramento “Being Mei Mei is being rich: a procura da beleza e da modernidade entre mulheres chinesas em Lisboa”, recentemente apresentada.
Para tal, frequentou espaços comerciais em Lisboa especialmente direcionados para os cuidados mais procurados por mulheres chinesas, como o branqueamento de pele, trabalho de sobrancelhas, manicure, cabelos, ou mais diferenciados, como a eliminação de rugas (injeção de toxina botulínica).
Das conversas que manteve com estas mulheres, concluiu que estas mantêm os padrões de beleza chineses, embora as mais novas, sobretudo se nascidas em Portugal, sejam influenciadas por tendências ocidentais, como o corpo bronzeado, apreciado na Europa e, logo, em Portugal.
Yan é disso um exemplo. Embora valorize os principais modelos de beleza asiática – cabelo cuidado, muito liso e natural, a pele sem marcas, as unhas pintadas com pormenores elaborados, o corpo magro -, aceita que a pele bronzeada transmite “um aspeto mais saudável”.
Apesar de conhecer vários espaços em Lisboa que proporcionam estes cuidados, o que veio facilitar a vida a estas imigrantes, que não abdicam de tais cuidados, Yan abastece-se dos seus produtos preferidos (máscaras faciais em papel impregnado) sempre que vai à China, o que costuma acontecer pelo menos uma vez por ano.
A diferenciação e enriquecimento de cada vez mais elementos desta comunidade em Portugal – que não se limita à restauração e à “loja do chinês” – têm contribuído para um consumo de produtos mais dispendiosos, como cremes para aclarar a pele, mas também intervenções estéticas e até cirúrgicas.
Além de injeções de botox, bastante frequentes nestas mulheres, tendo em conta a amostra que serviu de base ao trabalho de Isabel Pires, é comum a cirurgia às pálpebras (blefaroplastia), uma forma de obter os olhos maiores.
Yan não fez esta intervenção, porque nasceu com pálpebras duplas, tal como a maioria das pessoas na China, onde os olhos grandes são muito valorizados culturalmente.
As mulheres que recorrem a esta intervenção estética, fazem-no porque querem ter os olhos grandes, tal como apreciados no país de origem, e não para se aproximarem do modelo ocidental, embora essa seja uma associação comum.
A secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV), Maria Goreti Catorze, identifica nestas mulheres preocupações comuns a todas as outras: “Acne e marcas, hiperpigmentações (melasma, manchas pós-inflamatórias), sensibilidade cutânea e, com a idade, sinais de fotoenvelhecimento”.
É igualmente frequente a procura de aconselhamento sobre fotoproteção e rotinas de cuidados.
“Em algumas pacientes observa-se uma valorização marcada de uma pele homogénea e bem cuidada, o que se reflete numa maior atenção às rotinas de ‘skincare’ e à prevenção”, prossegue a dermatologista, que ressalva as diferenças heterogéneas nesta população, nomeadamente as relacionadas com idade, contexto social e grau de integração cultural.
Na procura com motivação estética, as mulheres chinesas buscam sobretudo os tratamentos de manchas, acne e suas sequelas, melhoria da qualidade da pele e, em idades mais avançadas, procedimentos de rejuvenescimento com abordagem conservadora e natural.
E tal como em outras populações, as preocupações destas mulheres variam com a idade: Acne e prevenção nas mais jovens, manchas e envelhecimento inicial na idade intermédia e sinais mais marcados de envelhecimento cutâneo nas mulheres mais velhas.
Chinesas em Lisboa operam pálpebras por ligação à China
As operações cirúrgicas às pálpebras são frequentes nas mulheres chinesas que vivem em Lisboa, que o fazem porque os olhos grandes são valorizados na China e não para terem um olhar mais europeu, revela um estudo inédito.
As conclusões constam da investigação que a antropóloga Isabel Pires realizou no âmbito da sua tese de doutoramento sobre práticas estéticas de mulheres chinesas em Lisboa.
Em entrevista à agência Lusa, a investigadora contou que o seu trabalho partiu da constatação de que as mulheres chinesas, como todas as asiáticas, têm um grande interesse nas transformações corporais, sendo a China atualmente um dos países que realiza mais cirurgias estéticas no mundo.
Na China, as mulheres procuram sobretudo uma face triangular, um olhar mais aberto, uns olhos maiores, um nariz mais fino, um queixo mais pontiagudo e uma maça do rosto mais elevada.
Isabel Pires não vê, nestes objetivos, qualquer procura por um modelo ocidentalizado.
“Isto seria apenas redutor, seria até uma forma de olharmos de uma forma de superioridade, como se todo o mundo girasse à volta da estética ocidental e como se a estética ocidental ainda fosse a prevalente”, disse.
Na verdade, explicou, o que estas mulheres procuram é a dupla pálpebra, com que a maioria da população chinesa nasce.
Trata-se, pois, de “um conceito de beleza que não é ocidental”, mas que existe na China e que tem “uma enorme influência histórica, milenar quase, e que aos olhos europeus ou norte-americanos é interpretada como uma forma ocidentalista, o que não é verdade”.
Durante 18 meses, Isabel Pires realizou o seu estudo etnográfico, privando com 31 mulheres chinesas que vivem em Lisboa, mas também com médicos das especialidades que elas procuram para alcançar os seus propósitos de beleza: cirurgiões estéticos e dermatologistas.
Nestas mulheres encontrou uma busca por uma pele perfeita, pálida, sem rugas, sem poros, a par da magreza e de um cabelo cuidado.
Além dos olhos e do recurso à blefaroplastia para alcançar a dupla pálpebra – a cirurgia estética mais realizada em todo o mundo -, a investigadora testemunhou cuidados com o corpo rigorosos, como o uso de protetor solar nas manicures com gel ou gelinho, agora cada vez mais recomendado e que estas mulheres já usam há muito nos salões.
Também testemunhou diferenças entre as nascidas na China e as que nasceram em Portugal, filhas de nascidos na China. Todas têm cuidados com a sua aparência, mas as nascidas na China têm mais cuidados com o tom de pele, a maquilhagem ou o cabelo.
As nascidas em Portugal são mais permissivas à menor exigência com a estética das mulheres portuguesas, admitindo, por exemplo, uma pele mais bronzeada no verão.
E é em aspetos como estes que as mulheres navegam “entre a modernidade e a tradição”, vivenciando-a no seu dia-a-dia.
Isabel Pires exemplifica com uma mulher que se bronzeie em Portugal, onde esta prática é aceite e até valorizada, mas que quando visita a família na China vai encontrar uma crítica à aparência, porque lá é a brancura que é considerada.
Além das diferenças etárias, também as económicas têm peso na aparência destas mulheres chinesas que vivem em Lisboa.
Uma pele perfeita e certas caraterísticas físicas são um sinal de que essa mulher usa cremes caros, tem meios para recorrer a determinados tratamentos estéticos e até a intervenções cirúrgicas dispendiosas.
“Acaba por ser uma manifestação de um status social”, disse.
A ligação emocional está presente nas ações que estas mulheres realizam em busca do seu ideal de beleza, optando por produtos chineses (cremes, loções), que lhes criam “uma noção de familiaridade com algo”.
Sobre a perspetiva que os vários profissionais de saúde lhe transmitiram – dermatologistas, cirurgiões plásticos, farmacêuticos, enfermeiros -, a antropóloga percebeu que, na parte da cirurgia, estas mulheres optam por ir à China realizar os procedimentos, devido sobretudo à questão da língua, de estarem mais dentro do sistema de saúde do seu país de origem e também do preço, que é mais acessível.
A ideia que estes profissionais da área cirúrgica lhe avançaram é diferente daquela que apurou. Ou seja, os médicos com quem falou entendem que estas mulheres procuram obter uma estética ocidentalizada.
Os dermatologistas com quem Isabel Pires falou seguiam mulheres chinesas, indicando que as principais preocupações destas clientes são, no caso das mais novas, terem uma pele livre de acne, e, a partir dos 30, 40 anos, sem rugas.
Este trabalho, que é pioneiro sobre as alterações estéticas em mulheres chinesas em países ocidentalizados, concluiu ainda que “o racismo na estética existe”.
“Há ainda uma ideia de que determinadas caraterísticas são mais valorizadas que outras”, afirmou.
“Questões raciais, questões de classe, questões de estatuto social, questões de género, estão muito intrincadas nas formas estéticas e não parece que vão acabar, pelo contrário, parece-me, sim, que há um aceleramento bastante visível”, disse.
E exemplificou com casos de estrelas afro-americanas que ao longo dos últimos anos se apresentam com mudanças no cabelo, na cor da pele (mais clara), na forma do nariz.
“Isto tem a ver com valores que estão profundamente enraizados na estética e a estética é transversal a tudo. A estética é transversal aos anúncios que vemos na televisão, às redes sociais, ao Super Bowl e à música norte-americana, aos filmes, às séries que consumimos, Netflix, etc...”, disse.
As modelos ‘plus size’ (que veste tamanhos maiores), que há alguns anos estavam a crescer na indústria da moda, desapareceram e assiste-se ao exemplo do Ozempic que é “paradigmático”, pois são cada vez mais os que o usam, não por questões de obesidade, mas para conseguir um corpo esteticamente valorizado.