A operação começou no final de fevereiro. No dia 25, logo de manhã, a Polícia Judiciária colocou mais de 100 agentes a realizar buscas a casas, empresas e locais de trabalho e aos portos, de forma a investigar funcionários das alfândegas suspeitos de por ali deixarem entrar há vários anos largas toneladas de cocaína em carregamentos da América do Sul com destino à Europa.
A investigação centrava-se em portos como Lisboa, Setúbal e Sines e em causa estavam funcionários da Autoridade Tributária com o poder de definirem quais os contentores a fiscalizar e quais devem deixar sair dos portos por via terrestre, em camiões, sem qualquer incómodo por parte das autoridades do Estado.
Essa operação foi denominada “Porthos”, uma vez “que investiga a beneficiação de organizações criminosas dedicadas à exportação de elevadas quantidades de cocaína a partir da América Latina”. “Estas organizações criminosas usam os portos marítimos nacionais como porta de entrada de produtos estupefacientes no continente europeu, dissimulados em diversos produtos acondicionados em contentores”, lia-se no comunicado da PJ.
O problema da entrada de droga em Portugal não era novo e o diretor da Unidade de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da Polícia Judiciária já tinha alertado para isso numa entrevista dada à CNN Portugal a 16 de maio do ano passado. E esta terça-feira, a PJ anunciava que deteve um cidadão brasileiro por pertencer a uma célula em Portugal do grupo de crime organizado brasileiro Primeiro Comando da Capital (PCC), ligado a tráfico de cocaína, numa ação em cooperação com as autoridades brasileiras.
A CNN Portugal sabe que o detido é Gabriel Martinez Souza, 38 anos, com posto elevado na estrutura brasileira do PCC. Era um alto emissário em Portugal daquela entidade criminosa - onde tinha por missão organizar as operações de desembarque de centenas de quilos de cocaína que chegavam a Portugal nas chamadas caixas de leme dos navios. O suspeito tinha como missão, no Brasil, a colocação de toneladas de droga presas aos cascos dos navios através de mergulhadores especializados e, já em Lisboa, os mergulhadores voltavam a retirar a droga dos cascos das embarcações.
A equipa de mergulhadores especializados era contratada no Brasil, onde acondicionava a droga nas caixas de leme dos navios, e depois deslocava-se a Lisboa para o retirar das embalagens - entre 100 e 150 quilos de cocaína, em média.
Gabriel Martinez Souza vivia numa moradia na zona do Montijo, onde foi preso pela PJ na manhã de terça-feira, e na garagem de casa escondia armas de guerra - entre as quais duas metralhadoras e uma pistola Glock adaptada para fazer disparos em rajada. Além disso, foram encontrados barcos e motas próprias para andarem debaixo de água - invisíveis à superfície -, com as quais levava uma equipa de mergulhadores a fazerem discretamente o desembarque da droga sem que ninguém se apercebesse em pleno Porto de Lisboa, com os navios já atracados.
A operação, que decorreu em simultâneo em vários locais no Brasil, esteve em Portugal a cargo da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes, que, além da detenção, executou ainda um mandado de busca domiciliária, tendo sido apreendidas três armas automáticas, vários milhares de euros, viaturas de gama média/alta e equipamento de mergulho - usado para retirar a droga escondida nos cascos e nas caixas de leme dos navios provenientes do Brasil, quando estes aportavam em Portugal.
Entre as três armas apreendidas estavam pistolas Glock de 9mm, idênticas às usadas pelas forças de segurança, e uma espingarda semiautomática AR15, sendo que o dinheiro apreendido até agora totaliza cerca de 30 mil euros.
A nota da PJ refere ainda que, “de acordo com os elementos de prova recolhidos, este grupo criminoso, agora desmantelado, dedicava-se à introdução de grandes quantidades de cocaína no continente europeu, por via marítima, por regra escondida em cascos de navios e nas caixas de leme”.