O açúcar é o vilão que explica a pandemia de enfartes e AVC. Novo livro de Manuel Pinto Coelho declara o colesterol um aliado da qualidade de vida - TVI

O açúcar é o vilão que explica a pandemia de enfartes e AVC. Novo livro de Manuel Pinto Coelho declara o colesterol um aliado da qualidade de vida

  • Carlos Enes
  • 22 nov, 23:59

Autor de não ficção com mais livros vendidos em Portugal denuncia que as estatinas se impuseram através de um ensaio clínico forjado

O novo livro de Manuel Pinto Coelho ataca a credibilidade das estatinas, medicamentos receitados todos os dias como arma de prevenção primária contra doenças cardiovasculares. O livro “Colesterol - Mitos e Realidade” tem uma nova edição, revista e aumentada, oito anos depois de ter lançado um grande debate no meio médico português.

“Volto a um tema que me custou algumas pedras no meu caminho, mas também o conhecimento e a certeza, agora reforçada, de que estou cada vez menos sozinho”, declara Pinto Coelho, na introdução da obra. Aos 77 anos, 53 de experiência clínica, desenterra o machado de guerra porque lhe “custa ver cada vez mais pessoas morrerem de doença cardiovascular”.

O autor considera que o ensaio clínico que declarou o colesterol o principal inimigo das doenças do coração, “é a maior fraude da História da Medicina”. Trata-se do estudo iniciado em 1948 na cidade de Framingham, Estados Unidos, que dez anos depois conduziu às primeiras publicações científicas a culpar o colesterol como grande vilão das doenças cardiovasculares. “Claro que a indústria do açúcar, refrigerantes e alimentos processados esfregou as mãos de contente”, critica Pinto Coelho.

Aliados de peso

Durante décadas, esse ensaio, que viria a ser alargado à população de outros países, foi olhado como um marco histórico da Epidemiologia. Nos anos 1990, foi motivo de cisão pública entre investigadores. O livro de Pinto Coelho cita dois deles. “As gorduras saturadas e o colesterol na dieta não são a causa da doença coronária. Esse mito é a maior fraude do século, talvez de todos os séculos”, escreveu George V. Mann. “Em Framingham, Massachusetts, quanto mais pessoas consumiam gorduras saturadas, colesterol e calorias, menos a sua colesterolemia subia... Nós pusemos em evidência que as pessoas que consumiam mais gorduras saturadas, colesterol e calorias, eram as mais magras e as mais ativas fisicamente”, escreveu William Castelli.

A nova edição de “Colesterol - Mitos e Realidade”, como há oito anos, volta a ser prefaciada por João José Lopes Gomes, cardiologista que fez carreira como diretor do Serviço de Cardiologia e do Departamento de Medicina do Hospital Geral de Santo António, no Porto. Este antigo professor catedrático e atual presidente da Delegação Norte da Fundação Portuguesa de Cardiologia descreve, com graça, que a teoria lipídica, desenvolvida a partir do estudo de Framingham, ainda é a “do Regime”. Com o passar dos anos, no entanto, a teoria “da Oposição” tem cada vez mais adeptos: o colesterol aparece nas lesões das vítimas de enfartes e AVC porque estava lá para os proteger das verdadeiras causas, como o stresse oxidativo, infeções, toxinas e hiperglicemia.

No prefácio, Lopes Gomes relata que, em 2021, sofreu um acidente isquémico no cerebelo, do qual recuperou sem sequelas. Na altura, tomou uma estatina, que recorda pelos efeitos secundários. “Ainda não havia passado um mês e mal podia caminhar com dores musculares insuportáveis, eu que até tenho um limiar para a dor muito elevado, não me podia mexer. Além disso, sendo eu diabético, a minha glicemia, que andava quase sempre controlada, passou a apresentar valores altos”, conta no prefácio. Suspendeu o medicamento. Quando voltou à consulta com o colega neurologista que lhe tinha receitado a estatina, já se sentia “completamente bem”. Este ainda o tentou convencer a retomar o medicamento, mas recebeu de Lopes Gomes uma resposta conclusiva: "Não pense mais nisso. Não me consegue convencer a voltar a essa medicação, nem que me aponte uma arma!"

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