Constança Cunha e Sá: uma força da natureza - TVI

Constança Cunha e Sá: uma força da natureza

  • Filipe Santos Costa
  • 2 dez, 16:31
Constança Cunha e Sá (TVI)

A jornalista de política, que se destacou n’O Independente e na TVI, morreu aos 67 anos. Teve uma carreira brilhante, por vezes controversa, mas sempre com caráter e exímio uso da língua portuguesa. Filipe Santos Costa faz um obituário contaminado por memórias

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A Constança era uma força da natureza. E as forças da natureza, precisamente pela sua natureza, não se controlam. Quando se metia numa empreitada, a Constança era capaz de levar tudo à frente e trazer toda a gente que importava atrás. Era séria, era divertida, era inteligentíssima, era culta, era provocadora, era humanista, era reta, era dedicada, era amiga, era uma escritora brilhante, era uma jornalista com faro de cão pisteiro. 

Já escrevi que a Constança era jornalista até ao tutano, até à mais ínfima célula do seu organismo? Aposto que as células que o cancro lhe corroeu mantiveram todas, até ao fim, o espírito indomável, lutador, desafiador, que fizeram dela uma jornalista inigualável. 

Escrevo cancro, palavra maldita, porque suspeito que ela odiaria que se escrevesse “doença prolongada”. A Constança não era de eufemismos, era de rigor e de chamar os bois pelos nomes, e se lhes chamava outra coisa qualquer era porque tinha magicado uma sequência de palavras ainda melhor do que o nome da coisa – mas nunca um clichê como “doença prolongada”. Mas se ela lhe deu luta! Brava Constança!

Filosofia do jornalismo

Constança Cunha e Sá, morreu aos 67 anos. Viveu-os todos como bem entendeu, até a doença a travar. Os melhores desses anos, deu-os ao jornalismo. Começou na primeira encarnação da revista Sábado, munida de uma licenciatura em Filosofia. Dizem que era uma jovem espevitada, linda de fazer parar o trânsito, talvez um bocadinho beta demais para fazer tudo o que o jornalismo corajoso e agitador exige, pensaram alguns. Paulo Portas discordou, e convidou-a para O Independente. Reconheceu-lhe todas as caraterísticas que a fizeram grande, e deu-lhe o palco que ela merecia. 

O salto para O Independente estabeleceu a Constança na primeira divisão do jornalismo político português. Chegou a diretora do jornal, quando este já vivia em crise existencial (como fazer o Indy não havendo MEC, nem Portas, nem Cavaco?), depois trabalhou no Diário Económico, e acabou por integrar a TVI, tornando-se figura de referência da TVI24 (canal que antecedeu a CNN Portugal). Foi editora de política e comentadora de política na TVI. N’O Independente, fez investigação, deu cachas de política, fez reportagens de requinte literário e com um sentido de humor tão retorcido que este aspirante a jornalista nunca as esqueceu. 

Minudências, ironia e sarcasmo

Foi no jornal que Constança começou a fazer comentário. A partir de certa altura tinha uma coluna de opinião fixa, página inteira, sobre a semana que passou, e não evitava assunto nenhum, por maior ou mais insignificante que fosse. Ela gostava de insignificâncias, aqueles gestos pequenitos de quem se imagina grande, aqueles lapsus linguae que eram autênticos tratados de psicanálise, lidos pela Constança com a profundidade que se exigia, a ironia ou o sarcasmo que mereciam.

Eis um excerto de um texto de 1992 sobre o outrora grande Francisco Lucas Pires: “Durante anos a fio, insinuou a formação de uma nova força política que ao princípio se dizia liberal, depois se calculou popular e finalmente, atenta às trapalhadas do socialismo, parece encaminhar-se para o centro. Nas eleições presidenciais, utilizou um método inteiramente novo no país que consistia em pré-candidatar-se de forma a saber se se podia candidatar.”

Ou este início da reportagem sobre a eleição de Manuel Monteiro como presidente do CDS. Título: “O Morteiro”. Lead: “O novo CDS, em dias de festa, convida a novos entusiasmos. Vibra intensamente com os ataques à classe política que ‘só pensa na carteira’, descortina uma gama variada de traidores sem castigo, e atinge píncaros verdadeiramente apoteóticos com a saga da nacionalidade – nesses momentos de grande altitude, deixa-se guiar pelos Descobrimentos e, passando glorioso pela Restauração, aterra num profundo desprezo pelo pacote Delors II e outras OPV's da soberania.”

O caráter e a coragem

A Constança tinha outra característica admirável, e cada vez mais rara no jornalismo português. O caráter. A verticalidade. Como pensava pela sua cabeça e não papava cartilhas, dificultava a vida a quem lhe quisesse colar rótulos. A Constança era de direita, de centro ou de esquerda? Sim, isso mesmo. Era o que a sua consciência a mandava ser a cada momento, sobre cada assunto. Não era ligeireza nem conveniência, era coluna vertebral, mesmo.

Ferroou o cavaquismo, porque gostava de democracia e de liberdade, mas não de autocratas ou de língua de pau. 

“Apontamento reflexivo recolhido do discurso de Cavaco no Pontal: ‘Temos que ganhar o futuro porque é o espaço onde cada um de vós vai passar o resto da sua vida.’ Quem havia de dizer que depois do presente vinha o futuro? E porquê o ‘vós’? Onde tenciona o primeiro-ministro passar o resto da vida? No ano de 1985? No oásis que o génio de Braga de Macedo criou? O cavaquismo é cada vez mais um poço de interrogações.”

Zurziu o guterrismo e o pós-cavaquismo, porque não gostava de conversa mole e vazia.

“Aparentemente, existe uma nova moda entre os dirigentes políticos nacionais: dar entrevistas sem dizer nada. Este hábito é relaxante, cura algumas insónias, e tem sido brilhantemente aplicado pelo dr. Nogueira. Nas últimas semanas, o presidente do PSD conseguiu encher páginas de jornais sem que escorresse, pelo meio, a sombra de um único pensamento original. Seguindo-lhe as pisadas, o eng. Guterres decidiu também dar uma extensa entrevista da qual arredou qualquer espécie de novidade. Aparentemente, a ideia é aparecer. Depois, e como não há nada de novo a dizer, repete-se uma inesgotável série de banalidades. Exemplos: tenho o partido na mão; também tenho o partido na mão mas não digo; gosto muito de transparência; fui o primeiro a gostar de transparência; quero a polícia na rua; também quero a policia na rua; não tenho opinião definitiva sobre o referendo; eu já tive opinião sobre o referendo mas neste momento estou aberto ao debate, as pessoas não são números; as pessoas não são de facto números, têm afectos e sentimentos: eu também tenho afectos e sentimentos (...).”

Vinha da direita, mas parodiava a direita como ninguém, talvez por lhe conhecer os genes. Quando já era público e notório que Paulo Portas tinha alinhado o jornal com o CDS, de Manuel Monteiro, e se preparava para dar o salto para a vida partidária, Constança era ainda mais implacável na análise desse CDS, que lhe ia roubar “o Paulo” para a política. 

A sua reportagem sobre a noite passada pela direção do CDS na pesca da sardinha é de antologia. “A noite começa a transformar-se em martírio. São cinco da manhã, a traineira está parada, a sardinha amontoa-se na rede, o frio deixou de se suportar, metade dos jornalistas está já a dormir em pé, Manuel Monteiro olha o relógio com muita regularidade. A hora é propícia a pensamentos amargos. Como é óbvio, a Campanha das Pescas já perdeu há muito a eventualíssima graça que poderia ter no princípio. A campanha transformou-se num filme neo-realista que parece nunca mais acabar. Toninho Xavier adormeceu sentado num banco de madeira. Alguếm ainda com sentido de humor diz que, afinal, não é só na Assembleia que os deputados dormem mal.”

O elogio de Marcelo

O caráter foi uma das dimensões que Marcelo Rebelo de Sousa destacou na homenagem que fez à jornalista esta manhã, na página oficial da Presidência da República. “Mulher de grande carácter, inteligência e rigor, destacou-se pela sua independência de pensamento e por um constante sentido de responsabilidade cívica.” Embora em convalescença, o PR não deixou de assinalar a grandeza da Constança, “uma figura singular do jornalismo português, cujo percurso profissional e humano deixa uma memória indelével em todos quantos com ela tiveram o privilégio de trabalhar e de privar.” Tudo certo. Quando quer, Marcelo é um príncipe das palavras.

PS: duas ou três memórias que preciso de acrescentar

Permitam-me que termine com um testemunho mais pessoal. Não sei fazer este texto de outra forma. Eu, que não perdia uma edição d’O Independente, o primeiro periódico que comprei religiosamente (até escrevi um livro sobre o jornal), aprendi a olhar o mundo, a pensar e a escrever sobre ele com o Miguel Esteves Cardoso, o Paulo Portas, o Vasco Pulido Valente, o Leonardo Ferraz de Carvalho, o João Bénard da Costa, entre tantos. Mas nenhuma assinatura n'O Independente me influenciou tanto como a da Constança. Ela não foi fundadora do jornal, mas tornou-se um dos seus pilares. Eu teria 17, 18 anos, e acho que ainda hoje consigo citar passagens de alguns de alguns dos seus textos. Suspeito que possa não ser caso único.

Num dia, em outubro de 1996, era eu estagiário de política no Público, a Constança convidou-me para almoçar. Bastava isso e já me sentiria no Olimpo. Mas nesse almoço, que a Constança começou e acabou com um Cutty Sark com água, e durante o qual fumou o tempo todo, ela convidou-me para ser jornalista d’O Independente. Não sem antes falarmos longamente sobre a atualidade política (eu tinha 23 anos, e a Constança Cunha e Sá estava genuinamente interessada em ouvir-me! Belisquem-me, por favor), e nos termos rido à gargalhada sei lá sobre o quê. Disse que sim, claro.

A minha passagem pelo Indy foi um erro, o jornal não sabia como reinventar-se depois dos tempos áureos das manchetes de estalo sobre o cavaquismo. Ao fim de 4 meses, despedi-me de forma algo abrupta e bastante pública (numa reunião de redação). Aquela não era a minha redação, mas a Constança continuou a ser a minha querida Constança. Ela continuou a tratar-me por “Filipinho”. 

Uns anos depois, estava eu editor do Diário Económico e a Constança escrevia “para mim”. Estas trocas de papéis são moeda corrente no jornalismo. A Constança, que era uma estrela por direito próprio, nunca se amargurou com os altos e baixos da carreira. Dava tudo o que tinha em cada texto que lhe pedia. E, invariavelmente, telefonava-me insegura sobre o resultado final, se era aquilo que eu queria, se tinha acertado no tom, se, se, se… A resposta era sempre a mesma: “Está ótimo, Constança!”

Quando publiquei o meu primeiro livro, pedi-lhe que escrevesse o prefácio. Ela fê-lo com verdadeiro gosto, e eu li-o com o mesmo deslumbramento com que fui almoçar com ela pela primeira vez.

Cruzámo-nos depois em debates televisivos, e era um prazer debater com alguém com a sua cultura, a sua memória, a sua experiência, a sua leitura política. Quando, em 2021, a TVI24 me convidou para conduzir um programa semanal de debate político, era este o painel que queria: o Sérgio Sousa Pinto, o Sebastião Bugalho e a Constança. Queria tanto vê-la a despentear-lhes as certezas, a desconstruir-lhes o tom solene, a fazer-nos vacilar a cada semana. Infelizmente, a Constança não pôde aceitar. Julgo que foi o último convite que teve para voltar à televisão.

Mas mantinha-se ativa no Twitter, frontal, incontrolável, imprevisível, iconoclasta, como sempre. Tinha legiões igualmente empenhadas de seguidores e de detratores. Nunca era indiferente. Até ao fim, acompanhou a política indígena, partilhou opiniões com amigos chegados, indignou-se com o “estado a que isto chegou”. 

Que tenha dado conta, a sua última afirmação política pública foi o apoio à candidatura presidencial de António Filipe. Uma candidatura sem perspectivas de vitória, mas transparente nas palavras, firme nos propósitos, coerente nas posições. De quebrar, mas não de torcer. Faz sentido.

A betinha de direita, conservadora, católica, não deixava que a desviassem do seu caminho, por muito sinuoso e improvável que fosse. Chegou onde tinha de chegar. Já não estamos no Kansas, Dorothy. 

Descansa em paz, Constança.

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