Sonae “retalha” negócios e volta às compras lá fora. Para onde vai a dona do Continente? - TVI

Sonae “retalha” negócios e volta às compras lá fora. Para onde vai a dona do Continente?

  • ECO - Parceiro CNN Portugal
  • Patrícia Abreu
  • 7 fev, 07:41
Cláudia Azevedo (Sonae)

Holding avançou com duas propostas de mil milhões em novas aquisições, reforçando a aposta em novas unidades de negócio. Analistas dizem que operações vão acelerar crescimento das receitas

Depois de um período marcado por alguns desinvestimentos, a Sonae regressou em força às aquisições, com dois negócios avaliados acima de 1.000 milhões de euros em novas áreas de negócios. Uma estratégia que, dizem os especialistas consultados pelo ECO, vai permitir à empresa explorar novas fontes de receita e reforçar o crescimento da empresa.

À espera de concluir a compra da finlandesa Musti, a Sonae anunciou no arranque desta semana que está a negociar, através da sua subsidiária Sparkfood, a compra de 89% do capital da francesa Diorren, empresa detentora da BCF Life Sciences, por 152 milhões de euros. A BCF é uma empresa que “produz ingredientes para a indústria de nutrição através de um processo de produção inovador apoiado nos princípios da economia circular”.

“A BCF tem um percurso consistente de crescimento e rentabilidade, tendo terminado 2023 com um volume de negócios de cerca de 53,5 milhões de euros, e um EBITDA de cerca de 14,1 milhões de euros. Após a concretização da transação, a BCF continuará a ser gerida pela atual equipa de gestão, a qual também planeia reinvestir na Diorren e, em termos agregados, deterá uma participação minoritária de cerca de 11%”, adiantou a empresa da Maia em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.

Esta aquisição, que espera que esteja concluída no primeiro semestre de 2024, vem juntar-se a uma outra operação que a companhia tem em curso: a oferta pública de aquisição lançada sobre a Musti. A oferta sobre a empresa nórdica especializada em produtos de cuidado e alimentação para animais de estimação avalia a companhia em 868 milhões de euros e marca a entrada da Sonae numa nova unidade de negócio. Somando os dois negócios, a empresa liderada por Cláudia Azevedo está a investir mais de mil milhões de euros para expandir os seus negócios e reforçar o crescimento de receitas.

O investimento previsto para a Musti, a que se junta o investimento anunciado na Diorren, é claramente um indicador que a Sonae vai investir forte numa nova área de negócio.

Pedro Barata

Gestor de ações nacionais da GNB

“Durante os últimos anos, a empresa teve uma postura mais vendedora, tendo ficado sempre a ideia que estaria em busca de uma nova área de negócio que permitisse à empresa crescer a um ritmo superior. Aparentemente, já o descobriu”, realça Pedro Barata, gestor do GNB Portugal Ações, ao ECO. “O investimento previsto para a Musti, a que se junta o investimento anunciado na Diorren, é claramente um indicador que a Sonae vai investir forte numa nova área de negócio”, acrescenta.

António Seladas, analista de ações da AS Independent Research, ressalva que “a companhia tem alienado diversos ativos, arrumado a casa e agora tem duas operações a correr relevantes”. Particularmente a Musti, especialista em alimentação e cuidados para animais de estimação, com lojas próprias, baseada na Finlândia, com presença na Noruega e Suécia”.

O mesmo especialista nota que “é notória na Sonae a ambição de internacionalizar e ter um formato que possa expandir internacionalmente, particularmente em setores com perspetivas de crescimento acima da média. Julgo que é isso que esperam obter nas áreas de alimentação e cuidados para animais de estimação e na alimentação alternativa”, remata.

É notória na Sonae a ambição de internacionalizar e ter um formato que possa expandir internacionalmente, particularmente em setores com perspetivas de crescimento acima da média. Julgo que é isso que esperam obter nas áreas de alimentação e cuidados para animais de estimação e na alimentação alternativa.

António Seladas

Analista da ações da AS Independent Research

Dos seguros e da alimentação, ao retalho e às telecomunicações

Para o mesmo analista independente, que avalia a empresa com um preço-alvo de 1,60 euros e uma recomendação de comprar, “a determinada altura especulou-se sobre a Sonae se tornar essencialmente uma empresa de retalho alimentar”. “Mas não foi esse o caminho — e, eventualmente, essa opção nunca esteve em cima da mesa, talvez tenha sido só especulação externa”, com a empresa a vincar o seu estatuto de holding com operações em várias áreas de negócio.

João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, considera que “a diversificação de negócios efetuado pela Sonae em diversas áreas, que não constituíam o núcleo ou core, pode ser interpretada como uma estratégia para mitigar potenciais riscos e explorar novas oportunidades de um crescimento mais acelerado”. Para o mesmo especialista, “a diversificação pode oferecer à Sonae uma vantagem competitiva, alavancando o seu conhecimento e a sólida infraestrutura existente, para poder testar a entrada em novos negócios e segmentos de mercados”.

A diversificação pode oferecer à Sonae uma vantagem competitiva, alavancando o seu conhecimento e a sólida infraestrutura existente, para poder testar a entrada em novos negócios e segmentos de mercados.

João Queiroz

Head of trading do Banco Carregosa

As recentes alterações efetuadas no retalho especializado, como a alienação das clínicas Dr. Wells à Lusíadas (mantém as farmácias e parafarmácias) e a venda da participação na dona da SportZone à JD Sports, permitiram o “ajuste dos negócios, reduzindo a dependência a alguns segmentos de mercado e a geração de resultados em áreas que já tinha desenvolvido e atingido o estado de maturidade”, detalha João Queiroz. Ainda no ano passado, a Sonae vendeu 50% do Universo ao Bankinter, por 19 milhões de euros.

Henrique Tomé destaca que, tratando-se de um conglomerado, é um grupo de empresas que operam em vários ramos de atividade sob a alçada da mesma gestão”. O analista da XTB Portugal considera que “o facto de terem atividades diversas no seu portefólio pode diversificar a sua fonte de receitas e faz com que não estejam dependentes de apenas um setor ou geografia”.

“Por exemplo, neste momento a Sonae prepara-se para adquirir a Musti que é uma empresa finlandesa que opera no ramo de produtos de tratamento para animais (veterinária, produtos, seguros) de estimação na Finlândia, Suécia e Noruega. Esta aquisição deverá aumentar as receitas do grupo e melhorar as sinergias com a empresa do grupo ZU”, explica.

A Sonae tem atividade em vários setores de atividade, com um portefólio dividido por várias unidades/marcas do grupo. A Sonae MC controla o segmento de retalho alimentar, saúde e bem-estar. Já a Worten tem a parte eletrónica, enquanto a moda fica na Zeitreel e a alimentação na Sparkfood. O Universo é a marca de serviços financeiros do grupo e a Brightpixel faz gestão de investimentos. A Sonae conta ainda com negócios na área do imobiliário, controlados pela Sierra, e tem ainda uma posição na Nos.

A antiga Sonae IM, o braço de investimento em capital de risco do grupo, tem sido uma das mais ativas no reforço do portefólio. Só no primeiro semestre do ano passado somou seis novos investimentos, chegando a junho com mais de 40 empresas participadas. Na operação mais recente, anunciada já este ano, liderou a ronda de 27,4 milhões de euros da tecnológica israelita Vicarius.

Travão nas aquisições?

O anúncio da compra da empresa francesa, feito esta segunda-feira, acabou por surpreender o mercado, na medida em que surge apenas uma semana depois do CFO da empresa ter afastado a hipótese de avançar “nos próximos anos” com novas aquisições da mesma magnitude da OPA da Musti. Uma estratégia que, para os analistas, faz sentido.

“A concretizarem-se estas duas aquisições, estou convencido que a empresa poderá fazer uma pausa nas aquisições, concentrando-se em dinamizar e fazer crescer os negócios comprados”, refere Pedro Barata. “Se se consumarem as propostas que estão a correr, particularmente a Musti, o ritmo de aquisições deve abrandar muito, mais que não seja porque a empresa ficará junto a alguns limites auto impostos”, concorda António Seladas. “Ainda assim, na Sparkfood, que é a nova sub-holding da Sonae para a ‘comida alternativa’, admito que se continue a fazer pequenas aquisições”, acrescenta.

Já João Queiroz refere que, “atendendo ao histórico de diversificação da Sonae e à sua estratégia de crescimento, através de inovação e da procura de expansão para novos mercados, é muito provável que a empresa continue a explorar e reforçar novas áreas de negócio”. É que, salienta, esta abordagem permite à Sonae “adaptar-se às mudanças de mercado e à captação de novas oportunidades, mantendo-se relevante e competitiva”.

Nos primeiros nove meses de 2023, em que viu os lucros caírem 36% para 135 milhões de euros, em termos homólogos, a Sonae superou os seis mil milhões de euros de faturação até setembro, o que representou um aumento de 10,4% face em igual período do ano passado. A companhia indicou que esta evolução foi “impulsionada principalmente pela MC, que consolidou a sua posição de liderança no mercado português de retalho alimentar”. No próximo dia 14 de março, a companhia apresenta os resultados globais de 2023.

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