Os EUA estão a enfrentar uma onda de casos de covid-19 que está a preocupar os especialistas em todo o mundo, sobretudo pela nova subvariante que está a impulsionar este aumento de infeções, a XBB.1.5., e que parece fugir à imunidade. E tudo indica que esta onda não fica por aqui, com os especialistas a considerarem que o pico de infeções nos EUA ainda não foi atingido.

Em apenas uma semana, o número de mortes por covid-19 aumentou 44% nos EUA, passando de 2.705 óbitos registados na primeira semana de janeiro para 3.907 na semana passada, segundo dados do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (ECDC, na sigla em inglês).

E não vai ficar por aqui, adverte Neil Sehgal, professor de políticas e gestão de saúde na Escola de Saúde Pública da Universidade de Maryland, citado pelo The Guardian: "Ainda não parece que atingimos o pico."

“Os hospitais já atingiram a capacidade máxima. Não sei qual será a trajetória desta coisa, mas estou preocupado”, admitiu Brendan Williams, presidente da Associação de Cuidados de Saúde de New Hampshire, referindo-se à situação atual dos hospitais da região localizada no nordeste dos EUA.

As subvariantes da Ómicron - a BQ.1.1 e BQ.1, bem como a XBB.1.5, estão a propagar-se rapidamente pelos EUA e representam já a maioria dos casos registados no país. O nordeste, onde mais de 80% dos casos de covid-19 dizem respeito à subvariante XBB.1.5, é a região com a maior proporção de casos positivos, de acordo com dados do ECDC.

“Com a XBB.1.5, a vantagem de transmissão é tão significativa que a exposição [ao vírus] é mesmo arriscada - é mais arriscada agora do que alguma vez foi” em termos de transmissibilidade, notou Sehgal.

Desde que a XBB.1.5 (ou variante Kraken, como é informalmente designada) foi descoberta nos EUA, em outubro do ano passado, o número de casos tem vindo a aumentar, ainda que de forma gradual. Os especialistas argumentam que este crescimento lento do número de infeções se deve essencialmente a uma maior relutância da população em relação à testagem. 

Também as hospitalizações ainda não atingiram números registados nos picos anteriores, e os especialistas atribuem esse fator à imunidade induzida pela vacinação. Mas essa proteção não vai durar para sempre, adverte Stuart Ray, professor de medicina e doenças infecciosas da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins: "As doses de reforço fazem mesmo a diferença. Os casos graves que verificamos agora provavelmente podem ser evitáveis se as pessoas garantirem que o seu esquema de vacinação está atualizado, porque essa ainda é a maneira mais segura de obter imunidade."

Os "erros políticos" que poderão ter levado a esta nova onda de casos

De acordo com o The Guardian, apesar das vantagens comprovadas das doses de reforço das vacinas na prevenção da doença grave associada à covid-19, apenas 15.4% dos norte-americanos com idade superior a cinco anos recebeu as mais recentes doses de reforço. Brendan Williams acredita que esta relutância relativamente às doses de reforço são resultado de "alguns erros políticos", referindo-se a Joe Biden, que em setembro passado declarou o fim da pandemia.

“É um desafio perceber essa narrativa paralela de que já não nos devemos preocupar com a covid, e ao mesmo tempo aderirmos à vacinação”, frisou Sehgal, que também qualificou a declaração de Joe Biden como um "erro não forçado”.

É certo que a vacinação é extremamente importante no que diz respeito à prevenção da doença grave da covid-19, mas há outras medidas preventivas que podem (e devem) ser adotadas, mas que não estão a ser implementadas nos EUA, nomeadamente o uso de máscara.

“Acho que a maioria das pessoas que não está a usar máscaras agora, simplesmente não sabe que devia estar a fazê-lo”, apontou o professor da Universidade de Maryland,

Tal como aconteceu nas anteriores ondas de covid-19 um pouco por todo o mundo, a principal preocupação perante um novo aumento do número de infeções são os grupos mais vulneráveis, incluindo os idosos. E é precisamente nos lares de idosos que se regista um maior número de casos de covid-19, como revela ao The Guardian Brendan Williams. "O primeiro passo para manter as pessoas saudáveis num lar de idosos é manter as pessoas saudáveis ​​na comunidade”, começou por dizer.

Mas “parece que as pessoas não estão a usar máscaras e a receberem as doses de reforço", prosseguiu. "As pessoas não estão a levar nada disto a sério. Parece que declarámos que, quando se trata de mortalidade por covid-19, somos o [país] número um, e esse é um título do qual não vamos abrir mão para nenhum outro país”, lamentou o responsável.

Beatriz Céu