Porque é que agora ficamos mais vezes doentes? - TVI

Porque é que agora ficamos mais vezes doentes?

Pessoa doente (Pexels)

Especialistas falam num “boom” na frequência com que as crianças e adultos ficam doentes, sobretudo com infeções respiratórias. Parte da explicação está na forma como os confinamentos interferiram no sistema imunitário

Duas infeções respiratórias no espaço de alguns meses, conjuntivites que surgem de forma repetida como nunca tinha acontecido, miúdos que rapidamente voltam a ficar com uma gastroenterite, gripes que nos atiram para a cama e parecem não ter um fim à vista. Estamos a ficar doentes mais vezes? A resposta é sim e há três fatores para isso, dizem os especialistas.

As pessoas estão a adoecer mais. Crianças e adultos andaram mais protegidos durante bastante tempo e essa proteção conta a covid-19 acabou por condicionar a capacidade de resposta e isto faz com que, ao contactar com microrganismos, as pessoas adoeçam mais”, começa por explicar Hugo Rodrigues, pediatra na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, em Viana do Castelo.

A proteção contra a covid-19, sobretudo através dos confinamentos, do uso de máscaras e da maior e mais eficaz higienização das mãos, salvou milhões de vidas em todo o mundo, mas causou um ‘défice’ no sistema imunitário (sobretudo no adquirido, que se ‘alimenta’ dos contactos e contágios).  Este, ao longo de três anos, com mais ou menos frequência, deixou de contactar com agentes que eram habituais e que ajudam a construir o escudo-protetor que o sistema imunitário é.

Já está descrito na literatura que os sucessivos lockdowns [confinamentos] não são positivos para o treino do nosso sistema imunitário. As vacinas treinam-no, são positivas, tornam o sistema imunitário mais forte, mas o contacto com os vírus e bactérias no nosso dia a dia e quando os miúdos brincam na terra é que o treinam”, adianta Manuel Ferreira de Magalhães, pediatra da Unidade de Pneumologia Pediátrica do Centro Materno Infantil do Norte.

Graham Rook, microbiologista da University College London, explica ao The Guardian que “o nosso sistema imunitário é um sistema de aprendizagem, assim como o cérebro” e que pode ser dividido em dois: o inato e o adquirido. O primeiro nasce connosco e está codificado nos nossos genes; já o segundo (que tem implicações diretas no primeiro) constrói-se através do contacto com vírus, bactérias e micróbios e da informação que recolhe desse mesmo contacto. E sem esse contacto, o sistema imunitário estranha e começa a atacar, “causando alergias, asma e doenças autoimunes”, lê-se no jornal.

Manuel Ferreira de Magalhães deixa claro que “é óbvio que os lockdowns foram absolutamente necessários para salvar muitas vidas”, mas destaca que fazer “cair as máscaras é essencial”, de modo a que todos passem a “contactar uns com os outros” e com os microrganismos que circulam “para o treino do nosso sistema imunitário”.

Ainda em 2020, um estudo publicado na revista Cardiovascular Research afirma que os confinamentos travaram a disseminação do vírus - cujas cepas iniciais na altura tinham uma taxa de mortalidade grande -, mas que trazia impactos diretos no sistema imunitário e na saúde cardiovascular.

Mudança na sazonalidade dos vírus também é um fator em jogo

A noção de ‘dívida de imunidade’ como a causa desse aumento nas doenças respiratórias foi mencionado pela primeira vez num artigo publicado em agosto de 2021 na Infectious Diseases Now. Segundo Manuel Ferreira de Magalhães , “o que assistimos foi uma alteração no padrão de doenças infecciosas, sobretudo respiratórias, que vinham no inverno e chegaram no verão, como o VSR [vírus sincicial respiratório]”.

No ano passado, este vírus começou a circular mais cedo do que o habitual e com mais intensidade. “O organismo das crianças não estava habituado aquele contacto e teve uma resposta mais agressiva”, diz 

O pediatra Hugo Rodrigues, também autor da página Pediatra Para Todos, destaca que “a própria adaptação da natureza” é também um fator a ter em conta. “Com o uso de máscaras e menos viagens perdemos a sazonalidade de infeções respiratórias e gastrointestinais”, diz, explicando que, por isso, “teremos uma uniformização dos vírus ao longo dos anos”. Ou seja, se até à chegada da pandemia o habitual era um vírus circular cerca de dois a três meses, agora podem estar presentes quatro a cinco meses. Além disso, adianta, “vão coexistir vários vírus ao mesmo tempo”, um pouco como já aconteceu este inverno.

O The New York Times chegou mesmo a referir esta coinfeção como ‘tripledemia’ (junção das palavras em inglês para tripla e epidemia), que junta o SARS-CoV-2, ao Influenza e ao VSR

“Estas coinfecções vão aumentar a probabilidade de contágio e justifica esta maior frequência de infeções”, continua o pediatra Hugo Rodrigues.

E quando voltaremos ao ‘normal’? Essa é uma questão para um milhão de euros, mas, esclarece Hugo Rodrigues, o que a literatura tem mostrado é que “precisamos de dois a três anos para recuperar a sazonalidade”.

“Este inverno já foi mais normal, mas  ainda não é igual a época pré-covid. Mas acredito que o próximo seja”, adianta, esperançoso de que a queda do uso de máscaras e o contacto que no ano passado já houve com outros vírus contribuam para uma maior imunidade global.

E qual o papel da covid-19?

Se houve quem tivesse contraído SARS-CoV-2 e ficado bem, a verdade é que uma boa parte das pessoas ainda sente na pele as marcas da infeção - e isso pode ser um motivo para que adoeçam mais recorrentemente ou que fiquem com sintomas mais exacerbados. 

No site The Conversation, Lara Herrero, chefe de pesquisa em Virologia e Doenças Infecciosas na Griffith University, revela que alguns estudos “sugerem que mudanças nas nossas células imunitárias após a infecção por SARS-CoV-2” podem "afetar a nossa capacidade de combater outros vírus, bem como outros patógenos, como bactérias ou fungos”.

Um estudo australiano, por exemplo, revela que o vírus responsável pela covid-19 altera o equilíbrio das células imunitárias até 24 semanas após a eliminação da infecção ligeira. Mas a verdade é que a própria covid de longa duração - que afeta uma em cada dez pessoas infectadas - tem efeitos nocivos generalizados no organismo, podendo também dificultar a resistência e o combate a outros vírus e bactérias.

 

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