Mais crédito e mais intermediação exigem mais responsabilidade - TVI

Mais crédito e mais intermediação exigem mais responsabilidade

    João Nunes
    Gestor de Formação e Auditoria da Twinkloo
  • 5 ago, 11:00

O mercado de crédito aos consumidores cresceu de forma significativa em Portugal durante 2025. De acordo com o mais recente Relatório de Acompanhamento dos Mercados de Crédito do Banco de Portugal, o montante concedido aumentou 10,8%, mantendo o ritmo do ano anterior. Os números refletem um contexto económico mais favorável, marcado pela descida das taxas de juro e pelo aumento do rendimento disponível das famílias. Mostram, também, que o crédito continua a desempenhar um papel importante na concretização dos projetos dos portugueses.

Mas o dado mais relevante está na forma como os portugueses procuram financiamento. Pela primeira vez desde a entrada em vigor, em 2018, do regime que regula esta atividade, os intermediários de crédito tornaram-se o principal canal de comercialização de crédito aos consumidores. Em 2025, foram responsáveis por 50,6% do montante concedido, ultrapassando os 49,4% contratados diretamente junto das instituições financeiras.

A diferença é reduzida, mas significativa. Atualmente, os consumidores procuram apoio para compreender um mercado com diferentes instituições, produtos, taxas, prazos e condições. Esta confiança pode representar uma oportunidade, mas sobretudo uma responsabilidade acrescida porque a contratação de um crédito é uma decisão que pode condicionar o orçamento familiar durante vários anos. O que parece vantajoso no imediato, pode não o ser. Um prazo mais longo pode representar uma prestação mensal mais baixa e esconder um custo total superior. Uma taxa promocional pode ser interessante numa primeira fase, mas deve ser analisada em conjunto com comissões, seguros, produtos associados e restantes condições contratuais.

É neste contexto que a intermediação pode acrescentar valor: não apenas aproximando o consumidor das instituições financeiras, mas também ajudando-o a compreender e comparar as soluções existentes.

Um intermediário responsável não procura crédito a qualquer custo, nem tenta maximizar o montante que o cliente consegue contratar. Procura uma solução ajustada às necessidades e à capacidade financeira de cada pessoa. Isso implica avaliar o peso da prestação no orçamento, explicar os encargos e, em alguns casos, reconhecer que um novo crédito não é a resposta mais adequada.

A digitalização tornou os processos mais rápidos, mas não as decisões. A título de exemplo, preencher um formulário pode demorar poucos minutos, mas assumir um compromisso financeiro poderá ter consequências durante vários anos. A tecnologia deve ser acompanhada por informação compreensível e pela possibilidade de esclarecer dúvidas. A eficiência digital é importante, mas o acompanhamento humano continua a ser decisivo.

Os dados relativos ao incumprimento aconselham prudência. Apesar do crescimento da contratação, o incumprimento manteve-se globalmente contido em 2025, embora tenha registado um ligeiro aumento no montante e no número de contratos.

Num contexto em que os rendimentos, as taxas de juro e o custo de vida podem oscilar, o crédito deve continuar a ser concedido e contratado de forma responsável. Os novos limites relativos ao DSTI e à maturidade dos créditos, que entraram em vigor no dia 1 de agosto de 2026, reforçam essa necessidade.

Ser o principal canal de comercialização não representa apenas uma conquista para o setor, representa um compromisso acrescido com a transparência, a qualificação dos profissionais, a proteção dos consumidores e a sustentabilidade das decisões financeiras.

O futuro da intermediação será determinado pela qualidade do acompanhamento, pela adequação das soluções e pela capacidade de transformar processos complexos em decisões informadas. Quanto maior for a confiança dos consumidores, maior terá de ser a responsabilidade dos intermediários de crédito.

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