Está na hora de nos preocuparmos com um “default” dos EUA. Desta vez, a sério - TVI

Está na hora de nos preocuparmos com um “default” dos EUA. Desta vez, a sério

  • CNN
  • Zachary B. Wolf
  • 2 mai 2023, 07:30
Janet Yellen Getty Images

ANÁLISE. Economia americana enfrenta duas crises. Mas enquanto os reguladores são rápidos a travar a crise bancária, os políticos estão lentos em lidar com a crise da dívida.

Duas crises convergentes estão a testar a confiança dos americanos no seu bem-estar financeiro.

Há uma crise bancária, que as autoridades reguladoras e os grandes bancos americanos querem muito que se acredite que está a terminar, depois de uma ação decisiva no fim-de-semana para assumir o controlo e engolir outro banco em dificuldades.

E há uma crise da dívida, que se está a tornar mais urgente à medida que os Estados Unidos se aproximam da “data X” - quando entrarão em incumprimento (default) - e sobre a qual os deputados opositores não estão atualmente a falar uns com os outros.

A Secretária do Tesouro, Janet Yellen, disse na segunda-feira que a data X poderá chegar logo a 1 de junho. Mas este tem sido um alvo em movimento.

O Presidente Joe Biden telefonou na segunda-feira aos quatro principais líderes do Congresso, incluindo o presidente da Câmara, Kevin McCarthy, para discutir o aumento do teto da dívida, de acordo com duas fontes familiarizadas com o assunto.

Primeiro, sobre bancos, ação e acordo

Os americanos acordaram na segunda-feira com a notícia de que um terceiro banco dos EUA, o First Republic, tinha falido. O First Republic, que se dedicava a clientes ricos da costa, estava à beira do colapso desde março, quando dois outros bancos regionais faliram.

O First Republic Bank foi adquirido pela Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) na segunda-feira e a maior parte dos seus ativos foi vendida ao JPMorgan Chase. O culminar da ação dos reguladores governamentais e do sector bancário foi a proteção dos credores e a manutenção da confiança no sistema bancário como um todo, sem expor os contribuintes a um resgate impopular.

“Ninguém está a chorar por causa do First Republic Bank”, disse Christine Romans, correspondente de negócios da CNN, durante o programa “CNN This Morning”.

“Mas ninguém quer que o caos e a turbulência se espalhem para o resto do sistema bancário”, acrescentou, explicando a aquisição.

O ex-secretário do Tesouro Larry Summers, em declarações à Bloomberg antes da tomada de controlo, disse que é importante conter os problemas no sistema bancário porque eles podem facilmente espalhar-se.

“Estas coisas são como incêndios florestais”, disse Summers. “É muito mais fácil preveni-los do que contê-los depois de começarem a espalhar-se.”

Elogiando a intervenção, Biden tentou assegurar aos americanos que o sistema bancário estava “são e salvo”, durante uma aparição em Washington, DC, na segunda-feira.

Manter a confiança

Nada disto significa que este seja um capítulo dourado para o sistema financeiro americano. A falência de três bancos este ano sugere uma análise rigorosa da forma como os bancos são supervisionados. E a Reserva Federal [Fed, o banco central e supervisor] perdeu alguma credibilidade entre economistas de topo.

“Ainda não se sabe se a turbulência financeira ainda latente, desencadeada pelo colapso do SVB (Silicon Valley Bank), se transformará numa crise mais profunda, mas os investidores e os depositantes não têm razões para confiar nas garantias da Reserva Federal de que isso não acontecerá”, escreveu Joseph Stiglitz, professor da Universidade de Columbia e prémio Nobel, para o site MarketWatch. “Só reformas significativas do seguro de depósitos, da governação, da estrutura regulamentar e da supervisão podem restaurar a confiança nos bancos e a credibilidade da Fed”.

Na verdade, o FDIC está a defender o aumento do montante dos depósitos garantidos acima do atual limite de 250 mil dólares. Leia mais sobre esta história em desenvolvimento.

Agora, a crise da dívida e a data X

Se ao menos os membros da Câmara americanos se inspirassem na saga da Primeira República e se reunissem numa sala para resolver a crise da dívida… Em vez disso, os legisladores republicanos e democratas continuam a manter a postura, apesar de o país estar a cerca de um mês da data X, quando começa a não pagar as suas dívidas.

O que aconteceria exatamente logo a seguir à data X não é totalmente claro, mas poderia levar a uma crise de confiança no governo dos EUA, tornando mais difícil continuar a financiar a Segurança Social e o Medicare; ameaçar o valor do dólar, que tem sido uma pedra angular da economia mundial; e levar o país a uma recessão.

Não estão a falar

Em vez de limparem as suas agendas para garantir que o governo pode continuar a passar cheques para toda a dívida que já acumulou, os legisladores continuam nos seus cantos partidários.

Na semana passada, os republicanos da Câmara dos Representantes fizeram a sua primeira oferta nas negociações, aprovando um projeto de lei para cortar indiscriminadamente milhares de milhões de dólares em despesas federais, reverter para os níveis de despesa de 2022, anular as despesas contra as alterações climáticas defendidas pelos democratas e impor novos requisitos de trabalho para os beneficiários do [sistema de saúde] Medicaid. O projeto de lei, que não tem qualquer hipótese de arranque no Senado, garantiria também um novo debate sobre a dívida no próximo ano.

Esta semana, em vez de discutir o assunto, McCarthy está em Jerusalém, reunido com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu.

“O presidente ainda não falou comigo”, disse McCarthy, deixando claro que quer negociar com Biden.

Não é uma “nação caloteira”

A Casa Branca, por sua vez, argumentou que não deve haver negociação sobre o pagamento de contas de dívidas emitidas para cobrir gastos já autorizados pelo Congresso.

“A América não é uma nação caloteira”, disse Biden durante o evento em Washington, usando o termo associado aos pais que não pagam a pensão alimentar. “Nunca deixámos de cumprir a dívida. E, como resultado, uma das nações mais respeitadas do mundo, pagamos as nossas contas e devemos fazê-lo sem a imprudente tomada de reféns por alguns dos republicanos MAGA no Congresso". [Nota: MAGA é o acrónimo de Make America Great Again, o lema de Donald Trump].

Preocupado com o debate sobre a dívida, não com os bancos

Perguntei a Justin Wolfers, professor de economia e políticas públicas na Universidade de Michigan, o que separa a crise da dívida da crise bancária.

Ele disse-me, por telefone, que não está nada preocupado com o dinheiro que depositou num banco americano, argumentando que tem total confiança na FDIC para cobrir os depósitos, como ela e os bancos fizeram com os três bancos que faliram este ano.

Ele salientou também que as falências bancárias representam três instituições relativamente pequenas para os padrões americanos.

Mas está extremamente preocupado com o facto de os EUA não cumprirem a sua dívida.

“Esta geração de reguladores bancários aprendeu com os erros da Grande Depressão e da crise financeira de 2008”, disse Wolfers, sugerindo que não têm pruridos em intervir precocemente para manter a confiança no sistema financeiro.

Não há confiança semelhante nos políticos do país para fazer o mesmo.

“Há um grande receio de que esta geração de legisladores seja mais irresponsável, mais polarizada e mais disposta a causar danos do que qualquer geração anterior”, disse.

A dada altura, num futuro muito próximo, chegaremos ao ponto em que Biden e McCarthy, juntamente com outros democratas e republicanos de topo, terão de se unir para evitar um incumprimento ou lidar com as consequências da sua ocorrência. A questão é saber se, entretanto, a economia será prejudicada.

“Digo-vos que estou mais preocupado do que alguma vez estive na minha carreira, neste momento, com a possibilidade de o céu cair”, disse Wolfers, referindo que, em anteriores impasses sobre o teto da dívida, os republicanos acabaram por desistir perante a pressão das alas mais moderadas do partido. Não está claro se isso vai acontecer desta vez.

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