O MAISFUTEBOL viajou até Riade e encontrou-se com Omar Mugharbel, CEO da Saudi Pro League, num encontro promovido pela própria Liga Saudita.
Numa entrevista coletiva, juntamente com meios de comunicação de Portugal, Espanha e México, Omar Mugharbel falou do processo de transformação da Liga Saudita.
Ronaldo, garantiu, foi o catalisador que acelerou essa transformação e Jorge Jesus foi quem teve mais impacto dentro de campo. No futuro podem chegar até Mbappé ou Vinicius Jr.
Existem vários jogadores internacionais portugueses e vários treinadores portugueses na Liga Saudita. Qual é a importância deles no desenvolvimento do futebol no país?
Há um grande impacto que os portugueses trazem para a Liga, e vocês devem estar muito orgulhosos disso. Portugal tem muitos jogadores fantásticos e já o vimos em diferentes Ligas. Estamos orgulhosos de ter muitos portugueses, quer jogadores, quer profissionais do desporto. Vimos o impacto que eles têm tido, especialmente Jorge Jesus, que na época passada ganhou a Liga, a Supertaça e a Taça do Rei. Isto é um testamento muito forte do impacto que ele teve.
Particularizando no caso de Cristiano Ronaldo, qual foi a importância da vinda dele para a transformação da Liga Saudita?
Não há dúvida de que alguém como Cristiano Ronaldo, provavelmente um dos melhores jogadores de sempre a jogar este jogo, tem um enorme impacto dentro e fora do campo na Arábia Saudita. Acreditamos que ele nos ajudou a acelerar o nosso processo de desenvolvimento e transformação, abrindo as portas para que muitos outros jogadores se juntassem à Liga, considerando a Liga Saudita como uma oportunidade de carreira válida para eles. Vimos muitos jogadores que se mudaram para a Arábia Saudita na época passada, mas também muitos jogadores que chegaram na última janela de transferências. Por isso, é óbvio que ele ajudou muito no desenvolvimento da nossa transformação. Mas mesmo fora de campo vemos que Ronaldo está hoje muito bem integrado na comunidade, feliz com a sua família em Riade e a promover a Liga Saudita de uma forma muito eficaz. Por isso ele teve um profundo impacto na Liga, nos clubes e no país.
Foi o melhor investimento que fizeram?
Fizemos muitos investimentos e todos eles tiveram um impacto positivo no jogo e na exposição que temos. Mas sim, definitivamente Cristiano Ronaldo foi um enorme catalisador para acelerar o progresso que temos alcançado neste projeto de transformação.
Mas foi difícil trazer uma estrela como Ronaldo para esta Liga?
Não me parece que seja uma questão de dificuldade. Acho que um jogador como o Cristiano Ronaldo tinha interesse no projeto. Ele acreditou na transformação que estava a acontecer e ele é parte da transformação que hoje estamos a fazer. E acho que isto também mostra a confiança dele na transformação que está a acontecer e o impacto que queremos criar ao longo dos anos.
Antero Henrique disse recentemente que a Liga do Qatar é muito mais sustentável a longo prazo do que a Liga Saudita porque vocês não poderão continuar a investir como fizeram nestes dois primeiros anos. Ele está certo?
Este é um projeto a longo prazo, não tenham dúvidas. Não estamos aqui para fazer um choque de curto prazo. Todos os anos continuamos a investir em diferentes aspetos do jogo, para nos certificarmos de que estamos a ter um impacto sustentável a longo prazo. Portanto, não se trata de um projeto a curto prazo, mas sim de um projeto a muito longo prazo em que estamos a trabalhar.
E acha que no futuro será possível ver na Arábia Saudita estrelas mais jovens, como Vinicius Jr. ou Mbappé?
Se olharmos para o que tem acontecido nos últimos 18 meses, por exemplo, conseguimos atrair muitos jogadores, e até jogadores mais jovens. E até alterámos hoje os regulamentos, acrescentando dois jogadores estrangeiros com menos de 23 anos. Portanto, isto também dá uma indicação de que estamos a investir nesse espaço. No entanto, tudo o que estamos a fazer é a longo prazo. Portanto, não se trata do que fizemos apenas esta época, trata-se de como continuar a dar os passos certos para avançar. Acho que tudo é possível. O que era impossível há uns tempos, nós tornámo-lo possível. Temos essa mesma motivação no futuro e nunca se sabe o que podemos ver na próxima janela de transferências. Há muito desenvolvimento a acontecer e duvido que um jogador como o Nacho, que era o capitão do Real Madrid, não tenha isso em consideração quando decide mudar do Real Madrid para a Arábia Saudita.
Ainda têm o objetivo de ser uma das cinco melhores Ligas do mundo?
Sim, temos. Tudo o que estamos a fazer hoje leva-nos a esse objetivo. É um projeto por fases. O primeiro milestone é ficar entre as dez melhores Ligas do mundo. O segundo milestone é ficar entre as cinco melhores. E estamos bastante dedicados a esse objetivo.
E agora, qual é a vossa posição?
Eu diria que estamos muito perto do primeiro milestone. O top-10.
Acredita que será possível ver alguma equipa saudita a jogar na Europa, por exemplo na Liga dos Campeões?
Não há nenhuma conversa em curso atualmente sobre esse tema. Estamos muito concentrados em desenvolver a nossa própria Liga e é aí que queremos colocar todos os nossos esforços. No entanto, mantemos conversações com outras Ligas a nível mundial, porque acreditamos que o mundo do futebol funciona hoje como uma unidade e podemos tirar partido de muitos conhecimentos de diferentes Ligas de todo o mundo. Temos relações muito saudáveis com a La Liga, com a Série A, com a Bundesliga, com a J League [Japão] e há um intercâmbio constante, porque queremos aprender com as melhores práticas.
Já conversou com a Liga Portugal?
Ainda não. Temos uma lista e Portugal está nessa lista, entre outras ligas que queremos visitar.
Mas é um objetivo real ver o campeão da Liga Saudita na Liga dos Campeões?
Neste momento não existem discussões nesse sentido. Essa é a nossa posição atual.
Uma das grandes polémicas na Europa é a Superliga. Gostava de ver clubes sauditas a serem considerados para uma futura Superliga Europeia?
O nosso foco atual é como desenvolver o nosso próprio produto, como melhorar dentro e fora do campo e como aumentar o interesse e a atenção que a Liga Saudita recebe, tanto numa perspetiva nacional como internacional. E é nisso que nos concentramos hoje, porque acreditamos que, no fim de contas, fazemos parte de um ecossistema global e tudo o que fazemos pelo futebol e pela Arábia Saudita tem obviamente um impacto positivo no mundo do futebol como um todo. Por isso, esta é a nossa posição relativamente a esse assunto.
Como são definidos os critérios para os investimentos públicos nos clubes sauditas? Se o investimento vem do setor público, o que define o interesse em investir em cada clube?
Enquanto CEO da Liga, não posso comentar as áreas financeiras dos clubes porque não estamos envolvidos nisso.
Nesta altura há quatro equipas financiadas pelo setor público e há outras que estão a percorrer o caminho da privatização. Porquê?
É importante reconhecer que estamos numa jornada de transformação. Todos os clubes, historicamente, são propriedade pública ou do governo e, atualmente, estamos num processo acelerado de privatização desses clubes, que passarão a ser propriedade privada. Começou com os quatro clubes da Liga que hoje são maioritariamente detidos pelo PIF [Public Investment Fund], mas também há o Al-Qadisiyah, o Al Taawoun e o Al Raed que são detidos por empresas privadas. Este é o início da viagem, porque acreditamos que a privatização dos clubes cria muito valor, tanto do ponto de vista desportivo como comercial e de branding. É uma viagem que, como sabem, está a ser feita hoje e espera-se que mais clubes sigam o exemplo à medida que avançamos.
Para onde caminha a Liga Saudita?
Hoje estamos numa viagem muito entusiasmante em torno do desenvolvimento do futebol na Arábia Saudita, criando e alargando o nosso legado. A Arábia Saudita é uma nação que adora futebol. Mais de 80 por cento da população participa no futebol assistindo ou fazendo parte do ecossistema. Naturalmente, o que desenvolvemos ao longo dos anos foi uma estratégia para transformar a Liga Saudita, que tem muitos pilares. Um deles é como melhorar a gestão geral do jogo. O segundo é como melhorar o produto, do ponto de vista comercial, de marketing e de interesse televisivo. O terceiro pilar, e talvez seja esse o aspeto que mais atenção tem suscitado, é o desenvolvimento dos jogadores, com a atração de grandes estrelas do futebol. Mas também faz parte do projeto ajudar a desenvolver os próprios clubes. Por isso, procuramos oportunidades para melhorar as operações globais dos clubes, seja a nível desportivo, de marca, de gestão financeira, etc. E, por último, mas não menos importante, é o desenvolvimento das nossas capacidades internas, também trabalhando na nossa transformação digital.
Mesmo assim as críticas à falta de intensidade da Liga Saudita são quase unânimes.
Este é um processo em várias fases. A média geral de idades dos jogadores diminuiu este ano, o que é um sinal de que estamos a investir em jogadores mais jovens para melhorar a qualidade em campo. Mas quando olhamos um pouco mais para a vertente comercial, devido obviamente ao fluxo de estrelas e à melhoria da própria Liga Saudita, assistimos a um crescimento maciço das nossas receitas comerciais, quer do ponto de vista do patrocínio, quer do ponto de vista da transmissão televisiva. Atualmente, a Liga Saudita é transmitida em mais de 160 países em todo o mundo. Há um grande interesse de diferentes mercados em assistir aos nossos jogos.