O segundo dia do encontro anual do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, foi prolífero em declarações dignas de manchete, numa altura em que a Europa e os EUA estão em níveis de tensão nunca vistos desde o final da Segunda Guerra Mundial.
As afirmações mais sinistras desta terça-feira pertenceram ao secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que foi questionado sobre como poderiam outros países e blocos continuar a assinar acordos de comércio com Washington DC dada a volatilidade das posições da administração Trump.
"Eu diria que este é o mesmo tipo de histeria que ouvimos a 2 de abril. Houve pânico", começou por dizer Bessent, numa referência às tarifas do 'Dia da Libertação'. "O que estou a pedir a todos aqui é que se acalmem, respirem fundo e deixem as coisas seguirem o seu curso. A pior coisa que os países podem fazer é intensificar as medidas contra os Estados Unidos."
“O que o presidente Trump está a ameaçar fazer com a Gronelândia é muito diferente dos outros acordos comerciais. Por isso, eu exorto todos os países a manterem os seus acordos comerciais. Nós chegámos a acordo e eles proporcionam grande segurança”, completou.
Se este aviso não era suficientemente sério para a Europa, o secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, tratou de clarificar que, se a União Europeia responder às tarifas americanas, voltarão “ao olho por olho”.
“Se vamos ter uma confusão, que seja. Mas sabemos onde isso vai acabar. Vai acabar de uma maneira razoável”, completou Lutnick.
Longe de Davos, Donald Trump voltou a ter um dia típico. Logo pela manhã na Europa, cerca da uma da manhã na capital americana, o presidente dos EUA publicou uma fotografia alterada da Sala Oval, onde surge à frente de vários líderes europeus, como Ursula von der Leyen, Volodymyr Zelensky e Emmanuel Macron, a mostrar um mapa que exibe o Canadá e a Gronelândia como sendo possessões americanas.
Trump também revelou na sua rede social, a Truth Social, mensagens enviadas pelo presidente francês.
“Meu amigo, estamos totalmente alinhados em relação à Síria. Podemos fazer grandes coisas no Irão. Não percebo o que estás a fazer quanto à Gronelândia”, pode ler-se numa das mensagens de Macron.
Ao contrário de Trump, o presidente francês discursou em Davos, ainda de óculos de sol, e emitiu avisos à atual administração dos EUA.
Para “corrigir os desequilíbrios globais”, a Europa tem de ser “muito mais forte e mais autónoma”. "Acreditamos que precisamos de mais crescimento, precisamos de mais estabilidade neste mundo. Mas preferimos o respeito [aos] bullies. Preferimos a ciência às conspirações e preferimos o Estado de direito à brutalidade", observou.
"Não vamos aceitar uma ordem global, que será decidida por aqueles que falam mais alto, mas vamos concentrar-nos nos interesses e desafios comuns. Sabemos o que temos de resolver: crescimento, paz, clima."
O presidente francês considera que a atuação dos EUA em matéria de acordos comerciais que “mina os [nossos] interesses de exportação, exigem concessões máximas e visam abertamente enfraquecer e subordinar a Europa”, combinada com uma “acumulação interminável de novas tarifas”, são “fundamentalmente inaceitáveis”.
Macron acrescentou que é ainda mais inaceitável quando estas tarifas são “utilizadas como alavanca contra a soberania territorial”.
Os europeus são os únicos que não protegem as suas empresas e os seus mercados “quando os outros países não respeitam as condições de concorrência equitativas”, acrescenta. "A competitividade europeia está atrasada em relação à dos EUA. Precisamos de resolver o problema da falta de crescimento e do subinvestimento”, disse Macron, que enviou também uma mensagem de solidariedade para os povos da Gronelândia e da Dinamarca.
"Cabe a Trump decidir se quer ser um monstro"
Do mesmo lado, o primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, denunciou a pressão de Donald Trump sobre a Gronelândia e disse que o líder americano se está a tornar num “monstro”.
"Até agora, tentámos apaziguar o novo presidente na Casa Branca. Mas agora tantas linhas vermelhas estão a ser ultrapassadas. Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa”, afirmou De Wever.
"Ou permanecemos unidos ou ficaremos divididos. E se estivermos divididos, será o fim de uma era; oitenta anos de atlantismo estão realmente a chegar ao fim", disse De Wever, antes de citar o filósofo marxista Antonio Gramsci: "O velho mundo está a morrer e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros. Cabe a [Trump] decidir se quer ser um monstro."
Por sua vez, a presidente da Comissão Europeia foi um pouco mais contida. Ursula von der Leyen disse que "a Europa está totalmente empenhada em garantir a segurança da região do Ártico e partilha a vontade dos EUA de proteger a região”, mas referiu que a União Europeia tem capacidade para o fazer, criticando as ameaças de Trump.
"É por isso que as tarifas adicionais propostas são um erro, especialmente entre aliados de longa data. A UE e os EUA chegaram a um acordo comercial em julho passado. E em política como nos negócios - um acordo é um acordo. E quando amigos apertam as mãos, isso deve significar alguma coisa."
As tarifas arriscam-se a “mergulhar-nos numa espiral descendente que só ajudaria os adversários que estamos tão empenhados em manter fora da paisagem estratégica”.
Von der Leyen sublinhou que a União Europeia está “totalmente solidária” com a Gronelândia e com o Reino da Dinamarca, acrescentando que a sua soberania não é negociável. A resposta da Europa será “inabalável, unida e proporcional”, “a soberania e a integridade do seu território não são negociáveis”.
Von der Leyen garantiu que a UE irá trabalhar com a Dinamarca e com a Gronelândia “de mãos dadas” sobre a melhor forma de apoiar a economia e as infraestruturas locais. A UE irá também trabalhar com os EUA e todos os parceiros na “segurança mais alargada do Ártico”, acrescentando que se trata do “nosso interesse comum”.
Em apoio da Europa surgiu Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, que recentemente se deslocou à China para assinar uma série de acordos para, segundo o próprio, preparar o país para a nova ordem mundial em construção.
Sem mencionar Trump pelo nome, Carney disse que as “grandes potências” estão a utilizar a integração económica como “arma”.
"Os canadianos sabem que a nossa antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e as nossas alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida."
"Muitos países estão a chegar às mesmas conclusões. Eles precisam desenvolver uma maior autonomia estratégica: em energia, alimentos, minerais essenciais, finanças e cadeias de abastecimento. Um país que não consegue se alimentar, abastecer-se de combustível ou defender-se tem poucas opções. Quando as regras não protegem mais, precisamos de proteger-nos”, acrescentou.
Carney clarificou que o Canadá se opõe firmemente a quaisquer tarifas dos EUA relacionadas com o objetivo de Trump de assumir o controlo da Gronelândia.
“O Canadá opõe-se firmemente a tarifas relacionadas com a Gronelândia e apela a negociações para alcançar os objetivos comuns de segurança e prosperidade no Ártico”, defendeu.
No capítulo económico, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, alertou que a ameaça das tarifas cria incerteza nas empresas europeias e americanas.
“A incerteza está de volta e penso que é realmente muito inconveniente para as empresas americanas, para as PME (pequenas e médias empresas) na América e para as mesmas na Europa, porque as pessoas não sabem exatamente como vão vender, como vão comprar, quem vai suportar o peso das tarifas. Por isso, ter estas economias que estão a ir bem neste momento - ou razoavelmente bem - paradas devido à incerteza é, no mínimo, muito inconveniente”, acrescentou.
Lagarde salientou que os laços comerciais entre os EUA e a Europa são “enormes” em termos de comércio, investimento e participações financeiras. “E pôr isso em causa não conduz a boas políticas comerciais”, argumentou.
Lagarde defendeu ainda que a União Europeia precisa de se tornar “mais independente” em resultado do tumulto desencadeado pelo segundo mandato de Trump.
“Trata-se de um alerta, um alerta maior do que alguma vez tivemos, e penso que a Europa vai decidir o que precisa de fazer para ser forte por si própria, para ser mais independente, para confiar no comércio interno que fazemos uns com os outros, para que possamos (...) pelo menos estar preparados (com) outro Plano B, para o caso de a relação normal (EUA-Europa) não ser restabelecida”, afirmou.
"É patético"
Um grande crítico da resposta europeia às ameaças de Trump é o governador da Califórnia, Gavin Newsom, que também marcou presença no resort suíço.
Questionado em Davos pela Sky News sobre se teria uma mensagem para os europeus, Newsom, um dos rostos mais proeminentes do Partido Democrata, instou o Velho Continente a responder mais assertivamente.
“É hora de ganhar coragem. É hora de ser sério e de parar de ser cúmplice. É tempo de se manterem elevados, firmes, de terem espinha-dorsal”, acrescentou.
Gavin Newsom foi mais longe, atacando as várias figuras internacionais que se vão curvando perante Donald Trump. “É patético”, reiterou, falando mesmo num cenário internacional “embaraçoso”.