De promessa do FC Porto ao mundo das cervejas artesanais - TVI

De promessa do FC Porto ao mundo das cervejas artesanais

Flávio Igor

Flávio Igor esteve treze anos na formação dos dragões mas não concretizou o grande sonho; atualmente, trabalha para a Fábrica de Cervejas Portuense

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«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@mediacapital.pt.

Flávio Igor fez toda a formação no FC Porto, entrando pela porta do mítico Campo da Constituição aos oito anos. Encarado como uma grande promessa do clube portista, assinou contrato profissional aos 16 anos e alimentou a esperança de cumprir o maior sonho da carreira: chegar à equipa principal dos dragões.

O médio acumulou 25 internacionalizações pelas seleções nacionais, disputou uma final de um Campeonato da Europa de sub-19 em 2003 e terminou a ligação ao FC Porto em 2005, com 21 anos, jogando apenas um amigável pela equipa A.

A partir daí, alinhou em clubes de divisões secundárias e não esquece o dia em que defrontou os dragões no encontro decisivo da Taça de Portugal, com a camisola do Desportivo de Chaves (2010, 2-1 para o FC Porto).

O percurso como jogador terminou oficialmente a 22 de abril de 2018. Por essa altura, Flávio Igor já trabalhava há alguns anos num armazém de peças automóveis. Atualmente, o antigo médio tem 37 anos e entrou no mundo das cervejas artesanais, exercendo funções na Fábrica de Cervejas Portuense, empresa que produz a cerveja Nortada.

 

Flávio Igor com José Santos e Manuel Sousa na Fábrica de Cervejas Portuense

«Em 2013, fui para o Fátima na derradeira aposta como jogador profissional. Tinha um bom contrato, com projeto de subida, mas voltei a lesionar-me no ombro e estive lá seis meses sem receber. Nesse momento, decidi que era altura de voltar para junto da família. O futebol profissional acabou para mim, fui jogar para o Sousense e comecei a trabalhar», diz.

Flávio Igor, natural de Gondomar, tinha 30 anos quando optou por regressar ao Norte do país e lançar as bases para um futuro diferente: «Eu sou casado, tenho uma filha e senti que não era justo estar a arrastá-las para mais projetos longe de casa. Foram muitos anos de sacrifícios para a família e senti que era a altura de retribuir com estabilidade.»

«O Sousense treinava em horários noturnos e aproveitei esse facto para começar a trabalhar num armazém de peças automóveis. Estava na equipa de receção de mercadorias e ainda trabalhei lá uns seis anos, de 2015 e 2021. Mas era um trabalho duro, muito exigente do ponto de vista físico», explica.

Três anos depois de pendurar as chuteiras, o antigo médio decidiu que precisava igualmente de um novo desafio profissional: «No armazém, eu entrava às 5 da manhã e isso fazia com que à noite estivesse cansado, com pouca disponibilidade para a família. Fazia parte de uma equipa que recebia as encomendas e as acondicionava nos locais corretos, era um trabalho pesado, físico. Estava um bocado farto e felizmente surgiu uma nova oportunidade.»

«O ser humano não se deve acomodar e foi isso que eu fiz. Assim, no mês passado, em setembro, comecei a trabalhar para a Fábrica de Cerveja Portuense, que produz a cerveja Nortada. Faço a gestão de backoffice, da parte logística. Também trato de emissão de faturas, das guias de transporte, etc», explica Flávio Igor.

Poucas semanas depois de abraçar o novo desafio profissional, o ex-jogador não esconde o seu entusiasmo. «A Nortada é líder das cervejas artesanais em Portugal, a empresa tem uma capacidade de produção muito grande e até produz para outras marcas. Passou uma fase difícil com a pandemia mas está a recuperar e para já estou a gostar. Queria algo que me desafiasse mais, ainda me estou a ambientar mas encaro o futuro com otimisto», remata.

13 anos no FC Porto à espera de uma oportunidade

De 2021 para 1992. Recuemos aos primeiros passos de Flávio Igor como jogador, marcados por uma profunda ligação ao FC Porto.

«Eu tinha 8 anos e o meu pai, que também jogou futebol, viu que eu tinha jeito. Levou-me às captações do FC Porto na Constituição, na altura com o Sr. Freitas e o Sr. Feliciano, e eles ficaram maravilhados. Pediram logo ao meu pai para me deixar ficar», começa por dizer.

O médio teve de enfrentar a primeira dificuldade. O seu pai não tinha a possibilidade o levar diariamente aos treinos na Constituição: «Falámos e eu queria mesmo ir, porque sempre fui portista e aquilo era um sonho para mim. Então, passei a ir para os treinos do FC Porto de autocarro, de Gondomar à Constituição, sozinho, com oito anos. Isso hoje em dia era impensável.»

«Assinei o primeiro contrato profissional aos 16 anos e tudo parecia correr pelo melhor. Inaugurei o Olival e estive dois anos como sénior na equipa B do FC Porto, primeiro com o Ilídio Vale e depois o Domingos Paciência», salienta.

Em maio de 2005, com José Couceiro, Flávio Igor vestiu pela única vez a camisola da equipa principal do FC Porto, entrando num jogo amigável realizado em Bragança, contra o FC Vinhais.

«Foi um momento agridoce porque eu já sabia que estava de saída do clube. Eu nunca tinha treinado sequer pela equipa principal mas, na altura na negociação da renovação, o Ilídio Vale informou-me que ia treinar e que ia viajar com a equipa para esse jogo de fim de época. Foi bonito porque partilhei o balneário com jogadores como o Pepe ou o Raúl Meireles, mas foi pena ter sido já no fim do meu percurso no clube», desabafa.

O que falhou, então, na afirmação do médio no FC Porto? «Sempre me disseram que eu ia ser uma aposta mas, nos últimos anos, senti que já não estava a ser bem assim. Comecei a perceber que as minhas hipóteses eram muito reduzidas. Acredito que foi falta de sorte, falta de oportunidades, mas também aceito que haja uma quota de responsabilidade minha. Digo que dei tudo, mas depois vemos casos como o Ronaldo ou o Ibrahimovic e percebemos que são jogadores com uma dedicação enorme, com enorme capacidade de sacrifício. Eu talvez não tenha sido tanto assim.»

«Eu era um jogador criativo, gostava de assistir, de divertir-me a jogar, mas isso não fica nas estatísticas. A minha altura (1,67m) também não ajudava. Enfim, quando chegou a altura de apostarem em mim, não apostaram e a oportunidade passou. Eu, como tinha uma ambição muito grande, senti que era o momento de tentar procurar a felicidade em outro lado», explica.

Flávio Igor estava em final de contrato com o FC Porto e decidiu fazer as malas. «Eu tinha mais dois anos de opção no contrato mas o clube quis fazer um contrato diferente, de apenas um ano, para jogar na última época da equipa B. Eu queria ficar mas sentia que já não era aposta. Enfim, fico um pouco triste por ter saído, talvez devesse ter ficado, mas foi o que senti na altura», frisa.

«Os melhores momentos foram todos na formação do FC Porto»

O médio saiu do FC Porto em 2005, com 21 anos. Por essa altura, já tinha concluído igualmente o seu percurso nas seleções jovens de Portugal. A final do Campeonato da Europa de sub-19 em 2003, frente à Itália de Chiellini e Pazzini, ficará para sempre marcada na sua história.

«Perdemos 2-0 na final e tive um momento tresloucado. Entrei e fui expulso com vermelho direto. Penso que aquilo foi um acumular de situações ao longo daquele torneio, também não joguei de início, já estávamos ali há muitos dias, mas enfim, é um momento de que me arrependo imenso», admite.

Regressemos ao percurso como sénior. Depois de sair do FC Porto, Flávio Igor esteve uma época no V. Setúbal B, duas no Vila Meã e outras duas no Desportivo de Chaves: «No FC Porto estamos numa bolha, protegidos, só quando saímos é que vemos a selva que o futebol é.»

«Um empresário propôs-me ir para a equipa B do V. Setúbal, dizendo que passado um mês estaria na equipa principal, mas isso não aconteceu. Era o primeiro ano da equipa B do Vitória, havia qualidade mas muito pouca organização. Depois fui para o Vila Meã, ficámos em quinto lugar, a melhor classificação de sempre, e eu recebi uma proposta do Trofense, que estava na II Liga e que acabou por ir para a primeira», recorda.

O médio permaneceu no Vila Meã, no terceiro escalão, e arrepende-se da decisão: «O meu empresário prometeu-me que arranjava melhor, garantiu-me isso. Os meus colegas mais velhos disseram-me para eu não ser burro, para assinar, mas confiei e não assinei. Perdi a oportunidade, ele não me arranjou nada, fiquei no Vila Meã e descemos na época seguinte.»

Flávio Igor seguiu para o Tirsense com Quim Machado - «foi a primeira vez que me lesionei no ombro» - e depois para o Desportivo de Chaves: «Foi a única época que fiz na II Liga. Descemos de divisão e dias depois fomos disputar a final da Taça de Portugal com o FC Porto, com dois ou três meses de salários em atraso. Foi um dia bonito, apesar de tudo». O FC Porto de Jesualdo Ferreira venceu a final de 2010, com golos de Guarín e Falcao. Paulo Clemente reduziu para os flavienses (2-1).

Seguiram-se Famalicão, Ribeirão e Fátima, antes de três épocas e meia de ligação ao Sousense: «O convite partiu do mister Filipe Cândido, que me conhecia bem. Sentia-me lá bem, já como amador, e queria acabar a carreira no Sousense, só que depois surgiu um problema. Parti o perónio, fizeram-me um tratamento mais conservador, voltei e comecei a treinar na época seguinte cheio de dores. Quando fiz o exame, percebi ainda tinha a perna partida.»

«Quando fui para ser operado, quiseram descoser-se um pouco das responsabilidades. Queriam cortar-me o salário para metade enquanto estava lesionado, eu fiz uma contraproposta, porque até queria ficar lá depois da carreira, mas não aceitaram e vim-me embora. Estive dez meses parado e fiz os últimos meses da carreira no Coimbrões. Ainda queria provar algo mas aquela paragem deixou marcas. Era mesmo altura de acabar», explica.

Em jeito de balanço, Flávio Igor recorda com especial carinho os anos na formação do FC Porto. «Esses foram os momentos mais altos, todos os que passei na formação. É uma idade onde tu jogas futebol puro, onde tiras o máximo prazer e vives experiências incríveis. Estás ali a jogar por prazer, sem o peso da carreira», refere.

«Tive a felicidade de jogar pelo clube do meu coração e fui internacional, mas queria a equipa principal do FC Porto. Foi tudo o que sempre quis. Sinto-me contente com a postura que tive, não tive episódios nenhuns de desavenças com treinadores ou mau profissionalismo, mas não atingi o sonho», remata Flávio Igor.
 

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