Neves: de campeão e internacional a líder em produtos ortopédicos - TVI

Neves: de campeão e internacional a líder em produtos ortopédicos

Joaquim Neves

Conquistou cinco títulos no FC Porto, chegou à seleção e está na história do Aves; atualmente, tem a maior rede de lojas do seu segmento em Portugal

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«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Joaquim Neves, simplesmente Neves durante a sua carreira como jogador, pisou grandes palcos do futebol português entre 1988 e 2005, encerrando o percurso com cinco títulos e uma internacionalização pela seleção A.

O lateral direito conquistou troféus em três épocas no FC Porto (1991/92, 1992/93 e 1997/98), embora tenha atingido o patamar exibicional mais elevado ao serviço de clubes como Gil Vicente, Belenenses ou Marítimo. De dragão ao peito, teve poucas oportunidades.

Os capítulos mais relevantes da história de Neves começaram e terminaram no Desportivo das Aves, clube que viria a servir como vice-presidente para a formação, entre 2010 e 2020.

Em paralelo, já na reta final da carreira como jogador, Joaquim Neves abriu com a esposa a primeira loja de produtos ortopédicos e dietéticos. 19 anos após o início de atividade, a Ortoneves é a maior rede de lojas do seu segmento em Portugal.

«Eu terminei a carreira em 2005 no Aves, com 35 anos, e já estava preparado para isso, ao contrário de muitos colegas, infelizmente. A minha mulher é farmacêutica e abrimos uma loja de ortopedia em 2003, na Vila das Aves. Neste momento, temos um armazém e 10 lojas espalhadas pela zona Norte», resume o antigo lateral.

Neves recebe o Maisfutebol na loja da cidade do Porto, localizada a poucos metros do Hospital de S. António: «As coisas estão a correr muito bem, somos a maior rede de lojas do nosso segmento em Portugal e posso considerar que sou um empresário de sucesso. Sou uma pessoa de sorte, é certo, mas a sorte dá muito trabalho.»

«A minha mulher é que tinha experiência na área, bebi muito da experiência dela, mas fui-me formando, fui aprendendo e fui-me aperfeiçoando. Fui eu que fui ter com quase todos os nossos clientes, o futebol também nos dá essa resiliência. Fui percebendo o nicho de mercado que havia e a empresa foi crescendo», explica.

A Ortoneves apresenta-se como um Centro Ortopédico e Dietético, embora os produtos ortopédicos dominem as vendas. O comércio por grosso também se sobrepõe à comercialização de produtos em loja.  

«Os produtos diatéticos sempre fizeram parte das nossas lojas, mas o grosso das vendas é na área da ortopedia, sejam camas hospitalares, cadeiras de rodas, etc. Temos uma grande carteira de clientes de grosso, como lares ou misericórdias, por exemplo, e diria que o nosso volume de vendas é à volta de 60% grossista e 40% das lojas», admite Joaquim Neves.

Revelando que a empresa não sofreu os impactos da pandemia - «pelo contrário, foi o nosso melhor ano de faturação e conseguimos novos clientes de todo o país porque o produto escasseava» -, o ex-jogador salienta a importância de conhecer muito bem o parceiro de negócio. Neste caso, a esposa.

«Costumo dizer que o único sócio que aceitaria seria mesmo a minha mulher. É essencial essa confiança. Por vezes, os ex-jogadores investem em coisas que não dominam ou formam sociedades que acabam por ser um fracasso. Nós terminamos a carreira com um pé de meia, mas não podemos arriscar muito. Se investirmos num negócio que não tem sucesso, ficamos logo numa posição difícil», alerta Neves.

Por isso mesmo, o antigo lateral faz questão de enaltecer o papel de Carla Neves: «Queria dar uma palavra à minha esposa porque a empresa Ortoneves começa nela. Ensinou-me muitas coisas ao longo destes anos e ela é, digamos, a trave-mestra da empresa. Estamos casados há 25 anos e temos três filhos que adoro muito.»

«O Rui fez a formação no Aves e é guarda-redes do Tirsense, tem o curso de engenheiro industrial e já foi ele a liderar o projeto da nova loja, Origens. Depois temos o Diogo, o do meio, que acaba este ano o curso de Engenharia Informática, e a Catarina, que entrou este ano em Medicina, está em Coimbra. Portanto, sou um pai realizado», salienta.

Entre a rede de lojas, o armazém e a família, não sobra tempo a Joaquim Neves para sentir falta do futebol, desporto que captou a sua atenção – de forma quase ininterrupta – até junho de 2020.

«Acabei a carreira de jogador em 2005. Entretanto, em 2010, quando o Armando Silva era presidente do Aves e Marco Abreu era o diretor desportivo, recebi um convite para ser o vice-presidente responsável pela formação. Desempenhei esse cargo durante dez anos e era algo que me dava prazer, se bem que o fazia por carolice, perdia tempo e dinheiro com isso», diz.

O antigo jogador encerrou esse ciclo quando concorreu à presidência do clube de Vila das Aves, que atravessava um momento complicado. «Quando entrámos, o campo ainda era pelado, com poucas condições. Quando saí, deixámos um completo desportivo, com relva sintética, balneários novos, uma obra apoiada pela Câmara mas que também teve trabalho nosso. Na certificação da formação, tivemos cinco estrelas.»

«Entretanto, quando Armando Silva decidiu que não se candidatava de novo à presidência, aceitei o desafio de ser candidato, em 2020. Curiosamente, o Sr. António Freitas tinha dito que me apoiava, mas ele próprio arranjou depois uma lista. Na altura, as pessoas acharam que essa lista era melhor e pronto. Semanas depois, foi aquela confusão que é pública. Acompanhei tudo com imensa tristeza. De qualquer forma, atualmente, sigo o futebol mas apenas isso. Tenho muito que fazer, felizmente», conclui Joaquim Neves.

Aos 51 anos, Neves goza os seus fins de semana longe dos relvados de futebol. Há quatro décadas que tal não acontecia com regularidade, desde o famoso dia em que foi com o CDL, um pequeno clube da freguesia de Lama, disputar um torneio de captação organizado pelo Tirsense.

«Nunca mais me esqueço que o Manuel Pataloca, do CDL da Lama, me disse para não passar a bola a ninguém. Eu, pequenino e com técnica, peguei na bola, fiz grandes jogadas e dei nas vistas. Tanto que, ao intervalo, o saudoso Sr. Rui veio ter comigo para eu assinar pelo Tirsense, só que o Tirsense nesse ano não tinha iniciados, eu não queria ficar parado e fui para o Aves», recorda.

Neves começa no escalão de iniciados do Desportivo das Aves e destaca-se com a camisola do clube até 1991, um ano depois de disputar o Torneio de Toulon pela seleção nacional de sub-21: «Com 17 anos, assinei contrato profissional com o Aves, e no segundo ano de júnior já era titular nos seniores. Fui ao Torneio de Toulon, onde a maioria da seleção era composta pela geração de Riade, o Abel Silva lesionou-se e acabei por ser titular, era o único da II Liga no onze.»

«Fiz mais um ano no Aves e depois fui contratado pelo FC Porto, com 20 anos, só que apanhei o João Pinto pela frente e pouco joguei naquelas duas épocas com o Carlos Alberto Silva (ndr. três jogos em cada uma), embora tenha ganho dois campeonatos e uma Supertaça. Em 1993/94, ainda apanhei o Ivic, mas pedi para sair em dezembro e fui para o Sp. Braga com o António Oliveira», explica.

O lateral direito cumpre outra temporada como emprestado, desta feita ao Gil Vicente de Vítor Oliveira, e torna-se um jogador livre para definir o seu futuro. «Assinei pelo Salgueiros, mas acabei por não jogar. O João Alves quis-me no Belenenses e o Belenenses ofereceu ao Salgueiros três jogadores para me ter: o Chico Fonseca, o Abílio e o Miguel Bruno», destaca.

Em 1995, ainda com 24 anos, Neves arrancou para a melhor época na carreira: «Fiz uma época fantástica no Belenenses do João Alves, com uma equipa fabulosa, que entrava em todos os campos para ganhar. Nesse ano fui internacional A, com o António Oliveira, num Portugal-Grécia, e fiz parte dos últimos 30 para o Euro1996, mas fui operado ao menisco. Não sei se iria ou não ao Europeu, mas estive na lista.»

Com a cotação em alta, o jogador recebe propostas dos maiores clubes portugueses e acaba por regressar a uma casa já conhecida. «Havia interesse do Benfica, do FC Porto, do Sporting, do Corunha, etc. O meu empresário era o José Veiga e acabei por voltar para o FC Porto, só que ainda não estava a cem por cento depois da operação e fui dispensado depois da pré-época. Acabei por ser emprestado ao Marítimo», diz.

«Fiz mais uma grande época no Marítimo, num ano que começou com o Manuel José, e depois o Manuel José quis levar-me para o Benfica. Queria-me a mim, ao Nuno Valente e ao Tiago. Só que eu pertencia ao FC Porto e a transferência não foi possível. Acabei por ser integrado no plantel do FC Porto», recorda.

A caminho dos 27 anos, com grande experiência na Liga e a chamada à seleção nacional, Neves apresenta-se novamente nas Antas com o firme desejo de conquistar um lugar no onze, disputando a posição no início da época com um irregular Butorovic e um adaptado Sérgio Conceição: «Voltei com outro peso, com outro estatuto e experiência, e achava que aquele podia ser o meu ano. Fiz mais jogos, é certo, mas nunca tive a regularidade que precisava.»

O lateral direito ainda participa numa dezena de jogos ao longo da temporada 1997/98, mas o espaço torna-se mais reduzido quando Carlos Secretário regressa ao FC Porto, em dezembro. «Pelo lado positivo, posso dizer que fui campeão sempre que estive no FC Porto. Aliás, fiquei na história do Pentacampeonato e ainda ganhei uma Taça de Portugal nesse ano», atira, entre sorrisos.

«Na segunda época fui dispensado pelo Fernando Santos, fiquei três ou quatro meses sem jogar e saí para o Desportivo de Chaves. Depois fiz duas épocas no Salgueiros e regressei em definitivo ao Desportivo das Aves, já com 30 anos, a pensar no final da carreira, como veio a acontecer», resume.

Sem esquecer os capítulos da história que podiam ter contornos diferentes, Joaquim Neves faz um balanço positivo da carreira como jogador: «As coisas nunca se proporcionaram, tive também algumas lesões e nunca tive a regularidade que queria no FC Porto. O Benfica e o Sporting também me queriam, não sei se a carreira seria diferente, mas não estou nada arrependido.»

«Tive uma carreira boa, joguei vários anos na Liga, joguei no FC Porto, conquistei cinco títulos, fui internacional sub-21, fui internacional A, portanto não me posso queixar», remata Joaquim Neves.

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