Passava “de mãe leoa para ‘não estou aqui a fazer nada’”. A depressão pós-parto atinge muitas mulheres. Há um novo comprimido que pode ajudar, mas que está longe de ser a solução - TVI

Passava “de mãe leoa para ‘não estou aqui a fazer nada’”. A depressão pós-parto atinge muitas mulheres. Há um novo comprimido que pode ajudar, mas que está longe de ser a solução

Depressão pós-parto (Vecteezy)

A depressão pós-parto é a principal complicação obstétrica não diagnosticada e pode afetar uma em quatro mulheres. Muitas vezes confundida com os ‘baby blues’, ainda vive refém da resistência em procurar ajuda, assim como dos mitos relacionados com o tratamento. E é um novo fármaco oral que traz este assunto (ainda para muitos, um tabu) novamente à baila. É um avanço? É. É limitador? Também. É a solução? Longe disso. Primeiro, é preciso dar oportunidade às grávidas de terem acompanhamento. E Teresa conta como isso mudou as suas gravidezes

Vivem muitas vezes no silêncio de uma tristeza que creem não ser suposto sentir, numa angústia que quase sufoca, num estado de irritação que nem sempre é possível explicar a quem está por perto. Umas vezes reféns da apatia, outras tantas em modo de superproteção, mas sempre num estado que é tudo menos de graça e que pode aparecer sem aviso prévio, até mesmo quando menos se espera.

Não tive noção da chegada da depressão pós-parto, foi depois de ter parado de dar de mamar, achava que era das hormonas desreguladas. Só a partir dos nove meses da minha filha é que percebi que havia algo para tratar”. 

Teresa Ancêde Ferreira, de 32 anos, vem de uma família grande: quatro irmãos, seis sobrinhos e o hábito de ter sempre a casa cheia com crianças a correr de um lado para o outro. Até já se dizia preparada para as noites sem dormir. A maternidade fez sempre parte dos seus planos, mas, tal como tantas outras mulheres, nem tudo correu como o esperado. “Foi um desenrolar de situações que me desanimaram” e que a deixaram num estado até então desconhecido durante meses. 

“Não me tinham preparado para as expectativas do parto”, um parto que acabou por ser cesariana, quando o desejo era que fosse natural, conta-nos. “Achei que ia conseguir ter um parto normal, quando me fizeram a indução romantizei que seria duas horas, que ia ser uma galinha a pôr o ovo. Mas tive mais de 16 horas de trabalho de parto e acabei por fazer uma cesariana por paragem de trabalho de parto”. Depois, continua a diretora de equipa numa agência de comunicação, “começaram os problemas com a amamentação, uma série de questões, senti que o meu corpo não tinha sido capaz de corresponder às expectativas, comecei a duvidar de tudo”.

No período perinatal, “20-30% das mulheres desenvolvem depressão”, alerta Teresa Reis, responsável pela Equipa de Saúde Mental Perinatal do Hospital do Espírito Santo de Évora e mentora do Programa de Saúde Mental Perinatal na mesma unidade hospitalar. “É a principal complicação obstétrica não diagnosticada”.

“O que sabemos é que no primeiro ano após o parto, 22% apresentam diagnóstico de depressão. Destas, 27% já tinham um diagnóstico de depressão antes da gravidez, 33% dos episódios iniciaram-se na gravidez”, explica. E tal como aconteceu com Teresa, “40% dos casos estão bem até ao parto, a experiência do parto também tem influência”, diz a médica.

Sinais pouco claros e gatilhos que não devem ser ignorados

Os sinais de depressão pós-parto nem sempre são claros e por muito que os livros tentem explicar, são muitas as vezes que surgem de forma sorrateira, disfarçados do cansaço causado pela privação do sono, pelo êxtase da nova vida . E foi assim com Teresa.

“Vivia preocupada com a minha filha, fiquei overprotective [superprotetora], embora racionalmente conseguisse confiar, emocionalmente tudo me dizia para não deixar a minha filha sozinha. Variava do estado de mãe leoa para o ‘não estou aqui a fazer nada, não sirvo para nada’”, relata. E este sentimento de impotência surgiu muito à boleia da amamentação: “dava de mamar, mas o processo foi muito difícil, vindo de uma família em que toda a gente amamentou sem problemas”. 

“Entre o ‘só eu sou capaz’, o meu corpo está a ficar desfeito com isto, uma mama maior que a outra, uma cicatriz…”, desabafa, não conseguindo continuar a enumerar todas as inquietudes desse período.

Tal como a depressão que pode surgir em qualquer momento da vida e a qualquer pessoa, independentemente do género, a apatia, a tristeza que se prolonga no tempo, o choro fácil e a irritabilidade e a ansiedade são alguns dos sinais de depressão pós-parto. 

Gabriela Moita, psicóloga e membro do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, escreve na CNN Portugal que “40 a 80% das mulheres, nos dois a cinco dias após o parto”, apresentam um estado emocional com “tonalidade depressiva”, sendo a “sensação de choro muito fácil, fragilidade, vulnerabilidade, labilidade de humor, ou seja, alegria e tristeza a flutuarem ao longo do dia” os sintomas mais recorrentes”. Mas uma depressão pós-parto não é o mesmo do que os chamados ‘baby blues’, aqueles primeiros dias de tristeza assim que se dá à luz. 

“A depressão pós-parto tem características completamente diferentes, nomeadamente na intensidade e duração dos sintomas, ainda que possa ter origem em episódios de tristeza passageiros (vulgarmente conhecidos como ‘baby blues’)”, explica o site do Serviço Nacional de Saúde.

No primeiro ano após o parto, 22% apresentam diagnóstico de depressão. Destas, 40% têm o parto como gatilho (Vecteezy)

A médica psiquiatra Teresa Reis diz que é preciso prestar “muita atenção” ao comportamento da mulher depois do parto, pois “se duas a três semanas os sintomas como tristeza, choro fácil, dificuldade em sentir prazer nas atividades que agradavam, não ter prazer em cuidar do bebé, não dormir quando o bebé dorme” persistiram, pode ser necessário procurar uma avaliação médica. “A hipervigilância no diagnóstico pós-parto é extremamente frequente, sintomas como ansiedade, preocupação excessiva, pensamentos ruminativos, alteração do apetite” são também outros sinais a ter em consideração.

As causas da depressão pós-parto não são totalmente conhecidas, mas há evidências de que um histórico de problemas de saúde mental possa ser um gatilho, assim como o transtorno disfórico pré-menstrual (distúrbio caracterizado por alterações intensas de humor e estados de stress e ansiedade nos dias que antecedem a menstruação), como explica um estudo publicado na revista científica Obstetrics & Gynecology Science

“O fator de risco mais importante é história de doença mental anterior”, esclarece Teresa Reis, que destaca ainda a “existência de fatores socioeconómicos, em estratos sociais mais baixos há mais probabilidade de desenvolver [depressão pós-parto]” e ainda fatores como “uma gravidez não desejada, história de consumos e também a genética, a história familiar marcada anterior de saúde mental”. O local de residência também entra nesta equação.

A importância de não normalizar as ‘supermães’ e a necessidade de procurar (e ter) ajuda

Teresa Reis é perentória quando diz que o diagnóstico precoce é determinante, assim como a procura de ajuda o quanto antes. Mas há barreiras, reconhece. “A principal barreira é o estigma e a discriminação, o continuar a dizer que tudo são as hormonas, que tudo vai passar. A maior parte das mulheres sente que algo não está bem, mas dizem que está tudo bem. É raro alguém olhar para esta mulher [grávida ou recém-mãe] e dizer ‘estás doente’”.

Teresa Ancêde Ferreira não sentiu esse estigma, mas quis fazer por afastá-lo falando abertamente sobre a sua depressão pós-parto em casa. E escrever os sentimentos também a ajudou.

Foi uma coisa que me aconteceu, olho para a saúde mental como uma doença como qualquer outra, não tem de haver esse estigma, esse estigma começa em nós, como perdi um bebé, falo abertamente disso. Sempre falei das coisas muito abertamente e o que me levou à depressão pós-parto foi não ter tido capacidade de pedir ajuda e dizer o que sentia, quando falamos as coisas ficam mais arrumadas na cabeça”.

“A normalização das dificuldades no período perinatal acaba por ser um fator que interfere com esta identificação [da doença]. A mulher acha que tem de aguentar, mas não há nenhuma doença que passe se eu quiser muito. A doença não passa sem o diagnóstico e tratamento adequado”, adverte a médica Teresa Reis, que tem trabalhado para que isso chegue ao maior número de mulheres.

No Hospital do Espírito Santo de Évora existe há um ano um Programa de Saúde Mental Perinatal. Desde então, já foram feitas “duas mil intervenções”. Este projeto nasce de uma parceria entre o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental, o Departamento da Mulher e da Criança e o Serviço de Ginecologia e Obstetrícia. “É o único programa a nível nacional organizado com acesso equitativo e que permite um rastreio e intervenção equitativa a toda a população”, diz Teresa Reis. Na prática, todas as mulheres do distrito de Évora que engravidem são convidadas a participar no programa, que começa com uma consulta hospitalar de avaliação - se a mulher apresentar sinais de depressão ou outra condição de saúde mental de risco, o acompanhamento mantém-se na unidade hospitalar - seja com consultas individuais ou com sessões de grupo; se for de baixo risco, é feito um encaminhamento para os cuidados de saúde primários. Há ainda uma consulta hospitalar no final da gravidez e já depois do parto, de modo a garantir um maior acompanhamento no tempo.

Uma recente investigação da Universidade de Coimbra, em parceria com a Universidade de Oslo (Noruega), decidiu analisar a saúde mental das mulheres portugueses durante e após a gravidez. “Apenas 20% das mulheres com sintomas clinicamente relevantes de ansiedade e/ou depressão estava, no momento da participação no estudo, a receber algum tipo de tratamento (farmacológico e/ou psicológico)”, explicou a coordenadora da investigação em Portugal, Ana Fonseca. O estudo, que faz parte do projeto ‘Women Choose Health’, envolveu 421 mulheres portuguesas.

E tal como qualquer outra depressão, o não acompanhamento e tratamento adequado causa mossas. Uma depressão pós-parto não tratada pode resultar numa depressão crónica, como alerta o Instituto de Apoio e Desenvolvimento (ITAD). Mas as consequências são várias. “A doença mental no período perinatal tem influência não só no desenvolvimento cognitivo como comportamental, filhos de pais com doença mental têm oito vezes mais probabilidade de ter problemas de saúde mental”, explica a médica Teresa Reis.

Uma vez com depressão pós-parto, para sempre com depressão pós-parto?

Não necessariamente. E o necessariamente faz toda a diferença e pressupõe algum ‘trabalho de casa’. Mas um histórico de depressão anterior à gravidez pode ser, no entanto, um gatilho.

Sabemos que em 80% das mulheres com depressão anterior, seja durante a faculdade, na adaptação ao primeiro emprego, por exemplo, há uma prevalência bastante elevada de depressão [na gravidez e pós-parto]. As mulheres irão recorrer no período perinatal”, esclarece Teresa Reis, que não hesita em dizer que “é absolutamente essencial o rastreio e o diagnóstico precoce, alertar que este período é particularmente sensível para o desenvolvimento desta doença”.

No programa que desenvolveu no Hospital de Évora, Teresa Reis começa a receber segundas gravidezes e o impacto do acompanhamento na primeira gravidez é notório. “É muito importante porque todos os trabalhos de desenvolvimento individual, as ferramentas educacionais e intervenções psicológicas feitas não são perdidos, as mulheres encontram-se mais preparadas, num lugar de estabilidade emocional muito mais seguro do que antigamente. Podem ter sintomas, mas reconhecem mais precocemente e têm ferramentas para os compreender”.

A mais de 100 quilómetros de distância, Teresa Ancêde Ferreira é um exemplo disso. A psicoterapia foi a sua lufada de ar fresco, a almofada emocional e de conforto. E a bagagem que precisou para lidar com um aborto posterior ao primeiro parto. As ferramentas emocionais que adquiriu foram tais que tentou uma terceira vez e deu à luz há pouco mais de um ano.

“Faço psicoterapia e adoro, é uma boia de salvação. Tenho agora um segundo filho, com cinco meses, de longe estou perto de chegar a uma depressão pós-parto. Tive uma equipa muito, muito atenta, a minha médica obstetra esteve muito atenta, fiz acupuntura todas as semanas da gravidez e fiz psicoterapia”, conta-nos, orgulhosa.

E Teresa garante: “o acompanhamento psicológico veio proteger-me de tudo, na segunda gravidez fui já sem expectativas, fui muito diferente” e tudo acabou por acontecer de forma também diferente.

“Engravidei novamente três anos depois da minha primeira filha, continuei a fazer psicoterapia nessa altura, mas tive uma gravidez ectópica e fui operada de urgência. Mal soube que a gravidez não era viável voltei às consultas de psicoterapia, mal acordei da operação tive logo uma consulta com ela [a psicoterapeuta]. A partir daí fui fazendo o meu caminho, mas espaçado com ela porque não senti tanta necessidade, ela já me tinha preparado, dado ferramentas. Fiz muito o luto desta perda a falar e a escrever”, relata. “Se não tivesse feito psicoterapia nenhuma, o quadro era completamente diferente, pensei em tirar a minha própria vida depois da depressão pós-parto”.

A médica Teresa Reis defende que “é absolutamente essencial o rastreio e o diagnóstico precoce, alertar que este período é particularmente sensível para o desenvolvimento desta doença” (Freepik)

O medicamento que pode mudar as regras do jogo (mas as regras que têm de ser mudadas antes disso)

Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada cinco mulheres terá um episódio de saúde mental durante a gravidez ou no ano seguinte ao parto. A depressão pós-parto é ainda a mais comum e o acompanhamento psicológico e, por vezes, psiquiátrico é determinante, havendo casos em que a medicação é a melhor opção. Mas este é o grande calcanhar de Aquiles da doença mental, muito à boleia do estigma que ainda há com os antidepressivos e, sobretudo, à boleia de mitos sobre o impacto que este tipo de fármacos tem na saúde do bebé.

No início do mês foi anunciada a chegada de um novo fármaco ao mercado que promete revolucionar a questão da toma de medicação durante a depressão pós-parto. A Food and Drugs Administration (FDA) aprovou aquele que diz ser o primeiro tratamento oral para esta condição: Zurzuvae. 

Ainda não se sabe se irá ver luz verde por parte da Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla inglesa), mas é já descrito como um dos maiores avanços nesta matéria - as melhorias nos sintomas de depressão foram notórias nos 15 dias de tratamento. É um tratamento de curto prazo e a dose diária recomendada para a toma de zuranolone (composto do medicamento) é de 50 mg, uma vez por dia, durante 14 dias, à noite. 

Teresa Reis diz que, sim, é um fármaco “inovador, porque vai atuar no mecanismo cerebral que está relacionado com o que acontece no pós-parto”, ajudando a mulher a lidar com os sintomas de depressão, sem que tal coloque o bebé em risco. A novidade é então o composto.

O zuranolone tem como alvo um recetor chamado GABA-A, que desempenha um papel fundamental na forma como o cérebro acalma a atividade nervosa, processo que não ocorre como deveria em casos de depressão pós-parto e que leva a desequilíbrios nas substâncias químicas do cérebro. Este composto tem então a capacidade de restaurar a função desses recetores GABA-A, modulando a resposta inibitória do cérebro, descreve a TimeEm 2019, a FDA já tinha aprovado um tratamento para a depressão pós-parto com foco nestes recetores, mas trata-se de uma injeção e não de um fármaco oral, mais prático e confortável de tomar.

“O zuranolone é mais específico para a depressão pós-parto, mas limita, pois, uma boa parte dos casos não começa nos pós-parto, apenas 40% das depressões começam no pós-parto”.

Mas a médica psiquiatra apressa-se em explicar que “já existiam fármacos para a depressão pós-parto” e que “o antidepressivo mais usado foi aprovado para [ser tomado] durante a amamentação”. E mais do que um novo fármaco destinado exclusivamente à depressão pós-parto é preciso desmistificar toda a questão dos antidepressivos durante e após a gravidez e acelerar o acesso ao rastreio e acompanhamento psicológico na fase perinatal.

“A depressão é muito mais frequente do que diabetes e hipertensão na gravide. Estamos a tratar as mães, ao mesmo tempo, estamos a prevenir a doença nos filhos. Os primeiros mil dias de vida da criança são os mais importantes para a saúde e prevenção de doença, e começa na conceção e não no parto”, esclarece.

Segundo Teresa Reis, que nos diz que o tema dos fármacos é aquele que mais leva a receber mensagens nas suas redes sociais, onde se dedica ao tema, “é um mito que [os fármacos] não são compatíveis com a gravidez e a amamentação, há muitos que são. É preciso manter ou ajustar a medicação”. E as mulheres que já fazem medicação para depressão “não devem reduzir nem parar a medicação, nem no período antes da gravidez”, devendo discutir o assunto com os seus médicos de modo a encontrar a dosagem mais adequada à sua necessidade, conclui a especialista.

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