"Estou com muito medo" de ir para uma prisão nos EUA e "sinto que Portugal virou-me as costas". A entrevista exclusiva ao hacker português que arrisca 57 anos numa prisão americana - TVI

"Estou com muito medo" de ir para uma prisão nos EUA e "sinto que Portugal virou-me as costas". A entrevista exclusiva ao hacker português que arrisca 57 anos numa prisão americana

Diogo Santos Coelho falou pela primeira vez desde que foi detido em 2022, por suspeitas de ter criado o maior fórum de piratas informáticos do mundo, onde mais de 10 mil milhões de dados roubados foram postos à venda. Mas a dimensão do que criou chamou a atenção dos serviços secretos norte-americanos e agora arrisca passar mais de 52 anos numa prisão do outro lado do Atlântico

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Obrigado por nos receber aqui em Londres e nos falar um pouco da sua história. E precisamente era por aí que começaria. Quem é o Diogo Santos Coelho? 
Nasci em Moselos, uma freguesia pequena de Viseu. Até aos 8 ou 9 anos vivi em Portugal com a minha família, o meu pai e a minha mãe. A minha vida não é assim nada de grandiosa, nada de espetacular. Vivemos em Moselos, onde tínhamos um palheiro, com animais e coisas assim.

No início, os meus pais trabalharam com animais, mas depois, o meu pai começou a trabalhar como camionista internacional e aí não estava tanto em casa. A maior parte do tempo estava fora, e eu fiquei em casa só com a minha mãe. Nesse tempo ela já tinha a doença de Huntington, mas nós não sabíamos. Já tinha sintomas desta doença e não conseguiu dar-me a atenção dela e o amor dela, que é normal com esta doença. 

Como foi a sua infância?
Tive uma infância difícil e solitária em Portugal. Depois fomos todos para Londres viver com as minhas irmãs. Tenho duas irmãs que vivem em Inglaterra.

Viveu aqui em Londres até que idade?
Desde os meus 9 anos até 16. Fiz a escola aqui, em Londres, mas não completei. Tive muitos problemas, como o de não saber a língua e coisas assim. Foi difícil fazer amizades na escola porque as crianças são um bocadinho cruéis e como não conseguia falar, fui vítima de bullying.

E como era a relação com os seus pais? 
Vivíamos em Londres como uma das minhas irmãs, a Cláudia, e vivemos um ano ou dois, na mesma casa, num apartamento aqui em Londres. Eu estava numa escola a Winterborn, só para o sexo masculino.

Mas o Diogo acaba por não concluir o ensino secundário, correto?
Correto. 

E porquê que isso aconteceu? Porquê que deixou de estudar?
Houve o bullying, e a dificuldade em entrar na sociedade aqui em Inglaterra, por não saber a língua, por ter este problema social de autismo. Fui para a escola secundária aqui em Inglaterra. E começaram novos problemas em casa com os meus pais, que estavam no meio de um divórcio.

Eu não tinha muitas amizades e em casa também tinha muitos problemas e não conseguia falar com os meus pais. Eles não tinham tempo para mim.

Sempre foi muito solitário? 
Sim, sim. Estava mesmo só dentro da minha casa, no computador, num portátil que o meu pai me comprou. Todo o meu tempo livre estava no computador sem supervisão do meu pai. Eles não sabiam nada de tecnologia. Por isso deram-me um computador e eu estava livre a fazer o que quisesse. 

Mas nunca teve amigos?
Amizades houve uma ou duas. Ainda tenho um amigo chamado Roose, com quem ainda falo hoje. Ele vive aqui em Inglaterra, em Londres. E esse é o único amigo que consegui fazer  na escola secundária. Só falava com ele depois da escola, online, tipo no Skype.

Quando é que depois voltou para Portugal?
Em 2016. Mesmo em Portugal, estava muito solitário. Com o divórcio, o meu pai levou-me para Portugal contra a minha vontade. Eu não queria ir. A minha mãe, como tem esta doença, estava num lar. Eu já tinha acabado a escola, mas não completado o GCSE, que é o diploma secundário. 

Não queria ir para Portugal porque razão?
Eu estava a fazer um apprenticeship. Porque eu na escola, tinha problemas e faltei muito. Por causa do bullying e o divórcio dos meus pais. Por isso não completei o GCSE, que é o equivalente ao diploma secundário. Mas eu consegui falar com uma empresa chamada JustIT aqui em Londres e eles deram-me um apprenticeship para fazer codificação, programação de computadores e coisas assim. E eu estava a fazer um estágio com eles.

Acho que estava há um ou dois meses nesse estágio a aprender e a trabalhar com eles, quando o meu pai me mudou do país. E não consegui completar este estágio. Outra razão pela qual não queria ir para Portugal era porque a minha mãe está aqui. E as minhas irmãs estão aqui. Quando fui para Portugal perdi todo o contato com a minha mãe e com as minhas irmãs. 

O Diogo vai para Portugal por decisão do seu pai? 
Sim, ele não tinha o consentimento da minha mãe. Porque o divórcio ainda não tinha acabado. A minha mãe não conseguiu dar consentimento e dizer nada porque ela estava num lar. E o meu pai tirou-me e a minha irmã Stephanie.

Como é que começou a mexer em computadores? 
Isso foi em Portugal no ensino básico. O primeiro portátil que tive e o primeiro acesso à internet foi no ensino básico em Portugal. Não sei se lembra do portátil Magalhães que deram às crianças. 

Eu não cresci rodeado de tecnologia. Estava a viver em Moselos e os meus pais trabalhavam com animais e quando vi um portátil Magalhães aquilo era um outro mundo. Era outro mundo para mim. E fiquei muito focado, desde aí, em computadores.

E desenvolveu essas competências no computador. E esse crescimento no computador. Porquê? Porque sentia mais confiante e capaz de ser o Diogo quando estava ao computador?
Eu senti-me conectado. Eu tinha um entendimento do computador melhor do que relações sociais. 

Não sei se é por causa da minha condição, do autismo, mas quando estou no computador sinto-me mais relaxado. Mais livre. Quando estou cá fora a falar com pessoas é muito mais difícil para mim. 

E fez amizades através do computador? 
Eu tinha amizades na escola primária em Portugal. Mas perdi-as todas quando fui para Inglaterra. Agora todos os meus amigos são online. A minha namorada também a conheci online.

Foi detido no Reino Unido quando vinha visitar a sua mãe, não foi?
Vim visitar a minha mãe e as minhas irmãs, porque não tinha contato mesmo nenhum. E quando aterrei no aeroporto de Gatwick, pararam-me logo quando me viram. Eu não sabia nada, o porquê, eu só fiz o que eles me disseram. Senti muito medo, não sabia o que estava a acontecer.

Agora está em cima da mesa a possibilidade de extradição para os Estados Unidos da América.Receia pela sua saúde e pelo seu bem-estar, caso isso seja efetivado?
Sim, porque eu dependo muito da minha família, com esta condição, e não tenho muitas amizades, como você já sabe agora. E nos Estados Unidos da América não tenho nenhuma família, não tenho não tenho ninguém. E a minha família não tem facilidades para irem lá visitarem na prisão.

Não sei como posso suportar estas condições na prisão da América. Segundo os meus advogados, e segundo o que eu li nos papéis, os Estados Unidos da América, posso estar em prisão até 57 anos. Não consigo ver como é que posso suportar isto sozinho. Tenho muito medo de ir. Não sei o que é que fazer.

A minha esperança é que Portugal me ajude e que faça o que é correto. Eu nasci em Portugal e cresci lá e eu acho que é a minha verdadeira pátria. Gostava de retornar a Portugal. Estou a fazer tudo o possível para ir para Portugal e cooperar com as autoridades. 
 

Mas como é que olha para a posição da justiça portuguesa, que ainda não pediu a sua extradição?
Como eu disse, eu tenho esperança, mas não posso negar que também já passou dois anos, desde que vim aqui para Londres e fui detido a 31 de janeiro. E Portugal não fez nada. Não posso negar que sinto que Portugal virou-me as costas a mim e que tem os braços cruzados. 

Mas a minha única oportunidade; a minha única esperança é Portugal fazer o que é certo e pedir a minha extradição para Portugal. Segundo os meus advogados, Portugal tem oportunidade, o poder e o dever de me ajudar

Estaria disponível para colaborar com as autoridades portuguesas?
Sim eu já estou a cooperar e sempre cooperei com as autoridades portuguesas desde o início de ser detido aqui em Inglaterra. E se for extraditado para Portugal, vou continuar. Eu não estou a tentar fugir à justiça, não estou a tentar fazer mesmo nada errado. Estou a tentar refazer a minha vida e fazer uma coisa positiva da minha vida. Isso é o que eu estou a tentar fazer.

Em concreto, o que é que está disponível para fazer para ajudar a justiça portuguesa?
No futuro, eu estou mesmo disponível a tudo o que for necessário, por exemplo, tentar apanhar outras pessoas ou mesmo ajudar em par com a justiça portuguesa, em outros casos semelhantes. Estou disponível para tudo. Como eu disse, eu acho que a minha verdadeira pátria é portuguesa e eu faço tudo por Portugal.

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