"Existem fortes provas" de que hacker português foi vítima de 'grooming'. Como um miúdo de 14 anos montou um império milionário na dark web - TVI

"Existem fortes provas" de que hacker português foi vítima de 'grooming'. Como um miúdo de 14 anos montou um império milionário na dark web

Advogado de Diogo Santos Coelho alega que ele foi vítima de um fenómeno conhecido como "online grooming" - ou seja, aliciamento de menor por adultos. Mas a acusação considera que o jovem ganhou milhões com o site onde eram vendidos milhões de euros em dados roubados, mesmo depois de já ser maior de idade

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Tinha apenas 14 anos, mas aquilo que veio a criar abalou o submundo do cibercrime mundial. Aquilo que começou como uma brincadeira com amigos depressa escalou e transformou-se numa máquina de fazer milhões para hackers de todo o mundo. Trancado num quarto escuro, numa rua sem saída nos arredores de Viseu, Diogo Santos Coelho construiu o RaidForums, atraiu as atenções dos serviços secretos e das autoridades norte-americanas e agora arrisca passar 57 anos numa prisão do outro lado do Atlântico. Aguarda a qualquer momento a decisão de um juiz britânico sobre a sua extradição para os EUA. 

Inicialmente, passava os dias a jogar "Real of the Mad God" com estranhos mais velhos que o ajudaram a aprender a programar. Foi com esse grupo que surgiu a ideia de criar um site chamado RaidForums. “As minhas amizades quase todas foram online”, frisa o jovem de Viseu, que explica que o objetivo desta plataforma era pregar partidas a quem transmite vídeos em diretos no serviço de streaming Twich. Sozinho, e com apenas 14 anos, criou o código do site em JAVA, HTML e PHB.

“O meu primeiro contacto com computadores foi com um Magalhães, ainda em Portugal. Foi um outro mundo para mim. Desde a primeira vez que toquei num computador, senti-me conectado. Eu tinha uma compreensão do computador melhor do que das relações sociais. Não sei se por causa da minha condição de autismo, mas quando estou no computador sinto-me mais relaxado e mais livre”, revelou Diogo Santos Coelho à CNN Portugal.

Mas depressa perdeu o controlo daquilo que criou. O site rapidamente passou a ser utilizado por alguns dos seus amigos para criar subdivisões dedicadas à venda de material roubado, como cartões de créditos, dados de identidade e informações de empresas hackeadas. O jovem alega que não tinha intenção de ganhar dinheiro com o site, mas que o seu grupo de amigos sugeriu que, devido à crescente popularidade do site, eles deviam cobrar uma percentagem das transações – entre 1,5 a 3%.

De acordo com o relatório médico a que a CNN Portugal teve acesso, o jovem terá questionado os seus amigos acerca das consequências da venda de cartões de crédito roubados. "Não te preocupes, não estás envolvido", garantiram-lhe. O jovem diz ter acreditado. "Como eram meus amigos, confiei neles", explicou. Tudo isto enquanto era menor de idade, dos 14 aos 17 anos.

Aliás, Ben Cooper, advogado do hacker no Reino Unido, vê na idade do jovem português um dos pilares da defesa. O jurista britânico alega que Diogo foi alvo de um fenómeno conhecido como "online grooming" por parte de adultos. Este conceito passa por manipular um menor na internet para cumprir determinada conduta. Esta prática inicia-se, por norma, através de uma abordagem que tem como objetivo ganhar a confiança da vítima e, de seguida, levá-la a fazer algo. De acordo com a associação Thorn: Digital Defenders of Children, esta prática é cada vez mais comum. Um relatório dá conta de que 40% dos jovens foram abordados online por alguém que tentou estabelecer amizade ou tentou manipulá-los.

Segundo o especialista que avaliou o jovem na prisão, "existem fortes provas" que apontam para o facto de o jovem ter sido vítima deste tipo de aliciamento. Além disso, destaca que os jovens autistas são "extremamente vulneráveis" a este tipo de manipulação digital e precisam de medidas para "salvaguardar" a sua segurança. 

“Na minha opinião, o Diogo foi aliciado e por ser autista (na época, sem diagnóstico), confiava demais nas pessoas que procuravam explorá-lo para seu benefício financeiro”, conclui o psiquiatra Simon Baron-Cohen, num documento a que a CNN Portugal teve acesso.

Mas as autoridades dizem que Diogo Santos Coelho fez muito dinheiro com este sistema que ajudou a criar. Apesar de não ser acusado de estar envolvido em alguns dos maiores roubos de dados que foram colocados à venda na plataforma, o jovem criou um sistema de filiação, que obrigava os membros do fórum a comprar créditos no site, que eram utilizados para fazer as compras. Ao todo, as autoridades acreditam que os piratas fizeram mais de 400 milhões de euros com a venda de dados roubados no RaidForums.

Os investigadores americanos acreditam que Diogo obteve muito dinheiro com o serviço de mediação da venda de dados roubados com criptomoedas. O jovem hacker português oferecia-se para verificar a veracidade do conteúdo dos ficheiros roubados antes de o comprador enviar o dinheiro para os comprar. Assim que as duas partes estivessem satisfeitas, a transação era completa e Diogo recebia uma comissão pré-determinada.

Foi mesmo preciso um esforço concertado dos serviços secretos norte-americanos (USSS) e da polícia federal (FBI) para conseguir aceder à base de dados do RaidForums. As autoridades americanas infiltraram-se nos canais de comunicação do jovem, particularmente nas redes de mensagens Discord e Telegram. Ali, as autoridades apanharam Diogo a gabar-se várias vezes dos valores que conseguia obter. Num desses casos disse mesmo que só se dignava a hackear alvos que lhe dessem muito dinheiro. “Eu só hackeio coisas que me deem muito dinheiro… Vou vender estes dados no meu site e receber cerca de 30 mil euros por isso…”, disse o jovem de Viseu numa conversa que manteve com outros elementos do site, segundo a investigação.

Numa dessas ligações, o jovem acabou por comunicar com um outro utilizador, que na verdade era um agente do FBI à paisana, para lhe dizer que tinha à venda 2,3 milhões de números de contas de cartões de pagamento, moradas e números de telefone associados aos cartões obtidos num golpe contra vários hotéis norte-americanos. O agente mostrou-se interessado. Sem se aperceber, Diogo preparava-se para vender 1,1 milhão de dispositivos de acesso roubados a um agente do FBI em troca de perto de 3.600 euros em bitcoin.

Tudo acabou quando Diogo decidiu viajar sozinho para o Reino Unido para visitar a mãe, que está internada num lar, e as irmãs. Mal aterrou no aeroporto de Gatwick, as autoridades anunciaram que queriam ver todos os passaportes dos passageiros do sexo masculino. Quando o viram chamaram-no logo. “Senti muito medo”, recorda. Acabou por ficar detido na prisão de Wandsworth, no Reino Unido, durante sete meses.

O relatório do psiquiatra Simon Baron-Cohen mostra como o jovem demonstrou ser incapaz de viver sem determinadas rotinas. “Tenho rotinas rigorosas. Durmo exatamente 7 horas e 45 minutos. Na prisão não podia fazer as minhas rotinas. Não posso funcionar se não trabalhar”, referiu.

“A família do Diogo era bastante desestruturada”, conta Inês Almeida e Costa, advogada que representa o jovem em Portugal. Em busca de uma vida com melhores condições, a família do jovem mudou-se para Londres, no Reino Unido, quando este tinha apenas nove anos. A adaptação não foi fácil. Quando chegou foi estudar para uma escola só para rapazes, mas como não sabia a língua, foi vítima de bullying por parte dos colegas. “As crianças na escola foram um bocadinho cruéis. Tive muita dificuldade em fazer amigos”, recorda Diogo Santos Coelho à CNN Portugal.

Como não tinha amigos, não saía de casa, mas lá o ambiente não era melhor. Ninguém sabia, mas a mãe do jovem sofria da doença de Huntington, uma rara doença degenerativa que afeta o cérebro. “Os meus pais começaram a ter muitas discussões, algumas delas físicas”, admite Diogo. Refugiou-se num portátil que o pai lhe ofereceu e lhe abriu “um outro mundo”, o único onde sentia que podia ser ele próprio. De acordo com o relatório do psiquiatra que o veio a diagnosticar com autismo anos mais tarde, Diogo passava “todo o seu tempo livre” no computador “sem supervisão”.

Aos 16 anos, a situação em casa de Diogo agrava-se. A doença da mãe levou a que tivesse de ser internada num lar. Pouco depois, o pai separa-se e traz o jovem de volta para Portugal sem o consentimento da mãe. Apesar de o médico que o avaliou ter considerado que o jovem era bom a matemática e lógica, esta mudança colocou um ponto final nos seus estudos, ficando com o ensino secundário por concluir. “Os estudos sempre foram um grande problema na vida do Diogo, o que sempre contribuiu para o seu isolamento e para a falta de perceção daquilo que é normal ou certo e errado. A rutura é total. Tudo isto fez com que o Diogo ficasse ainda mais fechado e tivesse muita dificuldade em colocar-se na realidade de todos nós”, argumenta a advogada Inês Almeida e Costa.

De regresso a Portugal, Diogo vem com o pai e uma irmã para Abraveses, em Viseu. Esconde-se das pessoas no seu quarto, mas dá-se a conhecer ao mundo pelos nomes “Omnipotent”, “Kevin Maradona”, “Shiza” ou “Downloading”, com os quais passa a gerir o RaidForums. A popularidade do site trouxe consigo novas formas de fazer dinheiro, com subfóruns criados com o propósito de solicitar a compra e a venda de acesso a dispositivos alheios.

Risco de extradição para os Estados Unidos

Diogo é acusado nos Estados Unidos dos crimes de conspiração, fraude no acesso a dispositivos e roubo de identidade agravado, por ser o principal suspeito de criar e administrar o RaidForums. A justiça britânica aceitou o pedido de extradição para os EUA, mas a defesa do hacker recorreu, alegando que o jovem foi diagnosticado com autismo e que corre o risco de pôr fim à sua própria vida caso seja enviado para cumprir sentença numa prisão americana. “As condições em que seria mantido nos Estados Unidos seriam extremamente austeras. Enfrentaria um provável regime de isolamento, a fim de o proteger dos riscos dos outros prisioneiros. E esse nível de isolamento acarretaria riscos em termos da sua saúde mental”, alega o advogado britânico Ben Cooper.

Em Portugal, Diogo é apenas suspeito num processo-crime de branqueamento de capitais devido à sua atividade ligada ao site. No entanto, a defesa do hacker alega que este crime só aconteceu devido à existência dos crimes antecedentes que são investigados pelos EUA.

Por isso, a equipa de advogados portuguesa fez um requerimento ao DIAP regional do Porto para que as autoridades portuguesas emitissem um mandado de detenção e investigassem também os crimes de que Diogo é acusado pela justiça americana. No entanto, o Ministério Público recusou o requerimento, defendendo que, como os alegados crimes tiveram efeito nos EUA, o país competente para os julgar.

Mas a defesa tem outro entendimento e os advogados João Medeiros e Inês Almeida e Costa fizeram uma reclamação hierárquica à Procuradoria-Geral da República (PGR). “Parte dos crimes foram cometidos em Portugal e, por conseguinte, ao abrigo do princípio da territorialidade, cabe ao Ministério Público português proceder à investigação desses crimes”, defende João Medeiros. A reclamação aguarda resposta.

À CNN Portugal, fonte da Procuradoria-Geral da República admite que a reclamação hierárquica “encontra-se em apreciação”, alegando que o “inquérito corre os seus termos” e está sujeito a “segredo de justiça”. A família de Diogo escreveu uma carta a Marcelo Rebelo de Sousa e, à CNN, fonte de Belém alega que "tratando-se de matéria do poder judicial não cabe ao Presidente da República pronunciar-se”

“Eu tenho muito medo de ir para lá”, diz Diogo, que neste momento está em prisão domiciliária, no seu apartamento em Londres, podendo sair durante o dia. Naquela tarde foi ao escritório do seu advogado para falar em exclusivo com a CNN. “Sinto que Portugal virou-me as costas”, desabafa, admitindo que a sua "única esperança é Portugal pedir a extradição”.

Caso fosse feito o pedido de extradição para Portugal, os advogados de Diogo acreditam que a justiça britânica optaria por enviar o pirata informático para a sua terra natal. "Entre enviá-lo para os Estados Unidos ou para Portugal, seria uma decisão óbvia enviá-lo de volta para a sua terra natal, para a sua família", defende Ben Cooper.

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