O mundo assistiu esta segunda-feira a mais um momento de “diplomacia renascentista” na Casa Branca, evoca o professor de Relações Internacionais Tiago André Lopes. Se outrora “os embaixadores chegavam e presenteavam os reis com joias, com especiarias, com animais exóticos das Américas e da Ásia”, agora são os chefes de governo que usam presentes “como forma de suavizar a outra parte”.
A outra parte é Donald Trump. Em fevereiro deste ano, foi surpreendido pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, que lhe ofereceu uma carta assinada pelo rei Carlos III em forma de convite para uma visita de Estado ao Reino Unido. Mais recentemente, no mês passado, recebeu das mãos do primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, uma cópia emoldurada da certidão de nascimento de Frederick Trump, avô do presidente norte-americano, nascido na Alemanha.
Na noite de segunda-feira em Washington DC, madrugada em Portugal, foi a vez do primeiro-ministro israelita “deslumbrar” Trump, como descreve Tiago André Lopes, apresentando-lhe uma carta de nomeação para o Prémio Nobel da Paz. “É mais do que merecido e o senhor deveria recebê-lo”, declarou Netanyahu, ao entregar em mãos a referida carta, logo ao início de um jantar com o presidente dos EUA.
Diante das câmaras de televisão e dos jornalistas, Trump mostrou-se surpreendido ao receber a carta das mãos de Netanyahu. “Muito obrigado. Eu não sabia disto. Vindo de si, isto é muito significativo”, respondeu um Trump aparentemente apanhado de surpresa, ao mesmo tempo que analisava a carta.
(AP Photo/Alex Brandon)
“Tudo isto é uma coreografia que me lembra muito a diplomacia renascentista”, contempla Tiago André Lopes, denotando uma “lógica de galanteio” que faz lembrar a época em que “tinha de se apelar aos monarcas e fazer chamar a sua boa atenção para que eles movessem a sua vontade”.
Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana, lembra que não é a primeira vez que Trump é nomeado para o Prémio Nobel da Paz: já durante o seu primeiro mandato na Casa Branca foi nomeado por dois deputados do Parlamento norueguês, que o elogiaram na altura por promover a reconciliação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Mais recentemente, em junho passado, foi nomeado pelo governo paquistanês, em reconhecimento da trégua que negociou entre a Índia e o Paquistão.
E, pasme-se, “não é descabido pensar que Donald Trump possa ganhar o Prémio Nobel da Paz neste momento”, argumenta Nuno Gouveia, sublinhando que estes prémios “muitas vezes são atribuídos por uma ação específica”. Veja-se o caso do presidente egípcio Anwar al-Sadat e do primeiro-ministro israelita Menachem Begin, que venceram o Prémio Nobel da Paz por terem negociado conjuntamente a paz entre o Egito e Israel em 1978, “esquecendo um pouco o passado militar de ambos”. Isto cinco anos depois de o prémio ter sido atribuído a Henry Kissinger, antigo secretário de Estado norte-americano, por ter negociado um acordo com o Vietname em 1973, “apesar de ser conhecido o seu papel desempenhado também na própria guerra do Vietname”, nota o especialista.
“Portanto, o Comité Nobel, muitas vezes, atribui o prémio em consequência de uma ação em concreto”, sustenta Nuno Gouveia, afirmando, por isso, que, tendo em conta o historial dos laureados com o Nobel da Paz, “se Donald Trump tiver um papel relevante num tratado de paz na Ucrânia e na questão israelita, não ficaria muito surpreendido” se o presidente republicano fosse distinguido com o galardão.
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Academia corre o risco de deixar de ser "levada a sério"
A confirmar-se essa distinção no futuro, Trump seria o quinto presidente dos EUA na lista dos laureados com o Nobel da Paz, depois de Theodore Roosevelt em 1906, Woodrow Wilson em 1920, Jimmy Carter em 2002 e Barack Obama em 2009.
Esta é, aliás, uma “obsessão” de Donald Trump, vinca o especialista em política norte-americana, apontando que o presidente republicano tem “alguma inveja” de Barack Obama, que venceu o Prémio Nobel da Paz de uma forma “também polémica”, quando tinha acabado de ser eleito presidente dos EUA.
Trump chegou a afirmar em público que merecia o prémio mais do que Barack Obama, sugerindo que o ex-presidente democrata “não fazia ideia porque é que o tinha recebido”.
Apesar do “galanteio” de Netanyahu, como caracteriza Tiago André Lopes, a carta que o primeiro-ministro israelita enviou ao Comité Nobel não é mais do que uma carta de recomendação, já que, de acordo com os estatutos do comité, as nomeações estão abertas aos governos de Estados soberanos.
Para Tiago André Lopes, caso se confirme a distinção do presidente norte-americano, sobretudo na sequência de “uma carta de nomeação emitida por um chefe de um governo que tem um mandato de captura sobre si”, a academia sueca “corre o risco de deixar de ser levada a sério”. “Se, por algum acaso, Trump ganhasse o Nobel da Paz, a Academia poderia fechar portas no ano seguinte, porque ninguém a levaria a sério”, reforça.