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Análise: Como o Príncipe Harry está a reabrir velhas feridas na família real britânica

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Por Lauren Said-Moorhouse e Max Foster

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O livro de memórias do Príncipe Harry chegou oficialmente às livrarias no Reino Unido e em todo o mundo. Em Londres, várias cadeias de lojas abriram as portas à meia-noite para permitir aos leitores ansiosos agarrarem exemplares antes do nascer do sol.

Houve muitas fugas de informação no período que antecedeu o caótico lançamento de “Na Sombra” [“Spare”, no original] na última semana, mas às manchetes sensacionais, e por vezes inflamatórias, tem faltado o contexto do livro completo. O que agora fica claro é a frustração de anos de Harry como “segundo violinista”, depois do seu irmão. As suas memórias revelam toda a extensão do seu desespero ao interpretar o papel de substituto real de William, e o tratamento de que foi alvo por certos membros da família e pela instituição.

A versão de Harry dos acontecimentos é um relato revelador de uma experiência real que pode ser vista externamente como luxuosa e privilegiada, mas que para ele também tem sido traumática e desoladora. A editora Penguin Random House tinha prometido “honestidade crua e inabalável”. Havia certamente isso, e muito mais.

O Duque de Sussex não guarda segredo de quase nada, à medida que desmantela a perceção do público de que ele é o príncipe festivo, divertido e despreocupado, antes mergulhando no impacto devastador da morte da sua mãe, na experimentação de drogas como método para lidar com a dor, e nas suas lutas para encontrar o amor.

Harry é em certos momentos mordaz e hipercrítico em relação a vários membros da família, que não se defendem - uma vez que o Palácio não está a responder às acusações -, e revela conversas profundamente pessoais, apesar da anterior perseguição de Harry contra meios de comunicação social por invasões de privacidade.

A instituição real pode estar internamente horrorizada com a decisão de Harry de lavar em público a roupa suja da família, mas para o exterior tem havido um muro de silêncio, com tanto o Palácio de Buckingham como o Palácio de Kensington a recusarem-se repetidamente a fazer comentários.

No entanto, o livro de 496 páginas [na versão portuguesa, editada pela Objetiva] não é apenas uma bomba escandalosa sobre dinâmicas familiares tóxicas. A Princesa Diana é uma presença eminente ao longo de todo o livro - o que ela teria pensado, como poderia ter lidado com uma certa situação ou as repercussões da sua morte sobre os rapazes.

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Outro tema é a rivalidade fraterna entre Harry e William, e como as suas posições de “herdeiro” e “suplente” [“spare”, em inglês] os afastaram. Partes do livro parecem um trabalho para abater William, mas Harry afirmou que não é essa a sua intenção. Ele parece estar a tentar mostrar que o seu irmão é em parte um produto de uma instituição disfuncional, onde a desconfiança e a competição fazem parte da cultura. Ele reconta casos em que as coisas aqueceram - tanto verbal como fisicamente - mas também vem em defesa do seu irmão.

Harry recorda como os “jornais estavam inundados de histórias sobre o Willy ser preguiçoso”, o que ele caracteriza como “obsceno” e “grosseiramente injusto”. William não estava apenas “ocupado a ter filhos e a criar uma família”, escreve Harry, mas estava “ainda em dívida para com o papá [como o Rei Carlos é referido ao longo do livro]”.

“Ele fazia o quanto o papá queria que ele fizesse, e por vezes isso não era muito, porque o papá e Camilla não queriam que Willy e Kate tivessem muita publicidade", acrescenta Harry. “O papá e Camilla não gostavam que o Willy e a Kate chamassem a atenção para longe deles ou das suas causas. Eles repreenderam abertamente o Willy muitas vezes por causa disso".

O ódio do Duque de Sussex à imprensa tablóide é também tecido ao longo de todo o livro. Ele detalha frequentemente os métodos invasivos utilizados pelos paparazzi antes de acusar dramaticamente que algumas das histórias negativas vieram “da firma” [a casa real], que alimentou os meios de comunicação social, nos seus esforços de favorecer jornalistas para deles ter a sua própria cobertura favorável. Ele acusa especificamente a sua madrasta Camilla de ser uma das pessoas que ele acredita estar envolvida em tais práticas.

 

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Alguns comentadores estão a detetar algumas notórias omissões no livro, particularmente o furor que surgiu depois de Harry e Meghan terem dito a Oprah que tinha havido “preocupação” dentro da família com a cor da pele do seu filho Archie.

Quando questionado por Anderson Cooper por que razão tal não foi mencionado no livro, Harry disse que as observações tinham sido mal interpretadas pelos meios de comunicação britânicos. “Nenhum de nós acreditava que esse comentário ou essa experiência ou essa opinião se baseassem no racismo. Um viés inconsciente, sim”, respondeu o príncipe. “A palavra-chave era 'preocupação', em oposição a 'curiosidade'. Mas a forma como a imprensa britânica, aquilo em que a transformou, não era o que era". Harry e Cooper debateram então como ele também tinha dito na altura que não iria falar mais no assunto e seguiram em frente.

Harry pode não querer aprofundar esta questão, mas muitos observadores criticaram o duque por não ter corrigido as suas declarações mais cedo, especialmente quando ele chocou com a sua própria família, por não corrigir manchetes imprecisas na imprensa tablóide.

Haverá quem diga que não está interessado no drama da família real britânica, ou que está a ficar cansada dele, mas “Na Sombra” disparou para o topo da lista dos mais vendidos da Amazon logo no seu lançamento. Não houve uma corrida às livrarias na terça-feira de manhã, mas vários livreiros disseram à CNN que tinham pilhas de pré-encomendas prontas para serem enviadas. Na terça-feira à tarde, os seus editores britânicos afirmaram que este era o livro de não-ficção mais vendido de sempre, com 400 mil exemplares físicos, eletrónicos e em formato áudio, segundo a britânica PA Media.

“Sempre soubemos que este livro voaria das estantes, mas ele está a exceder até as nossas expectativas mais altas”, afirmou Larry Finlay, diretor executivo da Transworld Penguin Random House.

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Uma coisa é clara: os Sussex estão a tornar-se cada vez mais personagens divisivas, e cada novo lançamento ou entrevista tem reforçado tanto o número de apoiantes como de críticos.

Em termos gerais, aqui no Reino Unido tem havido alguma incredulidade em relação ao desejo declarado de Harry de reparar pontes, e que “nada do que escrevi, nada do que incluí pretende prejudicar a minha família”, declarou a Anderson Cooper numa entrevista de pré-lançamento, ao mesmo tempo que lançava um livro que tanto os critica como coloca a monarquia sob uma luz muito pouco lisonjeira.

A maioria dos britânicos inquiridos na véspera do lançamento do livro pela empresa de sondagens Savanta disseram não confiar em Harry para apresentar uma descrição precisa da sua experiência na família real - 53% disseram não confiar nele para esse efeito, enquanto 39% disseram confiar.

Os mais jovens (18-34 anos) - aqueles que disseram ter votado nas últimas eleições no Labour, o partido liberal da oposição, e que se descreveram como republicanos em vez de monarquistas - foram mais propensos a dizer que confiavam em Harry.

Os princípes ainda pequenos, com os seus pais: Carlos e Diana. Foto de arquivo AP

A historiadora real da CNN, Kate Williams, diz que o relato de Harry mancha a monarquia e levanta questões sobre a sua estrutura.

“Embora ele diga que apoia a monarquia, ele culpa-a por muito do que correu mal”, afirma. “Temos uma situação em que uma criança recebe tudo e toda a atenção e a criança seguinte não recebe nada. Mas também é vendido à imprensa, e é por isso que ele estava tão infeliz e foi por isso que sentiu que tinha de partir”.

A fenda familiar também ameaça ofuscar o maior acontecimento real do ano: a coroação do Rei Carlos III, em maio. Numa entrevista de promoção do seu livro, Harry não se comprometeu a estar presente com Meghan.

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O planeamento do evento deverá estar bem encaminhado, com o grande dia a aproximar-se rapidamente. Seria estar contra o espírito da ocasião excluir qualquer pessoa, especialmente membros da família - quer se trate dos Sussex ou do Príncipe André, que foi forçado a renunciar aos deveres reais no ano passado a meio de um escândalo de abuso sexual.

“Ajudaria muito Carlos, em termos de imagem, se Harry e Meghan estivessem presentes”, diz Williams. “Vai ser particularmente mau para ele se o seu filho não estiver lá, porque, claro, Harry ainda está muito alto na linha do trono, tal como os seus filhos”.

Kate Williams acrescenta que “Carlos gostaria que ele estivesse lá, e Carlos gostaria que Meghan estivesse lá”. E recorda que muitos ficaram entusiasmados por ver o casal regressar para o Jubileu da Rainha Platina no Verão passado.

Kate e William caminham ao lado de Harry e Meghan, nas cerimónias fúnebres da avó dos princípes, Rainha Isabel II, em setembro de 2022. Foto AP

Os Sussexes durante as celebrações do falecido Jubileu da Rainha Platina, em Junho passado. Crédito: Toby Melville/Pool/Reuters

Ninguém do Palácio disse que os Sussex não serão convidados, pelo que se assume que por agora permanecem na lista de convidados. Cabe-lhes então a eles decidir se querem ir e celebrar com o novo soberano.

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“Tenho saudades do Reino Unido, tenho saudades dos meus amigos”, disse Harry no seu programa na Netflix. Eu vim para cá [para os Estados Unidos] porque eu tinha mudado. Tinha mudado ao ponto de ter crescido mais do que o meu ambiente”.

Significará isso que ele e a sua família não voltarão em maio? O tempo dirá, mas ele também mencionou a falta “das estranhas reuniões familiares, de quando estamos todos reunidos sob o mesmo teto em certas alturas do ano”.

 

“Amo a minha pátria-mãe, e amo a minha família, e sempre amarei. Só desejava que, no segundo momento mais negro da minha vida, ambos tivessem estado lá para mim. E acredito que, um dia, eles olharão para trás e também desejarão terem estado". O príncipe Harry, sublinhando o seu "amor" pelo Reino Unido e pela sua família, em "Na Sombra".