Nesta escola “nova”, quando chove muito, não há aulas e as paredes dão choque - TVI

Nesta escola “nova”, quando chove muito, não há aulas e as paredes dão choque

Foi “inaugurada” em setembro, mas os problemas acumulam-se e a chuva não dá descanso. Cai água no quadro elétrico e o perigo é constante. O ginásio parece um lago. Os pais queixam-se que a situação "é recorrente" e acusam a Câmara de Lisboa de não lhes dar resposta

A EB de Santo Amaro, em Alcântara, Lisboa, foi alvo de uma requalificação profunda e voltou a reabrir em setembro passado. Mas o mau tempo que se tem feito sentir revelou problemas graves. Quando chove de forma intensa, a água escorre no quadro principal de eletricidade da escola e este dispara. Mas não só. Chove no ginásio, nas salas de aula e até escorre água nos candeeiros. Há ainda alunos que dizem apanhar pequenos choques elétricos quando se encostam a algumas paredes. As devidas entidades sabem da situação, mas pouco ou nada está a ser feito. Os pais prometem não ficar calados. A CNN Portugal teve acesso a vídeos e fotografias que comprovam as queixas.

A obra esteve a cargo da Câmara Municipal de Lisboa, demorou dois anos e custou 4,7 milhões de euros, mas desde que reabriu os problemas continuam a surgir. Na “inauguração” esteve presente o presidente da autarquia, Carlos Moedas. A Câmara já foi informada, tal como a SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana (que pertence à autarquia e foi responsável pela gestão do processo), o empreiteiro a quem foi adjudicada a obra e, até, a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEST). Sem esquecer a Junta de Freguesia de Alcântara.

Na quinta-feira 30 de novembro, a chuva voltou a cair e o quadro elétrico encheu-se de água. Disparou, fez com que se ligasse o alarme de incêndio e a escola ficou sem eletricidade. Os responsáveis da escola informaram todas as entidades que tinham de avisar. “Quinta-feira, pela hora do almoço os pais souberam que não estavam reunidas as condições para haver aulas, por falta de eletricidade, e adiantaram que quem quisesse podia ir buscar os filhos. O mesmo aconteceu na sexta-feira e, depois, na segunda”, conta à CNN Portugal uma mãe. Os pais já perderam a conta do número de vezes que a eletricidade faltou e as aulas ficaram por dar.

O incidente mais recente acabou por se revelar mais grave. “A escola estava sem eletricidade e com o alarme de incêndio ligado. Não era possível dar aulas. Foi-nos dito que tinham pedido à Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares para fechar a escola, mas tinha sido dada a indicação para ficarem abertos”, explica. “Só fecham as escolas quando falta água”, acrescenta esta mãe.

Os bombeiros estiveram no local, devido ao excesso de água e avisaram para não ligarem o quadro de eletricidade pelo perigo de curto-circuito. Pediram ainda para se afastarem do quadro sempre que houvesse água a cair em cima dele porque podia haver “uma descarga”.

Ginásio cheio de água, salas de aula, casas de banho. Mas também rios de água no exterior da escola. Basta chover com um pouco mais de intensidade.

O que é certo é que há crianças que garantem que, nos dias que chove, quando se encostam a algumas paredes, sentem “pequenos choques elétricos”. Os pais estão assustados com a situação, mas até ao momento não obtiveram nenhuma resposta oficial da Câmara Municipal de Lisboa.

“Primeiro disseram que a água vinha das caleiras entupidas, mas elas foram limpas e continuou a acontecer. Até a comida que estava armazenada no refeitório se estragou, entretanto. Esta não é a primeira vez que o quadro elétrico dispara. É recorrente e vai continuar a acontecer até resolverem o problema de fundo”, conclui esta mãe. 

Na verdade, o refeitório é outro problema do espaço. Quando a escola abriu, em setembro, ainda não conseguiam confecionar a comida nas instalações. Foi prometido que em duas semanas estava resolvido, mas, meses depois, a comida continua a vir de fora.

Há ainda vários alunos com necessidades educativas especiais no estabelecimento e o elevador que transporta as cadeiras de rodas também já se avariou, impedindo o normal acesso das crianças. As rampas que existiam na escola antiga foram retiradas.

Só na segunda-feira à tarde, dia 4 de dezembro, depois de dois dias completos sem aulas, foi mandado um eletricista - por parte do empreiteiro - à escola que voltou a ligar o quadro elétrico. Facto que permitiu retomar as aulas e desligar o alarme de incêndio que tocou durante vários dias seguidos.

"A água continua a entrar no edifício, infiltrando-se nas zonas elétricas"

Apesar da obra ser da responsabilidade da Câmara Municipal e da SRU, a manutenção do espaço está a cargo da Junta de Freguesia de Alcântara que também já tem conhecimento da situação. Questionada pela CNN Portugal, a Junta de Freguesia confirmou isso mesmo. 

"Em outubro, com as primeiras chuvas verificou-se que a escola inundava em diversos locais, atingindo a parte elétrica e iluminação do equipamento escolar, o que tem levado ao condicionamento da atividade letiva por diversas vezes até agora", avança fonte oficial. "A água continua a entrar no edifício, infiltrando-se nas zonas elétricas, entrando pelas calhas de eletricidade e chegando, inclusivamente, ao quadro elétrico", acrescenta.

"Todas estas situações foram reportadas pela Direção da escola à Câmara Municipal de Lisboa, dando conhecimento à JFA e restantes entidades", garante ainda a mesma fonte.

E as consequências são sentidas por todos: "Estas refletem-se na falta de condições da escola em manter a sua atividade regular e no incómodo a que famílias e alunos estão sujeitos com os constantes condicionamentos da atividade letiva. Trata-se de uma obra recém inaugurada de um valor de quase 5 milhões de euros, não sendo expectável que ocorram este tipo de situações e muito menos esta demora de três meses na sua resolução".

A Junta de Freguesia de Alcântara solicitou mesmo à Câmara Municipal de Lisboa uma visita à escola antes da inauguração, na qual estiveram presentes as vereadoras da Educação e das Obras, bem como a Direção da escola "Ientificámos de imediato a existência de uma série de problemas e manifestámos a nossa preocupação, quer presencialmente quer posteriormente, por escrito para as senhoras Vereadoras, bem como para o senhor Presidente da Câmara", refere.

A Junta de Freguesia recorda ainda que "no dia 15 de setembro, na inauguração da escola, quer a Junta quer a Direção da escola voltaram a referir a existência desses mesmos problemas e a preocupação sobre o impacto que teriam na atividade da escola. O senhor Presidente da CML informou que tinha conhecimento desses problemas e referiu o prazo de duas semanas para a regularização de alguns desses problemas (os quais infelizmente ainda não estão resolvidos)".

Sem capacidade de intervenção nesta matéria, "a Junta de Freguesia acompanha com muita preocupação toda esta situação e aguarda a sua resolução célere por parte da Câmara Municipal de Lisboa para que a escola possa retomar a sua atividade normal". Ou seja, sem interrupções, sempre que chove.

Câmara apenas refere "queixas de entrada de água na grelha de fachada da escola"

A CNN Portugal questionou a Câmara Municipal de Lisboa sobre a situação, referindo em específico a questão da entrada de água no quadro de eletricidade, e sobre o que iria ser feito. Em resposta ao email enviado, a autarquia da capital explica que "tendo tomado conhecimento das queixas relativas a uma entrada de água na grelha de fachada da Escola Básica de Santo Amaro decorrente das últimas chuvas, técnicos da Lisboa Ocidental SRU - Sociedade de Reabilitação Urbana, responsável pela obra de requalificação da Escola, acompanhados pelo empreiteiro, visitaram o local, dando garantias à direção da Escola de haver condições para manter o seu normal funcionamento, além de terem reposto o funcionamento do quadro elétrico, não existindo qualquer perigo associado".

Ou seja, a Câmara refere apenas "queixas de entrada de água na grelha de fachada da escola", mas as informações reportadas à autarquia vão muito além disso e a CNN Portugal teve acesso a vários emails que também comprovam esse facto.

Quanto "à entrada de água na grelha da fachada, ela será corrigida a curto prazo", garante a Câmara Municipal de Lisboa em resposta à CNN Portugal. "Identificou-se uma pequena infiltração na cobertura, com saída de água junto a um candeeiro, situação entretanto resolvida", acrescenta.

Na terça-feira, dia 5 de dezembro, dia em que os técnicos da SRU e o empreiteiro visitaram o local, a autarquia diz que foi "confirmado com a diretora da Escola que a plataforma elevatória estava a funcionar corretamente, tal como o alarme de incêndio, e que o quadro elétrico principal se encontrava ligado e em pleno funcionamento".

Por fim, a autarquia diz que "estas pequenas reparações estão a ser efetuadas conjuntamente com o apoio do empreiteiro, prevendo-se que a totalidade das reparações fique solucionada até ao final do presente mês".

Os pais esperam que as garantias agora dadas sejam cumpridas, mas lamentam que a questão do quadro elétrico, um problema recorrente desde outubro, não esteja assumida.

No mesmo dia que técnicos da SRU e o empreiteiro da obra visitaram a EB de Santo Amaro ( 5 de dezembro), decorreu a Assembleia Municipal de Lisboa. Apesar dos elogios às obras feitas em diversas escolas durante a sessão, e aos 30 milhões de euros já gastos, por parte do presidente da Câmara Municipal Carlos Moedas, o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho, alertou para problemas estruturais na Escola Maria Barroso que, sempre que chove com mais intensidade, impede o normal funcionamento da mesma. Referiu que eram "problemas estruturais" que não dependiam da manutenção que a Junta fazia. Ou seja, a escola de EB de Santo Amaro não será, neste momento, a única que tem revelado problemas perante o mau tempo.

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