O Uganda declarou esta quarta-feira o fim de um surto de ébola que durava há quatro meses e que matou 55 pessoas. “Conseguimos controlar com sucesso o surto”, afirmou a ministra da Saúde, Jane Ruth Aceng, em declarações depois corroboradas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

“O Uganda colocou um fim ao surto de ébola aplicando medidas de controlo como a vigilância, rastreamento de contactos e de infeções, prevenção e controlo”, pode ler-se no comunicado da agência das Nações Unidas, que declara o fim de um surto de ébola após 42 dias consecutivos sem a notificação de novos casos, um período que corresponde ao dobro do período de incubação da doença.

Para a OMS, a chave do sucesso, chegado após 113 dias de um surto que provoca uma febre hemorrágica mortal, foi a perceção por parte das comunidades em fazer o que era preciso para colocar um fim às infeções. "Enquanto expandimos os esforços para uma resposta mais forte em todos os nove distritos afetados, a bala mágica foram as comunidades", pode ler-se.

Apesar de não ser muito transmissível, o ébola tem uma alta taxa de letalidade. Com efeito, as 55 mortes verificaram-se em apenas 142 casos confirmados, o que traz a taxa de letalidade relacionada com a doença para uma percentagem superior a 38%.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou também o papel de doadores e de parceiros que permitiram a mobilização de recursos para o país, bem como as várias vacinas que se candidataram a viabilidade em "tempo recorde", ainda que, neste caso, que dizia respeito à mutação originária no Sudão (uma das seis estirpes de ébola), ainda não tenha sido encontrada uma vacina eficaz.

De resto, a primeira de três vacinas candidatas a controlar o surto chegou ao Uganda apenas 79 dias após a deteção do primeiro caso. Foram 1.200 doses que a OMS classificou como um "passo histórico" na capacidade global em responder a surtos, recordando que foram necessários mais de sete meses para as vacinas entrarem na última fase de ensaios quando foi detetado um surto na Guiné Conacri, em 2015. Entretanto chegaram ao país várias outras doses, perfazendo um total de cinco mil pelo meio de dezembro.

"Mesmo que estas vacinas candidatas não tenham sido utilizadas durante este surto, fica a contribuição do Uganda e dos parceiros na luta contra o ébola. Na próxima vez que o vírus do Sudão aparecer, a cooperação entre fabricantes, doadores, autoridades de saúde e vacinas pode ser retomada", afirmou o representante da OMS no Uganda, Yonas Tegegn Woldemariam.

Pessoas fazem fila para receberem comida no Uganda durante um confinamento por causa do ébola em Mubende (Hajarah Nalwadda/AP)

Importante foi também a ação das autoridades locais para garantir o funcionamento dos vários confinamentos decretados, o que acabou por levar à falta de alimentos em alguns locais. Na fotografia acima, em Mubende, várias pessoas juntam-se para receberem comida, uma vez que os mercados locais tiveram falhas nas entregas por causa do fecho de regiões que produziam alimentos.

A OMS destaca ainda a importância na construção de edifícios para colocar os pacientes em isolamento, muitos dos quais hospitais de campanha improvisados que foram montados em várias cidades afetadas. Mas a ajuda também se fez, como seria de esperar, através do dinheiro. Ao todo, e segundo a agência da ONU, foram transferidos 6,5 milhões de dólares (cerca de seis milhões de euros) para o Uganda e outros três milhões de dólares (perto de 2,8 milhões de euros) para seis países vizinhos, com o objetivo de, no primeiro caso, atacar o surto, e de, no segundo caso, conter eventuais surtos.

Do lado do país africano chega um sinal de esperança que não se esgota nesta vitória: "O Uganda está a mostrar que a pesquisa que salva vidas pode ser organizada a meio de um surto", afirmou, na altura, a ministra da Saúde do país, garantindo que todos os outros passos recomendados pela OMS estavam a ser cumpridos: vigilância rápida para encontrar casos, rastreamento de contactos para identificar quem foi exposto, cuidados de saúde para quem foi infetado e conseguir uma resposta comunitária. E isso foi cumprido: mais de quatro mil casos foram acompanhados de forma intensiva nos 21 dias que se seguiam à exposição. O último doente foi considerado curado a 30 de novembro, data em que começou o período de 42 dias que agora acabou.

"As autoridades de saúde demonstraram um comprometimento político forte e implementaram ações de saúde política rapidamente", acrescenta a OMS, com Tedros Adhanom Ghebreyesus a vincar que "o Uganda demonstrou que o ébola pode ser derrotado quando todos os sistemas funcionam". E isso, para o diretor-geral daquela organização, significa ter os sistemas de alerta a funcionar das mais variadas formas, nomeadamente pela cooperação entre autoridades de saúde e comunidades locais.

António Guimarães