A indisciplina e a perda das aprendizagens - TVI

A indisciplina e a perda das aprendizagens

    Alberto Veronesi
    Professor do 1.º ciclo na Escola Manuel Teixeira Gomes, em Chelas, Lisboa
  • 7 dez 2023, 20:55
Escola

Numa altura em que ainda se fala da perda de aprendizagens devido à pandemia, narrativa essa que, sinceramente, começa a ser ridícula, gostaria de chamar à atenção para uma questão que, essa sim, prejudica as aprendizagens há anos: a indisciplina.

A preocupação com a indisciplina em meio escolar, e dentro da sala de aula, tem sido crescente entre os professores, mas não tem tido a proporcional preocupação por parte dos decisores políticos.

No passado, a autoridade dos professores era incontestável e com esse facto conseguia-se criar um ambiente de respeito e seriedade na maior parte das escolas. Hoje, vemos a autoridade do professor posta em causa por todos, dentro ou fora da escola.

Uma das principais causas é a educação excessivamente permissiva por parte dos pais. Quando eu frequentei o ensino básico e secundário ouvia todas as manhãs a minha mãe dizer-nos, a mim e aos meus irmãos, que não queria queixa dos professores relativamente ao nosso comportamento. Esta consciência parental existente na época, frequentei o básico e o secundário entre 1986 e 1998, tinha como principal consequência o facto de nas escolas haver muito menos casos de indisciplina dentro e fora da sala de aula. Obviamente, sempre houve alguma indisciplina, mas a maioria dos estudantes eram conhecedores dos seus limites. Havia uma consciência social da autoridade dos professores e encarava-se a escola com maior seriedade. A escola era para aprender, se quiséssemos ser alguém no futuro. Era a única saída para muitos alunos que queriam ascender socialmente. E os pais tinham essa noção.

Claro que também é verdade que, nessa mesma época, a autoridade com que muitos professores geriam as suas aulas e se relacionavam com os alunos, usando o medo como arma “pedagógica”, não deixa saudades. E por essa razão, ninguém lá quer voltar!

Mas questiono-me com frequência se teremos sabido fazer a transição entre esses abusos e o laxismo e a indisciplina que nos dias de hoje assolam a Escola Pública, prejudicando as aprendizagens bem mais do que a pandemia?

Não digo que o caminho não devesse ser feito, tenho pena é que hoje a perceção é a de que se passou do oito para o oitenta.

Não me recordo de naquela época ver e ouvir casos de agressões de alunos a professores, casos de pais ou encarregados de educação a agredirem professores.

Os professores tinham uma imagem valorizada e prestigiada socialmente, eram vistos como autoridade nas escolas, eram respeitados pela grande maioria e quem não respeitava sentia-se mal porque as suas atitudes eram, a maior parte das vezes, condenadas pelos próprios colegas. Hoje, esse desrespeito começa pela própria tutela e propaga-se pela sociedade acabando nos pais, que muitas vezes começam o dia com mensagens completamente erradas quanto à forma e ao conteúdo.

Não é incomum ouvir-se dos alunos frases “encomendadas” pelos pais que, por si só, são desrespeitosas: “a minha mãe disse para lhe dizer que ela autoriza a ter telemóvel em cima da mesa na sala"; “pergunta lá por que é que ainda não deu a folha com a matéria para o teste"; "vê lá se é preciso ir falar com ela”. Poderia ficar aqui continuamente a descrever algumas frases, proferidas por muitos dos nossos jovens, que são demonstrativas do caos a que se chegou.

A autoridade para os jovens de hoje é vista como atentatória aos seus direitos, as regras e os cânones são conceitos do passado e, portanto, são educados com o sentimento de que tudo lhes é devido, de preferência sem esforço.

Na altura, não havia necessidade de ter uma polícia própria para as escolas, a maior parte das vezes as "contínuas", os seguranças e os professores punham cobro aos atos de indisciplina sem necessidade de recorrerem ao 115 (atual 112).

Naturalmente que sempre houve a rebeldia entre os adolescentes, que sempre houve os borderliners, que sempre houve aqueles mais indisciplinados, mas eram a minoria.

Só quem não estudou na área é que pode achar que não há degradação do processo de ensino-aprendizagem com a indisciplina!

Mas não é só à falta de autoridade dos professores que se deve o aumento da indisciplina. As causas podem e devem ser atribuídas a uma série de outros fatores, tanto internos quanto externos. Externamente, a exposição a conteúdo violento e desrespeitoso nos meios de comunicação e problemas familiares desempenham um papel significativo. Internamente, fatores como superlotação das salas, falta de recursos, salas de aula inadequadas, muito quentes, muito frias, onde entra água, vidros partidos, degradados e pouco ou nada acolhedoras.

Por esse motivo, a indisciplina escolar não é apenas uma questão de comportamento, mas também um dos principais fatores que contribuem para a perda de oportunidades de aprendizagem. É sabido que o desrespeito constante e a falta de conduta adequada nos ambientes de ensino prejudicam a qualidade da educação. A falta de um ambiente disciplinado afeta tanto os alunos que desejam aprender como os professores que desejam ensinar. As salas de aula tumultuadas e a falta de respeito comprometem o processo de ensino-aprendizagem, tornando mais difícil para os professores transmitirem os conteúdos das diferentes disciplinas de forma eficaz e para os alunos absorverem o conhecimento. Este sim é um problema real e que tem, antes, durante e depois da pandemia, prejudicado muitíssimo as aprendizagens.

Se isto não chegasse, vários estudos concluem que a indisciplina contribui para um ambiente escolar instável, tornando as escolas menos seguras para todos os envolvidos. A violência e a falta de respeito não só prejudicam o bem-estar emocional dos alunos, como também afetam a sua capacidade de concentração e aprendizagem. Em última análise, a indisciplina escolar representa uma ameaça ao direito de todos os alunos receberem uma educação de qualidade num ambiente seguro e respeitoso.

Portanto, é fundamental que a sociedade, os encarregados de educação, os sindicatos de professores e o governo se unam para restaurar a autoridade e a disciplina nas escolas, garantindo que todos os alunos tenham a oportunidade de aprender e prosperar.

Para finalizar, pergunto, a todos aqueles que se mostram preocupadíssimos com a recuperação das aprendizagens relativas à pandemia, se não acham que mais importante que recuperar é não perder?

A indisciplina é a verdadeira e constante “pandemia”, que faz com que nem sequer se adquiram aprendizagens.

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