Depois de meses sob influência de La Niña, os modelos climáticos internacionais apontam agora para uma provável transição para El Niño já no verão de 2026. O fenómeno ainda não se formou oficialmente, mas os sinais começam a alinhar-se. E, se se confirmar, pode voltar a empurrar a temperatura média global para novos recordes, possivelmente em 2027.
Dados do Centro Europeu de Previsões do Tempo a Médio Prazo indicam que rajadas anómalas de vento no Pacífico equatorial estão a deslocar águas muito quentes em direção à América do Sul - um dos mecanismos clássicos de formação de El Niño. "Ainda estamos atualmente em fase La Niña", explica Ricardo Deus, da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). A avaliação coincide com os relatórios da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que monitoriza o fenómeno ENSO (El Niño–Southern Oscillation). No entanto, o enfraquecimento é evidente.
"A previsão baseada num ensemble de diversos modelos aponta para 75% de probabilidade de transição para a fase neutral do ENSO nos próximos meses", explica o especialista. "Identifica-se que pode ocorrer a transição para a fase El Niño entre junho, julho e agosto, aumentando de intensidade nos meses seguintes e atingindo o máximo no inverno 2026-2027 do Hemisfério Norte."
El Niño e La Niña são os maiores motores da variabilidade climática anual à escala global. Funcionam como um regulador térmico do planeta, redistribuindo calor entre o oceano e a atmosfera. Quando surge um El Niño aumenta a libertação de calor do oceano para a atmosfera, sobe a temperatura média global, alteram-se os padrões de precipitação e mudam épocas e intensidade de ciclones e furacões.
O episódio de 2023-2024, por exemplo, contribuiu significativamente para que 2024 se tornasse o ano mais quente alguma vez registado. Se o próximo evento atingir intensidade moderada ou forte, poderá voltar a impulsionar máximos históricos globais.
Para já, os modelos sugerem um episódio moderado. As previsões indicam que o aquecimento da região Niño 3.4 pode atingir ou ultrapassar 1,0 ºC. Para ser oficialmente classificado como El Niño, o aquecimento médio dessa região do Pacífico equatorial tem de superar 0,5 ºC durante três meses consecutivos - o limiar definido pela NOAA.
"As atuais previsões apontam, com alguma probabilidade, para que este episódio possa atingir 1,0 ºC, o que ainda não o coloca no topo dos mais intensos", sublinha Ricardo Deus.
Não será, à partida, um dos mais extremos de que há memória, mas pode ser suficiente para influenciar a temperatura média global.
E Portugal?
O impacto direto em Portugal é geralmente fraco e incerto. "El Niño afeta muito normalmente o continente americano, algumas zonas do norte, muitas do sul, e o extremo Oriente. Toda essa zona é muito afetada. A Europa está longe. É muito mais impactante no continente americano", explica o especialista ouvido pela CNN Portugal.
De acordo com os mapas de correlação da NOAA, o Atlântico Norte oriental - onde se encontra Portugal - não surge como zona com impacto robusto e consistente nos indicadores de temperatura e precipitação, tanto no verão como no inverno. "Não quer dizer que não haja alguma influência, mas não é uma relação direta", acrescenta Ricardo Deus.
Ou seja: não é possível afirmar que teremos um inverno mais chuvoso ou um verão mais quente apenas por causa do El Niño. O que é sabido é que um El Niño forte concentra grandes quantidades de água quente no Pacífico central e oriental, aumentando a evaporação e a humidade atmosférica.
“Se tivermos um El Niño muito forte teremos um Pacífico com muita humidade, muita água na atmosfera, o que se transforma em regiões com muita precipitação."
Os impactos tendem a ser particularmente intensos na costa oeste da América do Sul, no sul dos Estados Unidos e em partes da Ásia e da Oceânia.
Na Europa, os efeitos são indiretos e menos previsíveis. No entanto o especialista alerta que não os devemos ignorar: "Para nós, Europa, é importante olhar para estes índices e ver como se estão a desenvolver porque têm impacto à escala global".