Se La Niña transitar para El Niño no verão, Portugal "está longe" dos efeitos - TVI

Se La Niña transitar para El Niño no verão, Portugal "está longe" dos efeitos

  • CNN Portugal
  • MCC
  • 16 fev, 23:37
El Nino La Nina calor

O fenómeno meteorológico que ajudou a fazer de 2024 o ano mais quente de sempre pode estar de volta

Depois de meses sob influência de La Niña, os modelos climáticos internacionais apontam agora para uma provável transição para El Niño já no verão de 2026. O fenómeno ainda não se formou oficialmente, mas os sinais começam a alinhar-se. E, se se confirmar, pode voltar a empurrar a temperatura média global para novos recordes, possivelmente em 2027.

Dados do Centro Europeu de Previsões do Tempo a Médio Prazo indicam que rajadas anómalas de vento no Pacífico equatorial estão a deslocar águas muito quentes em direção à América do Sul - um dos mecanismos clássicos de formação de El Niño. "Ainda estamos atualmente em fase La Niña", explica Ricardo Deus, da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). A avaliação coincide com os relatórios da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que monitoriza o fenómeno ENSO (El Niño–Southern Oscillation). No entanto, o enfraquecimento é evidente. 

"A previsão baseada num ensemble de diversos modelos aponta para 75% de probabilidade de transição para a fase neutral do ENSO nos próximos meses", explica o especialista. "Identifica-se que pode ocorrer a transição para a fase El Niño entre junho, julho e agosto, aumentando de intensidade nos meses seguintes e atingindo o máximo no inverno 2026-2027 do Hemisfério Norte."

El Niño e La Niña são os maiores motores da variabilidade climática anual à escala global. Funcionam como um regulador térmico do planeta, redistribuindo calor entre o oceano e a atmosfera. Quando surge um El Niño aumenta a libertação de calor do oceano para a atmosfera, sobe a temperatura média global, alteram-se os padrões de precipitação e mudam épocas e intensidade de ciclones e furacões. 

O episódio de 2023-2024, por exemplo, contribuiu significativamente para que 2024 se tornasse o ano mais quente alguma vez registado. Se o próximo evento atingir intensidade moderada ou forte, poderá voltar a impulsionar máximos históricos globais.

Para já, os modelos sugerem um episódio moderado. As previsões indicam que o aquecimento da região Niño 3.4 pode atingir ou ultrapassar 1,0 ºC. Para ser oficialmente classificado como El Niño, o aquecimento médio dessa região do Pacífico equatorial tem de superar 0,5 ºC durante três meses consecutivos - o limiar definido pela NOAA.

"As atuais previsões apontam, com alguma probabilidade, para que este episódio possa atingir 1,0 ºC, o que ainda não o coloca no topo dos mais intensos", sublinha Ricardo Deus.

Não será, à partida, um dos mais extremos de que há memória, mas pode ser suficiente para influenciar a temperatura média global.

E Portugal?

O impacto direto em Portugal é geralmente fraco e incerto. "El Niño afeta muito normalmente o continente americano, algumas zonas do norte, muitas do sul, e o extremo Oriente. Toda essa zona é muito afetada. A Europa está longe. É muito mais impactante no continente americano", explica o especialista ouvido pela CNN Portugal.

De acordo com os mapas de correlação da NOAA, o Atlântico Norte oriental - onde se encontra Portugal - não surge como zona com impacto robusto e consistente nos indicadores de temperatura e precipitação, tanto no verão como no inverno. "Não quer dizer que não haja alguma influência, mas não é uma relação direta", acrescenta Ricardo Deus.

Ou seja: não é possível afirmar que teremos um inverno mais chuvoso ou um verão mais quente apenas por causa do El Niño. O que é sabido é que um El Niño forte concentra grandes quantidades de água quente no Pacífico central e oriental, aumentando a evaporação e a humidade atmosférica.

“Se tivermos um El Niño muito forte teremos um Pacífico com muita humidade, muita água na atmosfera, o que se transforma em regiões com muita precipitação."

Os impactos tendem a ser particularmente intensos na costa oeste da América do Sul, no sul dos Estados Unidos e em partes da Ásia e da Oceânia.

Na Europa, os efeitos são indiretos e menos previsíveis. No entanto o especialista alerta que não os devemos ignorar: "Para nós, Europa, é importante olhar para estes índices e ver como se estão a desenvolver porque têm impacto à escala global".

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