Não é aritmética. Ou não é só aritmética, vá. O mapa de Portugal acabou de ficar mais cor de laranja e azul, desaparecendo a pintura rosa que foi tradição durante tantos anos, até com Aníbal Cavaco Silva.
É o resultado das piores eleições legislativas para a esquerda portuguesa, que não deverá ficar além dos 32,61%, o que até valeu a demissão de Pedro Nuno Santos do PS. Esse é o resultado nacional após a contagem de todos os 22 círculos eleitorais nacionais, faltando apenas contar os círculos da Europa e Fora da Europa. Isto numa noite em que a direita, composta por Aliança Democrática (AD), Chega e Iniciativa Liberal teve 60,19%. Mas mais do que isso: os deputados eleitos pela direita são já 156, o que abre espaço a uma revisão constitucional, já que os três partidos passam a ter mais de dois terços da Assembleia da República.
Aritmética, portanto, mas semântica e ideológica. A vitória, dizemos.
Voltando ao mapa. Se bem nos lembramos, o Chega elegeu dois dos quatro deputados em 2024, pelo que se esse cenário se repetir o partido de André Ventura vai passar a liderar a oposição.
E essa será a grande notícia, caso surja, a 28 de maio, quando forem divulgados os resultados finais. Mas já é também a grande notícia deste 18 de maio, que abriu a noite eleitoral com todas as projeções a darem a possibilidade de o Chega ficar à frente do PS.
Isto porque a grande pergunta não teve uma resposta assim tão diferente das sondagens que foram feitas, incluído da Tracking Poll da CNN Portugal, que sempre deu vitória à AD.
A coligação liderada por Luís Montenegro consegue 32,10% e 89 deputados, reforçando os 80 conseguidos há um ano. Melhor, sim, mas nem de perto melhor para almejar uma maioria absoluta. Nem sozinho, nem com a Iniciativa Liberal, que vai passar a ter nove deputados, mais um que há um ano. Dito isto, em termos de governabilidade ficamos mais ou menos no mesmo sítio que estávamos antes das eleições.
Mas voltemos à notícia da noite. É a subida brutal do Chega e a não menos brutal queda do PS, que só fez pior em 1985 e em 1987. Agora teve 23,38% e 58 deputados - lembrando sempre que isto são resultados antes de serem conhecidos os círculos da emigração.
O Chega, por sua vez, sobe para os mesmos 58 deputados, mas pode pensar seriamente em conseguir pelo menos 60, reflexo dos 22,56%. É que se acontecer o mesmo que em 2024, o partido de André Ventura consegue mais dois deputados e os tais 60 mandatos. O PS, se também mantiver tudo igual, passa a ter 59, enquanto a AD fica com 90. Neste cenário será o Chega a liderar a oposição a partir de agora.
E olhemos para a esquerda do PS. Para o Livre primeiro, até porque conseguiu ser um oásis numa noite negra da esquerda. Teve 4,20% e elege seis deputados, mais dois que em 2024.
E as boas notícias acabam por aí, já que o Bloco de Esquerda e a CDU têm o pior resultado de sempre. O partido de Mariana Mortágua passa a ter apenas um deputado - precisamente a líder -, enquanto a coligação liderada por Paulo Raimundo fica com três. A primeira desce de quatro para um, o segundo desce de quatro para três, sendo que chegou a dizer em direto que ia manter os quatro.
O PAN conseguiu salvar-se, elegendo Inês Sousa Real à pele. E para surpresa de todos, ou talvez não, vamos ter um novo partido. É o Juntos Pelo Povo, eleito na Madeira, que passa a ter Filipe Sousa a representar o partido a nível nacional.