Se fosse preciso "arranjava uma doença para não ir" para o Parlamento: Gustavo, o político que quis ser o último nas listas do PS em Santarém - TVI

Se fosse preciso "arranjava uma doença para não ir" para o Parlamento: Gustavo, o político que quis ser o último nas listas do PS em Santarém

Gustavo Costa

LISTA DOS ÚLTIMOS | Gustavo Gaudêncio da Costa foi presidente da concelhia socialista de Almeirim durante dez anos e, quando lhe telefonaram para integrar as listas para as legislativas de 2022 pelo seu distrito, tinha uma resposta pronta. Aceito, com a condição de ir em último. “Oiça, eu, com 70 anos, reformado, ia-me meter nessa seca de ir para Lisboa por causa de uns tostões?"

“Ou arranjam-me uma coisinha má, ou arranjam-me um divórcio e eu com a minha idade não quero nem uma coisa nem outra.” A ideia da direção do Partido Socialista em Almeirim era de que Gustavo estivesse um bocadinho mais para cima nas listas para as legislativas de 2022. “Vocês não gostam nada de mim”, respondeu-lhes. Assim, quando foi oficializado o convite por telefone, através do presidente da federação distrital do partido, Gustavo respondeu com uma exigência. “Tudo bem, digo-te já que aceito com uma condição única - sou o último da lista. Não tenho interesse nenhum em ir para a Assembleia da República.”

Por causa desse compromisso, quando foi falar com a mulher, que lhe pareceu nervosa com toda a conversa à volta sobre quem do distrito de Santarém poderia vir a ser eleito, conseguiu rapidamente aquietá-la. É que a única forma de ir parar a Lisboa, "para o meio da gritaria, dos nervos e dos insultos", seria se todas as restantes oito personalidades das listas ficassem doentes ou fossem nomeados ministros e secretários de Estado. Mesmo se isso acontecesse, conta, "arranjava uma doença qualquer para não ir”.

Gustavo Gaudêncio da Costa, que foi presidente da Concelhia de Almeirim do PS durante dez anos e atual líder da bancada socialista na Assembleia Municipal, justifica com maior pormenor essa decisão ao sabor de uma sopa da pedra no restaurante O Zézano, um sítio familiar, “dos poucos em Almeirim”, diz, que “dá para evitar as filas à hora de almoço”, coisa que só suporta se for a fila para entrar no Parlamento.

“Oiça, eu, com 70 anos, reformado, com a esposa finalmente em casa comigo, com todo o tempo do mundo para viajarmos, ia-me meter nessa seca de ir para Lisboa por causa de uns tostões? Para quê, por prestígio?... Não preciso disso para nada.”

Nasce, então, a questão sobre a razão para integrar algo cujo objetivo não é de seu agrado. Até porque, como descreve, não se lembra da última vez que tenha ficado em último em nada, nem nas salas de aula ficava sentado nas filas de trás. “Sentava-me sempre no meio. Eu, geralmente, quando vejo que não tenho nem habilidade, nem apetência para as coisas, não me meto nelas.” 

Mas aqui o caso foi diferente e a sua mulher, Celina, com quem é casado há 50 anos, percebeu-o perfeitamente. “Em Almeirim, havia sempre uma consternação por nunca metermos candidatos nas listas. É sempre lá de Santarém, ou de Tomar ou de Abrantes ou de aqui ou de acolá. Depois em Almeirim não tínhamos ninguém.". Por outro lado, como o presidente da Federação de Santarém, o deputado Hugo Costa lhe disse, com os resultados que o PS tem tido naquela região “era merecido e a altura certa” para ter um nome do concelho nas listas.

Os resultados têm sido de “esmagadoras maiorias” nas autárquicas. Nas últimas, de 2021, o PS conseguiu 68,88 % dos votos, seguido do PCP com 9,55% e do PSD com 8,66%. E em 2017 a diferença foi ainda maior, conseguindo o partido 73,16% dos votos. O que resulta na maioria de Almeirim que não resultou na maioria socialista na Assembleia da República? “Se calhar, nós sabemos quem pomos no Governo”, responde, acrescentando que o executivo municipal “sabe escolher os melhores e com provas dadas. "Mas sabe também estar atento para puxar as orelhas quando às vezes há assim ideias mais perigosas.”

Essa “noção de integridade” tem permitido que o concelho não tenha sido alvo de grandes casos de falta de ética na sua classe política nos últimos tempos e isso “ajuda a população a confiar no partido”. Por outro lado, a “oposição é quase inexistente”, e isso ajuda, admite.

Em contrassenso, nos últimos governos, na opinião de Gaudêncio da Costa, multiplicam-se casos de falta de ética e políticos a braços com a justiça por duas razões. Uma “porque as pessoas embebedam-se com o poder”. Outra são sinais de imaturidade, "autênticas cachopices”, diz, dando o exemplo do escândalo Galpgate, o processo das viagens ao Euro 2016 que a Galp pagou a governantes e autarcas. “É cachoupice autêntica. Se fosse comigo, seria inadmissível virem com uma oferta desse tipo, dizia logo, vamos já separar as coisas porque vocês, sabem como é que isto funciona. E se não sabem é porque são cachopos.”

Os partidos, reforça, têm de ser mais rigorosos com quem acolhem. “Têm tanta necessidade de ter gente que acabam por abrigar tudo, não há escrutínio da sua atuação depois de entrarem.” Ou seja, “têm de mostrar de que forma estão na política e ao menor deslize, saem”.

Gustavo Gaudêncio da Costa vinca os sucessivos casos em que João Galamba esteve envolvido durante a sua passagem pelo Governo para ilustrar isso mesmo e diz que às vezes é a intuição que permite distinguir a natureza de quem entra para a política. “Achei, por minha intuição, que o Galamba não era uma boa escolha para ir para o Governo. Não tinha factos, mas achei que não tinha perfil. Da mesma forma como olho para hipotéticos candidatos à Câmara Municipal de Almeirim, olho para eles e percebe-se se têm perfil ou não para exercer um cargo desses. Aconteceu o que aconteceu, não me surpreendeu nada”, reitera.

Formado em Arquitetura, Gustavo foi professor de Educação Visual e Tecnológica e mais tarde acabou por trabalhar por um curto período de tempo numa panificadora propriedade da sua família. Dentro da sua casa, a televisão está quase sempre no canal Mezzo e só a muda para ver um ou outro noticiário. 

A filiação política surgiu durante o verão quente. Já o PS apareceu-lhe através de uma sugestão inesperada. Quando voltou de Angola, onde esteve a combater e onde se casou, e chegou à Chamusca para onde foi viver logo a seguir, decidiu entrar na sede do PSD através de “uma longa escadaria” e enunciar que “perante aquela violência e aquelas bombas tinha muito receio que Portugal voltasse a uma ditadura e queria muito combater isso”. “Nessa sede, quem lá estava e me atendeu disse-me para ir bater à sede do PS porque eles tinham mais força para combater isso.”

Pelo PS ficou o resto da vida onde se cruzou com Mário Soares, com Manuel Alegre, António Reis e onde acabou por conhecer António Costa ainda nos congressos da Juventude Socialista, que “sempre foi uma figura muito conhecida dentro do organismo”.

Já de Pedro Nuno Santos, só lhe conhece o currículo, que compara ao do atual presidente da Câmara Municipal de Almeirim, Pedro Ribeiro. Fazem ambos parte de “um grupo de políticos que gostam de fazer coisas, de arregaçar as mangas e de não ter medo; não são políticos de gabinete”.

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