Uns perderam a caravana, outros ignoraram-na, mas Almerinda saiu à rua para cumprimentar Paulo Raimundo: "O que a gente pede aos políticos é que se preocupem com o estado da saúde e da educação" - TVI

Uns perderam a caravana, outros ignoraram-na, mas Almerinda saiu à rua para cumprimentar Paulo Raimundo: "O que a gente pede aos políticos é que se preocupem com o estado da saúde e da educação"

Na segunda-feira à tarde, o secretário-geral do PCP enfrentou o temporal para falar com a população de Alverca: refizemos esse percurso, da rua Catarina Eufémia à praça João Mantas, para perceber se as palavras de Paulo Raimundo foram bem ou mal recebidas

Estava uma segunda-feira de chuva e vento como há muito não se via, a tarde escureceu cedo, os clientes escasseavam e, por isso, ainda não eram 18:00 quando Maria Emília e Manuel Vila-Flor decidiram fechar a ourivesaria e ir para casa. “Não tenho andado muito bem, estou adoentada”, justifica-se Emília, de 82 anos, uns meses apenas mais nova do que o marido que acabou de completar os 83. “Se eu soubesse…” Ligaram o alarme, puxaram a grade da montra e, nisto, não puderam evitar reparar numa grande movimentação no “largo do pelourinho” - que, na verdade, se chama praça João Mantas - em Alverca, onde há mais de 30 anos está a Ourivesaria Vila-Flor. “Havia aí muita gente e havia um carro da televisão, mas não sabia o que era. Só à noite é que vi nas notícias que o Paulo Raimundo tinha estado aqui à porta. Tenho muita pena de não o ter visto.”

Emília e Manuel são da CDU. “Do PCP”, corrige ele. “Sim, do PCP e da CDU, sempre fomos, temos cartão e tudo”, acrescenta ela. “Já aqui recebemos o Carlos Carvalhas e o Jerónimo de Sousa. Sempre que vêm aí, vêm cumprimentar-nos. Eles e os outros camaradas todos”, explica. “O Bernardino, o Osório, já aqui estiveram todos. Os outros é que não podem entrar”, diz ele, determinado, “quando aparecem na loja corro logo com eles”. E fecha o punho sobre o balcão, num gesto de raiva.

Emília e Manuel já são reformados, mas mantêm a ourivesaria, mais como entretenga do que propriamente como negócio. “É um convívio, as pessoas passam aí e vamos conversando.” Vendem cordões de ouro, pulseiras, brincos, anéis de noivado, salvas de prata com mensagens gravadas, relógios. “Mas as pessoas não têm dinheiro nem para comer, quanto mais…” Emília deixa a frase inacabada. “Isto está tudo muito mau. Por isso é que votamos sempre no PCP, que defende os trabalhadores, como nós. Mas as pessoas parece que não entendem quem está do lado delas e quem não está.” “Somos um povo miserável”, atravessa-se Manuel Vila-Flor. “Andámos a lutar contra os fascistas e agora há cada vez mais fascistas.” “Até de memória somos miseráveis”, conclui Emília.

Foi por muito pouco que Emília e Manuel perderam o discurso que Paulo Raimundo fez no palco montado na pequena praça de Alverca. À hora em que fecharam a loja, estava a “arruada” da CDU a começar a pouco mais de 500 metros dali, na rua Catarina Eufémia. Não foi de propósito, mas é inevitável notar o simbolismo do nome desta rua: Catarina Eufémia foi uma trabalhadora agrícola de Baleizão, morta por um tenente da GNR com três tiros durante uma greve em 1954, e que, desde então, se tornou um símbolo da luta dos trabalhadores do Alentejo. Acompanhado por um grupo de militantes, bandeiras numa mão, guarda-chuvas na outra, o secretário-geral do PCP enfrentou a tempestade e, distribuindo cumprimentos e panfletos, saiu da Catarina Eufémia e percorreu toda a avenida João de Almeida Meleças, alverquence célebre, engenheiro aeronáutico e piloto-aviador que viveu na dobragem do século XX e morreu em 1925, de acordo com a placa ali colocada e que até tem uma fotografia do capitão fardado. 

Rua Catarina Eufémia, Alverca

“Mais CDU, vida melhor”, dizem os cartazes azuis colocados antecipadamente ao longo de todo o percurso. Atraídas pela música e pelas vozes na avenida, Dulce e Almerinda, as duas funcionárias da loja de tecidos Parreira, vieram à porta ver o que se passava. “Ele parou aí a falar comigo”, ri-se Almerinda, que tem 66 anos e há 21 que trabalha naquela que, di-lo com orgulho, é uma das lojas mais antigas de Alverca, com quase 50 anos. “Antigamente, vendíamos sobretudo produtos de decoração, cortinados e tapeçaria, mas depois começámos também a vender produtos de retrosaria e outras coisas”, conta. A loja é enorme, repleta de prateleiras, mas o negócio não vai muito bem. Ressente-se sobretudo da concorrência dos hipermercados e das lojas chinesas, que “têm de tudo, a preços muito baixos”. “A qualidade não é a mesma, mas as pessoas têm pouco dinheiro e preferem comprar barato”, lamenta-se.

Mas não foi disto que Almerinda se queixou a Paulo Raimundo. “O que a gente pede aos políticos é que se preocupem com o estado da saúde e da educação. Que tomem conta do nosso SNS, que ajudem os reformados que não têm dinheiro para os medicamentos e façam alguma coisa pelos jovens que se estão a ir embora porque cá ninguém faz vida”, declara. “E também que se preocupem com a segurança, que está cada vez pior. Ainda há pouco tempo mataram aí um rapaz na via pública. Faz-nos pensar.” E conclui, com algum desalento: “Mas a gente já sabe que eles vêm cá e depois não fazem nada, isto é só para a campanha.”

Foi por isso que Filipe Teixeira, o dono da Alverca Canalizações, nem se deu ao trabalho de ir ver a arruada da CDU. “Eles fazem muitas promessas, mas depois não fazem nada”, declara. Se tivesse de pedir alguma coisa aos políticos que por ali aparecem geralmente antes das eleições, Filipe falava-lhes do trânsito “péssimo”: “Experimente sair de Alverca às 07:00 e voltar às 19:00. É horrível. Mesmo com o combustível tão caro, anda toda a gente de carro, não há alternativas.” Já a mulher, que ouve a conversa enquanto arruma alguns produtos, gostaria que Alverca tivesse “mais espaços verdes e mais atividades para as crianças. Isto é só prédios, só cimento”, desabafa.

Maria Angélica ainda se lembra de quando não era assim. Quando se mudou de Miranda do Douro para Alverca, há quase 50 anos, “não havia quase prédios, havia vivendas e muito campo com oliveiras”, recorda. E havia muitas fábricas. “Quando os trabalhadores saíam das fábricas, às 18:00, parecia uma procissão. Ficava a estrada cheia de gente”, recorda a costureira de 79 anos. Agora, há mais carros e menos emprego; a terra, localizada a cerca de 17 quilómetros de Lisboa, tornou-se quase um dormitório, com muita a gente a rumar à capital todos os dias para trabalhar. Maria Angélica trabalha numa pequena loja de arranjos de costura mesmo em frente ao mercado mas não deu pela passagem de Paulo Raimundo. “O comércio tradicional está todo a desaparecer”, queixa-se. As lojas antigas misturam-se com as novas, os pronto-a-vestir e as sapatarias de antigamente cedem lentamente lugar às lojas de um euro e aos mini-mercados que tanto podem ter produtos asiáticos como anunciar produtos africanos, intervalados com bancos, gabinetes de estética, barbearias e lojas de tatuagens.

Avenida João Meleças, Alverca

“Alverca mudou muito, mas, na verdade, isto continua a ser uma aldeia”, afirma Luís Lúcio António, de 77 anos, dono da resistente loja Barateiros Têxteis-Lar, mesmo ao lado do mercado municipal. Muita coisa mudou desde que começou a trabalhar naquela loja, quando tinha apenas 16 anos, antes se tornar sócio-gerente e depois proprietário único do estabelecimento, mas Luís garante que ainda é uma terra boa para se morar. “Estou aqui há muito tempo, conheço quase toda a gente, muitas gerações. Crianças que vinham aí e agora já têm netos”, conta, com um certo saudosismo. Até mesmo na sua loja, onde o tempo parece ter parado, com prateleiras de madeira que vão até ao teto e gavetas cheias de botões de todas as maneiras e feitios, houve coisas que mudaram: “Muitos tecidos já não há. Se se quiser um terylene ou uma popeline de boa qualidade já não se arranja. Hoje em dia é quase tudo feito em poliéster”. 

Na segunda-feira à tarde, quando Paulo Raimundo passou a poucos metros da loja, Luís António não foi falar com ele. Deixou-se ficar, a ouvir os boleros e as rumbas na aparelhagem, acompanhado pela sua cadelinha Vitória, observando a comitiva de longe. “Não gosto de falar de partidos, mas digo-lhe isto: a primavera só existe em março e Deus queira que em março ainda tenhamos abril. Eu ainda levei pancada, quando era novo e, como todos os jovens, lutava pelos meus ideais. E neste momento estou com medo do que aí vem, há muitos políticos que dizem o que o povo gosta de ouvir, se é que me entende."

Já Ana Dionísio não teve como escapar. Estava sentada no seu banco, atrás do balcão, escondida pelos vasos de flores exuberantes, quando a chamaram para vir à porta. “Venha, venha, não quer falar com o Paulo Raimundo?” Ana, a quem desde pequena todos chamam Tita (vem daí o nome da loja, o Bazar da Tita), correu para a porta e foi apanhada de surpresa. “Ele perguntou-me: como é que vai o negócio? E eu respondi aquela expressão muito portuguesa: vai devagarinho”, conta, meio envergonhada. “Felizmente não puseram isso na televisão, apareceu a minha cara, mas cortaram as palavras.” O negócio vai devagarinho que em tempo de vacas magras as pessoas só gastam dinheiro com o essencial e não com flores. “Mas isso toda a gente já sabe, não era isso que devia ter dito.” Da próxima vez que lhe aparecer um político à porta, Ana já vai estar preparada: “O que eu queria era pedir aos políticos que trabalhassem para o bem do país e se deixassem de falcatruas. Nós queremos é políticos honestos e que levem o país para a frente.” Fica o recado dado.

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