António José Seguro podia ir dormir já este domingo ao Palácio de Belém. Não o faz porque não pode - formalmente só toma posse em março -, ou talvez até porque vai continuar a viver nas Caldas da Rainha, de onde só sairá quando se justificar, como o próprio já assumiu. Mas em tudo o resto podia, porque o discurso de vitória foi mais do que isso. Foi de alguém que está já pronto para ser Presidente da República, de alguém que aproveitou a maior vitória de sempre numas presidenciais para começar a exercer pressão imediata ao Governo - “não há desculpas”, avisou.
No discurso de vitória, António José Seguro fez questão de deixar a primeira palavra às pessoas afetadas pelo comboio de tempestades que trouxe Kristin primeiro, Leonardo depois e Marta mais recentemente, provocando 15 mortes e milhares de milhões de euros em prejuízos que ainda estão a ser contados. A primeira palavra do eleito foi para eles.
Eles, os habitantes de cerca de 70 concelhos, cerca de 1,5 milhões de eleitores, os mesmos que foram a justificação de André Ventura para pedir o adiamento nacional das eleições, mesmo que isso não pudesse ser decretado por ninguém. No discurso que fez, o candidato apoiado pelo Chega acabou por não fazer qualquer referência direta de pesar pelas vítimas da tempestade . foi um discurso em que assumiu a derrota óbvia, mas no qual também se proclamou como líder da direita portuguesa, coisa que é menos óbvia. E já passaremos a explicar o porquê de ambas as coisas.
Seguro, o maior de sempre
António José Seguro conseguiu sozinho o que a esquerda queria mas não tem tido, enquanto André Ventura viu provar-se que sozinho ainda não chega para alcançar o que quer, mesmo que o tenha reclamado no discurso em que assumiu a derrota.
O candidato apoiado pelo PS será, mesmo que a contragosto de alguns dentro do seu partido - lembremo-nos de Augusto Santos Silva -, o próximo Presidente da República, alcançando uma vitória que se escreve com muita história.
E isso faz-se com um mapa pintado de cor de rosa - um rosa num tom mais pessoal que partidário -, mesmo que dois concelhos tenham resistido a isso e tenham mantido a cor azul de Ventura. Uma história para ver mais à frente neste texto com a ajuda de uma das ferramentas da noite eleitoral, o Comparómetro da CNN Portugal.
Com quase 3.482.481 votos, António José Seguro é agora o Presidente da República eleito com a maior votação de sempre, superando a votação alcançada por Mário Soares - cujos filho e neto estavam na sede de campanha do candidato eleito - em 1991, 3.459.521 votos.
É também o Presidente da República eleito com melhor resultado no primeiro mandato, ficando à frente de todos os seus antecessores, incluindo Marcelo Rebelo de Sousa.
Mas depois vem o Diabo, que, para não despeitar quem gosta de adágios populares ou para não dar razão a quem os abomina, está mesmo nos detalhes. A maior vitória de sempre faz-se numa lógica em que há muitos mais eleitores inscritos.
Desta vez estavam inscritos 11.039.672 votantes, bem mais que os 8.202.812 que podiam votar em 1991. Além disso, António José Seguro não vai chegar ao limiar dos 70%, ficando certamente aquém dos 70,35% obtidos por Mário Soares no ano da sua reeleição.
De referir que ficam a faltar contar os votos de 20 freguesias, sendo que todas elas votarão apenas a 15 de fevereiro, depois de ter sido pedido o adiamento do sufrágio por causa do mau tempo.
Um homem maior que a esquerda
Nem era preciso ninguém dizer, já que o próprio António José Seguro fez questão de o frisar: “Sou livre e vivo sem amarras”, afirmou a partir das Caldas da Rainha no discurso de vitória, perante uma plateia que já não tinha o secretário-geral do PS a assistir - sim, José Luís Carneiro decidiu sair antes.
"Reafirmo a natureza independente da minha ação, tratando por igual todos os partidos políticos e todos os parceiros sociais", garantiu, afastando a sua vitória de qualquer ligação ao PS.
Desde o início que António José Seguro apareceu como um suprapartidário. Fosse porque ninguém no PS parecia realmente acreditar no seu desígnio, fosse porque o próprio se afastou do partido após a colossal derrota nas primárias com António Costa, o antigo secretário-geral socialista sempre se afirmou como um independente, resistindo até em afirmar-se como alguém de esquerda, numa célebre entrevista ao Público.
Mas com o próprio a admitir que pende mais para a esquerda, é justo que se lhe reconheça a maior vitória daquele quadrante desde que António Costa saiu, em 2023. E se não passaram muitos anos, passaram muitas oportunidades e muitas (e grandes) derrotas.
Desde logo as legislativas, que a Aliança Democrática (AD) ganhou em 2024 e em 2025. Primeiro ainda com uma vitória tangencial, mas depois já com uma vantagem clara para o PS, que viu até escapar a liderança da oposição para o Chega. Mais à frente o PS ainda haveria de perder as eleições autárquicas, confirmando que Portugal estava totalmente laranja, como há muito não se via.
Com a vitória que roça uma percentagem de dois terços dos votos, António José Seguro afirma-se, assim, com uma vitória mais pessoal que partidária ou ideológica. Foi o que disse Miguel Relvas ainda na primeira reação às projeções, que já davam uma vitória clara ao candidato apoiado pelo PS.
“António José Seguro conseguiu um resultado pessoalmente: é preciso não esquecer que o PS, que era a sua base inicial, fez um mau resultado há um ano. Ele faz 31% há 15 dias e agora mais do que duplica esse resultado”, referiu o comentador da CNN Portugal, antecipando “um grande problema” para o candidato eleito, que não conseguirá representar toda a sua base eleitoral.
Sérgio Sousa Pinto, reconhecido rosto do PS e apoiante de primeira linha de António José Seguro, admitiu isso mesmo, aproveitando a análise para também dar uma bicada no Chega.
É que a esquerda não vale tudo o que vale António José Seguro depois desta noite, mas o Chega também não é líder da direita. “António José Seguro teve, certamente, os votos do centro-direita e da direita democrática”, frisou, em declarações no Jornal Nacional da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal).
Ganhar perdendo
Todas as sondagens apontavam para uma vitória de António José Seguro, pelo que a corrida de André Ventura já não seria bem pela eleição para Presidente da República.
Seria antes de tudo uma corrida consigo próprio, e essa ganhou, já que teve mais votos que na primeira volta, em absoluto e em percentagem, mas também conseguiu uma vantagem substancialmente maior em relação ao resultado do Chega nas últimas eleições legislativas.
Se quisermos pôr as coisas a seco, é simples: André Ventura conseguiu convencer mais de 300 mil eleitores que não tinham votado no Chega. É essa a diferença relativamente às legislativas de maio passado.

Uma votação brutal que, apesar de tudo, não chegou para o outro objetivo da noite, que passava por ter uma votação superior à da AD em 2025. Faltando ainda alguns consulados e 20 freguesias por apurar, o candidato apoiado pelo Chega deverá ficar sensivelmente a 200 mil votos dos que a coligação liderada por Luís Montenegro conseguiu nas últimas legislativas.
Mais uma vez, o Diabo aparece também aqui. É que André Ventura não superou em votação, mas superou em percentagem, já que ter mais de 33% dá-lhe uma diferença segura para os 31,79% obtidos pela AD em 2025.
Em todo o caso, e mesmo que o presidente do Chega entenda de forma diferente, os resultados mostram que há muita direita que prefere votar diferente. Não é apenas pelo que acham Miguel Relvas ou Sérgio Sousa Pinto, é mesmo pelo Comparómetro da CNN Portugal.
Só isso explica a vitória praticamente total de António José Seguro, que só não venceu nos concelhos de Elvas e São Vicente (Madeira). Em todos os outros 306 municípios portugueses, o candidato apoiado pelo PS ganhou, o que significa que André Ventura perdeu 78 autarquias relativamente à primeira volta.
De resto, o número é ainda mais claro nas freguesias: António José Seguro ganhou 1.041 em relação à primeira volta, enquanto André Ventura perdeu 913.
Embora visivelmente abatido por um resultado que ficou aquém das expectativas, André Ventura também mostrou estar verdadeiramente apostado naquilo que nunca escondeu ser o seu verdadeiro objetivo: "Vamos governar Portugal", acabaria por dizer, apontando já à vitória numas eleições legislativas, aconteçam elas quando acontecerem. E tudo isto num dia de eleições presidenciais.
Onde foram parar Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes
E as contas abaixo explicam-se, em grande parte, pela transferência de voto.
Os mais de 900 mil eleitores de João Cotrim de Figueiredo na primeira volta estarão, certamente, à direita do espectro político. E a verdade é que se todos tivessem votado André Ventura, então o candidato apoiado pelo Chega teria mesmo superado os dois milhões de votos. Em concreto teria ficado até perto dos três milhões.
Mas não aconteceu isso, nem de perto. Como não aconteceu com os mais de 630 mil votos que vinham de Luís Marques Mendes.
Veja-se os casos das seguintes freguesias: União das freguesias de Cascais e Estoril, Belém, Estrela e Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde. A primeira do concelho de Cascais, a segunda e a terceira de Lisboa e a quarta do Porto, todas com vitória de João Cotrim de Figueiredo na primeira volta, todas a virar para António José Seguro este domingo.
Ao todo, oito freguesias que tinham dado a vitória ao candidato apoiado pela Iniciativa Liberal na primeira volta decidiram virar à esquerda, passando para o candidato apoiado pelo PS.
A dimensão é ainda maior em termos absolutos no caso de Luís Marques Mendes. Teve muito menos votos que João Cotrim de Figueiredo, mas ganhou muito mais freguesias. Em concreto, ganhou 149, o mesmo número que nesta segunda volta mudou o sentido de voto para António José Seguro.
Uma calamidade para Ventura
E se foi André Ventura a defender o adiamento das eleições a nível nacional com base na situação de calamidade que grande parte do país ainda atravessa, a população desses concelhos respondeu de forma cabal.
Não só foram votar - a taxa de abstenção andará pelos 43%, faltando contar os votos em algumas freguesias, nomeadamente no concelho de Leiria -, como decidiram que esse voto era para António José Seguro.
Dos 76 concelhos que António José Seguro ganhou a André Ventura, 16 estão em situação de calamidade até dia 15 de fevereiro. Faltando saber apenas os resultados de Alcácer do Sal e Golegã, que votam apenas no próximo domingo, todas estas autarquias optaram pelo candidato apoiado pelo PS.
Tantos brancos é uma nulidade
A tracking poll da CNN Portugal tinha antecipado e um artigo publicado no início da semana que agora acaba também avisava para isso: estas eleições presidenciais devem bater o recorde de votos brancos e nulos. Faltando contar ainda as 20 freguesias que votam apenas no próximo domingo, a diferença para o recorde é de pouco mais de seis mil votos.
O recorde atual vem de 2011, ano em que Aníbal Cavaco Silva foi reeleito Presidente da República. Na altura votaram 191.284 pessoas em branco e 86.581 votaram nulo, o que resulta num total de 277.865. Desta vez foram, até ao momento, 172.799 votos brancos e 97.174 votos nulos, num total de 277.865. O recorde de nulos já foi batido, portanto, mas é provável que, todas as contas feitas, o recorde total seja também ultrapassado.
De referir, no entanto, que a ultrapassagem é apenas em votos absolutos, e não em percentagem. Nesse ano de 2011 houve 6,19% de votos brancos e nulos, bem acima dos 5% que se verificam atualmente.
Como também já tinha sido antecipado na tracking poll da CNN Portugal, grande parte destes votos vêm de João Cotrim de Figueiredo. É que os locais onde houve mais votos brancos ou nulos são aqueles em que o candidato liberal teve maior expressão. Veja-se os casos das freguesias de Belém (Lisboa) ou de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde (Porto), que tiveram 6,76% e 7,31%, respetivamente.
Em todo o caso, seria número para deixar José Saramago a pensar noutro "Ensaio sobre a Lucidez".