Porque há empresas que não conseguem contratar? Não é só pelos salários - TVI

Porque há empresas que não conseguem contratar? Não é só pelos salários

  • Filipe Maria
  • 21 mai 2023, 08:00
Trabalhadores

Portugal é dos países no mundo onde há mais empresas a dizer que têm dificuldade em preencher vagas, mas existem profissões que, apesar da procura, tendem a oferecer salários mais baixos. Esta é uma das razões pela falta de trabalhadores em certas áreas. Descubra aqui quais as profissões a evitar

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O número de empregos que ninguém quer tem estado em crescimento e nos últimos três meses de 2022 superou mesmo os 61 mil. Estes trabalhos estão principalmente nas regiões Norte e na Área Metropolitana de Lisboa e abrangem sobretudo vendedores, informáticos e técnicos de call center.

As empresas abrem as vagas, mas não encontram candidatos e um dos principais motivos são os baixos salários, embora este não seja o único fator em jogo. Setores como a construção e a hotelaria já contratam mão-de-obra estrangeira para compensar estas carências. No entanto, há quem defenda que esta possa não ser uma decisão estratégica a longo prazo.

Porque ficam as vagas por preencher?

Na origem do problema estão várias questões, desde a concorrência a nível global à falta de disponibilidade dos trabalhadores em assumir certos horários ou a fazer deslocações. Contudo, também pode haver um desencontro no que toca ao salário, que “não é, muitas vezes, suficientemente atrativo” para atrair os candidatos, explica Marco Arroz, national senior manager de executive search na Multipessoal.

Portugal é mesmo o quarto país no mundo onde as empresas revelam mais dificuldades em contratar, com 84% dos empregadores a reconhecer dificuldades em preencher vagas, segundo o estudo Talent Shortage do ManpowerGroup. Mas, ainda assim, 63% dos profissionais estão dispostos a aceitar uma contraproposta do seu empregador atual, garante o Guia Hays 2023.

“Estamos perante um mercado liderado pelo candidato e onde este tem um poder de negociação cada vez maior”, explica João Fonseca, manager na área de engenharia na Hays, que descreve o candidato como mais seletivo, mais exigente no que toca a condições e benefícios e mais resistente à mudança de emprego.

No que toca às áreas de vendas, Tecnologias de Informação (TI) ou Call Center, os motivos para a falta de trabalhadores diferem entre si. Algumas empresas não têm recursos para oferecer salários compatíveis com o mercado, garante Marco Arroz. Por outro lado, ambientes de trabalho com elevada pressão, necessidade de resiliência e capacidade de gestão do stress, como são os call centers, poderão contribuir para o afastamento dos trabalhadores, explica.

Nas vendas, por sua vez, o rigor em relação aos objetivos bem como a disponibilidade e gestão de clientes, cada vez mais exigentes e informados, requer um conjunto de hard e soft skills com as quais muitos não querem vivenciar, refere o manager na Hays. Pedro Amorim, managing director da Experis, também explica que conceitos como e-commerce, email marketing, CRM e geração de leads já estão no dia-a-dia da área comercial. Neste sentido, não basta ter um perfil social e comercial, é preciso ter competências digitais, não havendo pessoas no mercado preparadas para estas vagas no setor de vendas.

Já o problema na área das TI é a falta de capacidade de resposta do mercado, aponta Pedro Amorim, justificando-se com dados do Fórum Económico Mundial. Segundo estes números, até 2025 vão surgir 149 milhões de novos postos de trabalho em áreas digitais, como Privacidade, Cibersegurança, Análise de Dados, Machine Learning e Inteligência Artificial (AI), Cloud, Data e Desenvolvimento de Software.

No entanto, no que toca aos contact centers, Amorim destaca que este é um setor em forte desenvolvimento, com um crescimento próximo dos 10% ao ano, segundo a Associação Portuguesa de Contact Centers (APCC). Dado que cada vez mais empresas instalam os seus centros de atendimento em Portugal, estes criam emprego com necessidades de competências linguísticas, o que agrava a dificuldade no preenchimento de vagas.

Que funções têm maior procura e salários mais altos e o seu oposto?

Pedro Amorim começa por explicar que as profissões com maior procura e salários mais altos são aquelas associadas a um nível elevado de especialização nas competências, bem como experiência e senioridade. Do lado oposto, as profissões com salários mais baixos são as que, apesar da procura elevada, são menos diferenciadas e exigem menos qualificações.

No grupo das profissões mais procuradas e mais bem remuneradas, as recrutadoras destacam as funções de direção geral de engenharia, direção geral de compras ou direção de logística, ou ainda profissões na tecnologia, como Data engineer/Data analyst, Head of Cyber Security, Cyber Security Specialist, Software Engineer, Machine Learning Specialist, DevOps e Developers.

Ainda no grupo das profissões com elevada procura e salários mais altos, encontramos funções associadas à manutenção industrial, da automação, da qualidade e da produção, mas ainda a função de chef de cozinha, na hotelaria. Na construção destacam-se também os diretores e preparadores de obra e os orçamentistas, enquanto na área financeira, encontramos funções de controlling, contabilidade e direção financeira, áreas estas de perfil especializado.

Do lado oposto da tabela, encontramos empregos com salários tendencialmente mais baixos, dada a falta de especialização necessária, sendo caracterizados pela elevada procura e rotatividade. Neste grupo podemos encontrar os empregados de mesa ou de cozinha na hotelaria, os trabalhadores não especializados na construção, operadores fabris e de máquinas e equipamentos, ou ainda outras funções mais técnicas em setores como logística e indústria.

Importar mão de obra estrangeira é uma solução viável?

Para Pedro Amorim, não há dúvidas que a importação de mão de obra estrangeira é uma solução ao alcance da maioria dos setores. No entanto, o desafio está na redução da burocracia e na oficialização desta captação de pessoas. “Temos de assegurar que são dadas as condições adequadas aos profissionais que se deslocarem para Portugal”, sublinha alertando que esta é uma situação urgente, pois já existem setores a sentir limitações no seu crescimento devido à falta de talento.

Marco Arroz, do seu lado, refere que estratégias como a aceleração de vistos têm servido para resolver questões no curto prazo e setores como a agricultura, construção ou hotelaria já assumem a liderança nesta aposta, sem a qual a continuidade do negócio seria difícil.

No entanto, o manager na Multipessoal defende que deve haver em paralelo um planeamento para a reconversão de trabalhadores nacionais, desempregados ou não, bem como uma aposta em programas de formação e requalificação profissional. Já João Fonseca, da Hays, refere que a importação de mão de obra estrangeira poderá não ser a solução mais estratégica a longo prazo, pois uma fatia grande deste grupo não é qualificada, pelo que não trará um retorno significativo à economia.

Fonseca alerta ainda para os elevados impostos, que tiram a competitividade a Portugal em relação aos outros mercados. Como consequência, Fonseca defende haver inúmeros exemplos de trabalhadores da construção, vindos de outros continentes, que utilizam o país como mera porta de entrada para mercados como Espanha, França, Alemanha e Reino Unido.

“O problema tende claramente a agravar-se”, sustém o manager na Hays, não só por certas áreas já não serem atrativas, mas também pela crescente emigração em Portugal durante os últimos 15 anos. “Ao invés de pensarmos em importar mão de obra estrangeira, não deveríamos começar pela base e focarmo-nos, primeiramente, em adotar estratégicas e incentivos para que os jovens permaneçam em Portugal, atraindo mais investimento estrangeiro?”, conclui.

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