Sesta no local de trabalho: tabu ou uma questão de bem-estar? - TVI

Sesta no local de trabalho: tabu ou uma questão de bem-estar?

  • Filipe Maria
  • 7 mai 2023, 12:00
Sesta (CNN)

A prática não é recorrente em Portugal, variando consoante a empresa e as funções em questão. A ciência diz que os benefícios são claros, mas existe também o risco de se entrar num círculo vicioso

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Empresas e trabalhadores cada vez mais se debatem sobre as condições de trabalho, estando sob a mesa temas como pacotes salariais, benefícios, entre outros. Um dos objetivos passa pela promoção de um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, mas as formas de o conseguir diferem entre si.

Tendências como o quiet e o loud quitting, bare minimum mondays, job hopping, entre outras, visam sobretudo a forma como o trabalhador lida com o trabalho, mas também já surgem discussões em torno das condições de trabalho, nomeadamente, a relação dos trabalhadores com o sono.

O assunto ganha importância principalmente por um motivo: esta é uma questão que pode afetar diretamente o bem-estar e a produtividade dos trabalhadores. Como tal, é cada vez mais estudada a associação entre o sono e outros problemas psicossociais. A sesta no local de trabalho ainda não é uma prática recorrente em Portugal, embora seja uma solução adotada por algumas empresas noutros países. No Japão, por exemplo, chamam-lhe inemuri e é visto como uma forma do trabalhador repousar sem abandonar totalmente o que está a fazer.

Quais os benefícios?

Entre os vários benefícios, a diretora de qualidade e auditoria da Multipessoal, Raquel Ramalho, destaca a melhoria da criatividade, memória e humor, mas também da tolerância à frustração e do controlo da impulsividade. Além destes benefícios, a recrutadora sublinha ainda a redução dos acidentes de trabalho, pois, "se estamos mais alerta e mais concentrados, reduzimos os riscos associados às nossas tarefas", refere.

É através do sono que o cérebro consolida a informação. Contudo, existem também algumas desvantagens associadas à sesta, nomeadamente o facto desta poder resultar em “moleza” e o aumento do próprio sono, resultando num menor nível de concentração, continua Raquel Ramalho.

Ainda assim, os especialistas defendem que estas desvantagens podem ser combatidas através de um ajuste do tempo da sesta. De modo a alcançar os efeitos positivos mencionados, não é aconselhada uma sesta longa, já que, “ao se dormir demasiado tempo, atinge-se o sono profundo", algo que pode criar mal-estar ao acordar.

Mário Rocha, senior manager na Hays, refere igualmente a existência de vários estudos que relacionam o descanso no local de trabalho com o aumento da produtividade e, por consequência, do sucesso no desempenho das funções. Em paralelo, o senior manager também menciona fatores como um maior nível de energia e maior desenvolvimento do raciocínio.

No entanto, a Hays diz que a falta de adesão das pessoas a esta medida, seja por falta de hábito a nível pessoal ou cultural, pode ser um obstáculo, mas também pode acontecer a medida não alcançar os resultados desejados. Se o resultado for o oposto dos objetivos iniciais, aí as empresas terão de voltar atrás numa medida que promoveram como contribuindo para o bem-estar das equipas, explica. Embora a prática não seja muito comum em Portugal, nos EUA, por exemplo, esta é uma prática comum em empresas como a Google ou a Nike, acrescenta Mário Rocha.

Uma solução que nem sempre é possível

Para o responsável da Hays, a adoção desta prática varia de empresa para empresa, em função das suas políticas internas, mas para a Multipessoal também pode haver constrangimentos consoante o setor em causa. “Claramente os setores que necessitam de jornadas contínuas, e sem grande possibilidade de desfoque nas tarefas, poderão estar menos acessíveis à implementação desta ferramenta”, destaca Raquel Ramalho.

Já os setores que implicam um trabalho mais individualizado e com disponibilidade total durante o horário de trabalho, necessitarão de uma maior análise e adaptação desta ferramenta. Ainda assim, continua a responsável da Multipessoal, deve ser revista a carga de trabalho, bem como o horário, de forma que se possa implementar a sesta no quotidiano, tendo em conta os seus benefícios.

Que alternativas estão disponíveis?

Mário Rocha salienta que existem alternativas à sesta para a promoção do bem-estar e da produtividade, entre as quais fazer várias pausas ao longo do dia ou sair do escritório à hora de almoço para apanhar ar. Adicionalmente, também é possível planear as tarefas do dia para evitar picos de stress ou sobrelotação de tarefas, bem como delegar funções quando possível.

Já Raquel Ramalho salienta soluções como o regime híbrido de trabalho, totalmente remoto, ou apenas a possibilidade de flexibilizar o horário. Ao garantir mais flexibilidade, a empresa está a promover a possibilidade de adaptar o horário de trabalho e pessoal às circunstâncias individuais. Deste modo, está a contribuir para uma maior conciliação entre a vida profissional e familiar, o que resulta numa redução do stress, bem como num maior bem-estar.

Por outro lado, também existe a possibilidade de promover e implementar outros programas de saúde e bem-estar enquanto parte da solução. Este tipo de programas contribuem para a redução do absentismo e melhoria da produtividade através do aumento da motivação dos colaboradores, do seu compromisso e envolvimento, sendo ainda um contributo para a melhoria dos resultados, destaca a responsável da Multipessoal.

Como fazer a sesta de forma eficiente?

Segundo uma publicação da faculdade de Medicina de Harvard, alguns estudos apontam que a necessidade de dormir durante o dia pode ser um sinal em como não se está a dormir horas suficientes durante a noite, algo que está igualmente associado a um maior risco de desenvolvimento de doenças crónicas. Em alternativa, a sonolência ao longo do dia também pode apontar na direção de um sono de fraca qualidade.

Em alguns casos, a sesta pode estabelecer um círculo vicioso onde se dorme durante o dia para compensar as horas em branco durante a noite, o que vai provocar uma maior dificuldade em adormecer na noite seguinte.

De modo a evitar este efeito, a universidade norte-americana recomenda fazer a sesta no início da tarde, quando existe uma quebra natural de energia, bem como a manter a sua duração breve, em torno dos 20 minutos. Adicionalmente, o melhor será fazer a sesta num local sossegado e avaliar a qualidade e duração do seu sono durante a noite. Se uma pessoa já dorme habitualmente 7 ou mais horas durante a noite e continua com sonolência durante o dia, o ideal será falar com um médico.

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