Tensão no Mar Vermelho: empresas portuguesas preocupadas e com receio de serem forçadas a subir preços - TVI

Tensão no Mar Vermelho: empresas portuguesas preocupadas e com receio de serem forçadas a subir preços

  • Agência Lusa
  • 31 jan, 08:00
Covid-19 no trabalho (AP)

Tensão entre Houthis, EUA e Reino Unido ameaça têxtil e automóvel mas pode ser oportunidade para calçado

A Associação Empresarial de Portugal (AEP) reporta “uma forte preocupação” das empresas face à crise no Mar Vermelho, admitindo subidas de preços devido ao “aumento exponencial” do valor dos fretes, enquanto a CIP diz que as próximas semanas “serão decisivas”.

“O momento é muito delicado, porque as margens têm vindo a apertar-se cada vez mais na tentativa de responder aos problemas que se sucedem. As próximas semanas serão decisivas para percebermos a profundidade dos impactos”, afirmou o diretor-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, Rafael Alves Rocha, numa resposta escrita enviada à agência Lusa.

Já o presidente do Conselho de Administração da AEP avisa que “o aumento exponencial do preço dos fretes no transporte marítimo não deixará de ser refletido no preço final dos bens, pois a maioria das empresas não terá margem que lhes permita absorver tais acréscimos”.

“Além deste aumento transversal previsível, não podemos avançar com casos concretos, mas serão essencialmente produtos provenientes da Ásia ou do Médio Oriente”, detalha Luís Miguel Ribeiro.

O dirigente associativo refere que, desde o início das tensões no Mar Vermelho, “a AEP tem testemunhado uma forte preocupação junto das empresas suas associadas”, notando que, “para além dos receios na redução das encomendas, os empresários enfrentam já uma subida dos custos operacionais, numa altura em que, simultaneamente, continuam a defrontar um patamar elevado nos custos de financiamento”.

“A subida do custo do transporte, o atraso da entrega das encomendas e a disrupção das cadeias de valor globais são fatores que acabam por se refletir nos preços dos consumidores finais”, enfatiza.

Luís Miguel Ribeiro acredita que, “no curto prazo”, não haverá falhas de abastecimento, até porque “as companhias de transporte marítimo têm vindo a optar, maioritariamente, por uma alteração das rotas e não por um cancelamento”: “Apesar do aumento dos custos das matérias-primas e do tempo de entrega, os produtos deverão continuar a chegar, embora com preços mais elevados”, sustenta.

Ainda assim, o líder da AEP lembra que “já foram emitidos alertas para a dificuldade de fornecimento de produtos energéticos, nomeadamente gás natural”, o que evidencia a possibilidade de ruturas das cadeias de abastecimento caso o conflito alastre.

“A concretizar-se um cenário de intensificação das tensões geopolíticas, a possibilidade de um risco sistémico não deve ser afastado, o que potencialmente afetará toda a economia”, admite.

Os setores com uma maior intensidade exportadora são apontados como os mais vulneráveis aos efeitos do conflito, “não só afetados pelos aumentos de preços, mas também por possíveis perdas de encomendas”, o que a AEP considera ser “muito preocupante, pois estes setores são, regra geral, os maiores contribuidores para a produtividade e o emprego no país”.

Como exemplos, a associação aponta a indústria automóvel, que “denota já algumas dificuldades”, com “diversas marcas a optar por parar a sua produção a nível europeu”, assim como o têxtil, “já condicionado pela diminuição das suas exportações, face à contenção da procura externa, fruto da conjuntura económica desfavorável sentida na Europa, e com margens de negócio de magnitude insuficiente para absorver o aumento dos preços de transporte sem os refletir no consumidor final”.

“Deve ter-se ainda atenção aos setores mais dependentes da Ásia e Médio Oriente e com menor flexibilidade de ‘stocks’, que serão naturalmente afetados, possibilitando uma eventual escassez ou uma subida abrupta dos preços”, acrescenta.

Para a CIP, os dois grandes potenciais impactos da crise no Mar Vermelho passam por, “por um lado, impulsionar a inflação, e, por outro, dificultar ainda mais a necessária recuperação económica da União Europeia e também de Portugal”.

“As famílias e as empresas estão muito pressionadas pela taxas de juro e este novo contexto pode atrasar o início do ciclo de descida, o que manterá o rendimento disponível das famílias sob pressão máxima e, por conseguinte, a economia refém desta incerteza”, afirma Rafael Alves Rocha.

Crise no Mar Vermelho ameaça têxtil e automóvel mas pode ser oportunidade para calçado

As tensões no Mar Vermelho estão a atrasar as entregas em áreas como a eletrónica informática, têxtil e automóvel e a encarecer os custos do transporte para Portugal, mas setores como o calçado encaram esta crise como uma oportunidade.

Em declarações à agência Lusa, o diretor-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) descarta, nesta altura, problemas de escassez de produtos, quer no retalho alimentar, quer especializado.

Gonçalo Lobo Xavier reporta, contudo, um atraso médio de duas semanas nas entregas em algumas categorias de produtos e componentes, “essencialmente ligados à eletrónica de consumo e informática e têxtil/moda”.

No setor alimentar, refere atrasos na chegada de “algum peixe congelado”, mas diz que “já está a ser substituído, na maioria dos casos, por outros fornecedores e com outras rotas”.

Já sentido por “toda a cadeia de valor” é, segundo o diretor-geral da APED, o aumento dos custos dos fretes de transporte e o encarecimento em “cerca de 20 a 30%” dos contentores a nível mundial. Adicionalmente, também os custos dos seguros de transporte que passam naquela rota “estão a aumentar significativamente”.

“Tem havido uma procura por rotas alternativas, mais lentas e mais caras, que terão necessariamente impacto nos preços dos produtos”, afirma Gonçalo Lobo Xavier, prevendo que “este impacto, se a situação se mantiver, irá sentir-se mais, seguramente, dentro de três/quatro semanas”.

A sofrer os efeitos dos constrangimentos logísticos no Mar Vermelho estão também setores como o automóvel e o têxtil/vestuário, com o primeiro a apontar uma diminuição das encomendas dos construtores internacionais, nomeadamente na Alemanha, e o segundo a reportar atrasos nas entregas de “matérias-primas essenciais à produção” (como fios, linhas, telas, malhas, substâncias químicas e acessórios), pondo “em causa o tempo de resposta” daquela indústria.

“A informação que temos dos nossos clientes – que são construtores ou produtores de primeira linha para os construtores - é que há um processo de diminuição da atividade para gerir os fluxos de logística e, nalguns casos, sabemos que poderá haver já planos para diminuir a atividade, com a supressão de um turno, o que terá um efeito na indústria portuguesa”, afirmou à Lusa o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA).

Segundo José Couto, “na Alemanha houve alguns construtores [automóveis] que abrandaram, muito mesmo, e houve algumas fábricas que tiveram paragens estratégicas”.

“Em Portugal, pelo menos os nossos associados ainda não sentiram a necessidade de parar completamente, mas diminuíram bastante a atividade”, disse, salientando que a rota do Mar Vermelho “é muito importante para o setor automóvel” europeu, que “não tem o hábito de fazer grandes ‘stocks’, tudo o que produz é entregue na linha do cliente um dia ou dois depois”.

Já a diretora executiva da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) destaca que, “numa indústria tão competitiva e global” quanto a deste setor, “aumentos de preços têm sempre impacto negativo e perda de competitividade”.

E se,”para já, os aumentos de preços estão sobretudo relacionados com o aumento do custo dos transportes nestas rotas”, Ana Dinis antecipa que “a escassez na oferta de algumas matérias-primas no mercado (derivada dos atrasos nas entregas) naturalmente fará o preço destes artigos subir ainda mais – mesmo procurando encontrar fornecedores alternativos ou matérias-primas alternativas”.

“A verdade é que existem muitas dependências, como vimos no passado recente, que não fáceis de substituir rapidamente”, admite, referindo que “as empresas têm estado a tentar gerir a situação, atrasando encomendas e gerindo as entregas de encomendas mais urgentes, mas, a continuar o problema, as consequências poderão ser mais danosas”.

Em contraciclo parece estar a indústria portuguesa do calçado, que, colhendo os louros da lógica de ‘cluster’ que assume como um dos seus “grandes argumentos competitivos”, continua a conseguir “responder rapidamente às solicitações de mercado”.

“A crise do Mar Vermelho pode até ser uma oportunidade para os produtores europeus como Portugal”, afirmou à agência Lusa o diretor de comunicação da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), enfatizando que “existem em Portugal fornecedores muito capazes de solas, de outros componentes e de curtumes e isso permite que os clientes internacionais olhem para Portugal como um parceiro de negócios privilegiado”.

Apontando a quota “próxima dos 90%” da Ásia na produção mundial de calçado, Paulo Gonçalves considera que “alguns episódios como este no Mar Vermelho, ainda que infelizes na sua essência, podem contribuir para uma nova ordem mundial e para que os clientes percebam que devem diversificar a sua gama de fornecedores”.

Continue a ler esta notícia