Entrevista a Karembeu: «A qualidade dos portugueses está-lhes no sangue» - TVI

Entrevista a Karembeu: «A qualidade dos portugueses está-lhes no sangue»

Chistian Karembeu (Associated Press)

Christian Karembeu esteve no Soccerex e falou com o Maisfutebol, com especial foco para o «seu» Olympiacos, sim, mas também um olhar para a questão do racismo e do futuro dos jogadores quando se retiram

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Christian Karembeu foi um dos mais de 60 oradores que passaram pelo Soccerex entre quinta e sexta-feira, fórum no qual se debatem muitos temas da indústria do futebol e que se realizou pela primeira vez este ano em Portugal, mais concretamente em Oeiras.

Aproveitando uma pausa de breves instantes no rebuliço que este tipo de eventos acarreta, o antigo campeão do Mundo pela França – e também campeão europeu ao serviço do Real Madrid – conversou com o Maisfutebol e respondeu a algumas questões, com especial foco para o Olympiacos, clube no qual é dirigente e que conta com uma verdadeira «armada» portuguesa.

Jornalista – Hoje em dia, os jogadores ganham mais dinheiro ao longo da carreira. Deviam ser mais responsáveis no que toca à gestão do seu dinheiro e da própria carreira?

Christian Karembeu – Claro que há muito dinheiro no futebol moderno, mas isso faz parte do mercado e da nova geração. A digitalização também fez esta evolução no nosso mercado, podemos chegar a milhões de clientes e faturar biliões em vendas. Pelo contrário, quando se fala do percurso de cada jogador, não é fácil. A NBA, por exemplo, tem um programa para os seus jogadores no qual eles antecipam este tipo de situações antes de se retirarem: poupar dinheiro, investir algum em empresas... Hoje em dia não temos isso no futebol, mas espero que os clubes definam estas medidas, damos milhões aos jogadores, mas precisamos de os proteger. É importante para os clubes, para a marca e para a imagem do jogador, espero que num futuro próximo tenhamos este tipo de programa educacional. Sabemos muito bem que muitos atletas se destruíram depois de terminarem a carreira porque deixaram de ter paixão e adrenalina. É bom que possamos antecipar isto e tentar encontrar um bom programa para eles.

J – Um dos jogos mais memoráveis da história do futebol português foi a final do Euro 2016. Que memórias tem desse jogo?

CK – Foi um belo Euro que tivemos em França. Estávamos muito contentes e, claro, tristes, porque não levantámos o troféu, mas sabemos que às vezes um pequeno pormenor pode fazer com que uma equipa ganhe ou não. Portugal esteve bem, e como eu costumo dizer: Portugal sempre teve grandes jogadores em muitas gerações, eu próprio joguei contra alguns deles. Ultimamente têm tido o Cristiano Ronaldo a inspirar os companheiros de equipa e acabaram por ganhar o troféu em 2016, foi notável.

J – O Olympiacos tem tido muitos treinadores portugueses nos últimos anos – Leonardo Jardim, Marco Silva, Vítor Pereira, agora Pedro Martins –, tal como jogadores. Os portugueses são especiais?

CK – Especiais? Toda a gente me pergunta isso... Eu acho que a qualidade é natural, vocês têm isso no sangue. Há trabalho, claro, mas também uma filosofia, um processo de educação a todos os jogadores. E não é só porque contratamos os jogadores e treinadores portugueses, vê-se que no vosso país há muitos jogadores muito bem formados ao nível do futebol e claro que é normal ter o João Félix, por exemplo, a jogar no Atlético Madrid. De facto vocês dão oportunidades aos miúdos, o Benfica tem feito isso, o FC Porto também, o Sporting igual – com o Podence, por exemplo. Estamos muito contentes com todos os jogadores portugueses, acrescentam valor à nossa equipa e agora estou muito contente que eles estejam na seleção nacional portuguesa.

J – Este ano Bruno Gaspar foi para o Olympiacos, Rúben Semedo também, no ano passado Podence e José Sá... Porque é que os jogadores portugueses gostam de ir para a Grécia?

CK – Sabemos que há muitos jogadores talentosos aqui em Portugal. Estamos na Liga dos Campeões, uma competição onde eles podem brilhar e ter oportunidade de jogar – tal como têm aqui em Portugal com as grandes equipas. O Pedro Martins e a sua equipa técnica conhecem os miúdos – o Podence, o Rúben Semedo, o José Sá... Temos um projeto e eles fazem parte dele a 100 por cento. Claro que estamos contentes por tê-los connosco e estamos a fazer um bom trabalho, espero que consigamos ir longe.

J – Tem sido uma das vozes no mundo do futebol a combater o racismo. Que medidas é que as organizações deviam tomar nesse sentido?

CK – O racismo é contra os valores do desporto. Acho que quando falamos dos nossos valores, falamos de diversidade e inclusão. Isto é uma grande questão, devia ser um tópico nacional e internacional, não apenas do desporto. O desporto não aceita isso, porque quando somos todos crianças, jogamos todos juntos e não há religião, não há fronteiras. Há uma bola, ou objeto, para jogarmos juntos. Não importam as cores.

J – É um problema que está a aumentar no futebol?

CK – Eu acho que isto é sobre educação. Nós temos o dever e responsabilidade de falar da nossa história. Isto é o ponto chave em que podemos educar acerca do racismo, temos de falar sobre isso, a nossa história, onde pertencemos, de onde vimos, porque caso contrário vai continuar. Se começarmos a falar de humanidade, talvez consigamos educar as pessoas acerca do racismo.

Nota: esta entrevista foi também feita por Público, Rádio Observador e Record.

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