Celorico de Basto vive dias de maior entusiasmo com o jogo ante o FC Porto para a Taça de Portugal. E, para Diogo Alves, médio e capitão de equipa, este é um jogo especial.
Diogo tem 29 anos e cerca de metade da vida ligado ao Celoricense. É de Celorico de Basto, a par de Diogo Miguel e Motinha um dos três jogadores com mais anos de clube, mora a poucos minutos do estádio e não esconde que nutre simpatia pelo FC Porto. Até começou a sua formação no concelho vizinho, no Académico de Amarante, mas em 2009/10 ingressou no clube da sua terra, no qual cumpre a 15.ª época. Pelo meio teve saídas para Mondinense e Vila Pouca, mas é no Celoricense que está bem. Em casa. A conciliar também o futebol aos fins de tarde e fins de semana com o trabalho em pichelaria, durante o dia. Viveu o pior do clube, que andou pela última divisão distrital há nove anos. Agora, vive um dos pontos mais altos, com o regresso de Celorico aos campeonatos nacionais pela primeira vez desde 1997 e um duelo impactante na "prova rainha".
A poucos dias do jogo em Barcelos, o Maisfutebol encontra Diogo Alves no Estádio Municipal de Celorico de Basto, numa entrevista que vai da sua ligação a Celorico e ao clube, passando pelo FC Porto e pela caminhada na Taça, que começou com uma vitória graças a um golo seu.
Maisfutebol (MF) – Quando, há quase dez anos, nos seus inícios como sénior, vive a descida do Celoricense à terceira e última divisão da AF Braga (2016), imaginava hoje estar no clube, num campeonato nacional e a defrontar um “grande” na Taça?
Diogo Alves (DA) – Longe dos meus sonhos. Então há dez anos, no primeiro ano de sénior, infelizmente logo com uma descida… E tinha sido a segunda, porque eu em júnior já tinha feito a parte final com os seniores e também descemos. Duas descidas seguidas assim, para um miúdo, foram complicadas. E quem há dez anos me dissesse que ia jogar contra o FC Porto, eu dizia que era maluco.
MF – Como têm sido estas semanas e como vê Celorico a viver isto, desde o sorteio?
DA – Desde que saiu o sorteio, acho que na vila não se falou de outra coisa. Tivemos o jogo com o Limianos antes do jogo com o FC Porto e o pessoal já quase só pensava no FC Porto e nem se lembrava que ainda jogávamos com o Limianos para o campeonato. E temos de focar-nos, sem dúvida, muito no campeonato. Infelizmente correu mal lá [ndr: derrota por 2-1], mas agora as atenções estão todas viradas para o FC Porto e só se pensa no FC Porto.
MF – Ainda assim, é um jogo extraordinário, numa realidade bem distinta do clube...
DA – Exatamente. O clube não estava preparado para um jogo destes. O nosso campo não está preparado para isso, por isso temos de ir para Barcelos. Mas já que temos esta oportunidade, vamos usufruir dela, sem ilusão.
MF – A caminhada na Taça começa com um golo seu, na vitória ante o Celeirós…
DA – Exatamente, é sempre um marco poder marcar um golo por este clube e já o fiz nas divisões todas de Braga, consegui fazer na Taça de Portugal. É manter e vamos fazer tudo para continuar um bom registo.
MF – Depois, eliminam o Mafra, de um escalão superior. Esta caminhada na Taça supera já as vossas expectativas e objetivos?
DA – Sim, sim… o objetivo na Taça é ir o mais longe possível. Passando o Celeirós, depois veio o Mafra, juntámo-nos todos e foi uma luta conseguida.
MF – É de Celorico, mas começa a formação no Académico de Amarante…
DA – Sim, com oito anos. Por um colega meu. Nós jogávamos na escola, ele tinha ido para lá e através dos nossos pais, que eram amigos, fui com ele. Fiz lá os meus primeiros quatro anos de futebol.
MF – E está no Celoricense há cerca de 15/16 anos, embora com três saídas pelo meio, duas para o Mondinense e uma para o Vila Pouca, mas voltou sempre. Foi como que o “bom filho à casa torna”?
DA – Sim, eu moro a três minutos do estádio, sempre fui habituado a vir para aqui. Nas férias da escola vínhamos para o campo brincar. E fui subindo: dos iniciados para juvenis, para juniores e sempre fui acarinhado por todos. Sinto-me bem aqui e é aqui que quero acabar a minha carreira.
MF – Além de jogar futebol no Celoricense, também trabalha…
DA – Sim. O meu pai tinha uma empresa, fechou atividade e peguei eu nessa empresa e agora ainda mais difícil é, porque antes treinávamos três vezes por semana. Agora temos treinos quase todos os dias, é mais exigente conciliar, porque há dias em que vimos mais cansados e quando entramos na porta do estádio temos de esquecer isso tudo e trabalhar em prol do clube. Eu tenho uma empresa de pichelaria, há dias duros, abrir rasgos, outros dias nem tanto. Temos a parte das piscinas, apanhar dias de sol e depois vir para aqui treinar… é complicado.
MF – Voltando ao futebol: é adepto do FC Porto, ou de outro clube?
DA – Sim (risos). Isso não posso esconder, o meu clube, dos “grandes”, é o FC Porto. Mas em campo – e nunca tive essa experiência – acho que depois de o árbitro apitar, isso esquece-se tudo e siga para a frente.
MF – Que desafios traz este jogo? A preparação está a ser diferente?
DA – Nós costumamos estudar sempre bem os adversários e o FC Porto não foge à regra. Vamos ter uma estratégia, tentar ao máximo executá-la, para termos o maior sucesso possível.
MF – Acha real a possibilidade de fazer uma surpresa, tendo até em conta que o jogo nem é em Celorico?
DA – É uma missão muito difícil. Se fosse aqui, no nosso campo, acho que a tarefa do FC Porto ia ser mais difícil. Em Barcelos torna-se um bocado mais fácil, porque é um campo de Liga, eles estão habituados a jogar lá e nós não. Mas vamos fazer tudo para que seja uma tarefa difícil para o FC Porto. A bola é redonda, também vamos estar 11 dentro de campo, mas sabemos as grandes dificuldades que vamos passar.
MF – Gostava de trocar camisola com algum jogador? Tem alguma referência neste FC Porto?
DA – Sim, para além dos portugueses, toda a gente fala do Froholdt. Acho que era uma camisola que eu gostava de ter.
MF – Será adversário mais direto em campo, ali no meio?
DA – Hmmm, não, acho que não vou jogar naquela posição. Se o treinador entender, jogo. Mas acho que não vai ser no meio. Mas podemos cruzar-nos muitas vezes. Sou médio, mas este ano tivemos algumas lesões e fruto disso estive mais encostado na linha, a extremo. E, se jogar, se calhar pode ser por aí.
MF – Viveu descidas, subidas, muitos anos nos distritais. Entretanto, duas subidas seguidas, esta época já ganharam a Supertaça AF Braga, além do regresso aos campeonatos nacionais, 28 anos depois. Até onde pode ir o clube e o que pretendem esta época?
DA – O clube já é quase centenário, teve sempre nas altas divisões de Braga, este ano conseguimos vir ao Campeonato de Portugal, no qual o clube nunca esteve neste formato. Como disse, há 28 anos que não estava nos nacionais. O principal objetivo é manter o clube nesta divisão, estabilizá-lo. Era importante para o clube, para a terra e para os adeptos. Tenho de agradecer-lhes, porque têm ido aos jogos fora. Foram a Ponte de Lima, a Mirandela… a vila têm acompanhado o clube. E, em casa, a bancada começa a ser pequena. Por isso, a realidade do clube é estabilizar na nacional e era um feito grande, para nós, fazê-lo.
MF – E no meio disto tudo este jogo, com outro significado…
DA – É, é especial. Nunca nos tínhamos visto numa coisa assim. É um sonho jogar contra uma equipa da Liga, mais ainda contra o FC Porto, um dos três “grandes”. Ainda por cima na fase em que o FC Porto está. Está muito bem. É um orgulho poder representar Celorico para Portugal inteiro e não só. Desde o dia em que saiu o sorteio, foi uma enchente de chamadas, mensagens, pessoal a dar os parabéns, a dizer que era um orgulho o Celoricense estar neste patamar. Acho merecido pelas duas épocas que fizemos, com duas subidas seguidas. E o grupo de trabalho é humilde, com miúdos cheios de vontade de trabalhar.