A viver o primeiro mês dos 47 anos, Ricardo Sousa – outrora herói do Beira-Mar no Jamor – desfruta da tranquilidade de Aveiro, cidade na qual reside há quase 30 anos, antes de retomar a aventura enquanto treinador. Num modesto café no coração da “Veneza de Portugal”, Ricardo Sousa conversa com o Maisfutebol e levanta a mão a quem o reconhece e cumprimenta.
Conta que não faz questão de ser famoso, mas não esquece o prestígio alcançado no «clube do coração».
Numa manhã de temporal – um dia normal, portanto – Ricardo Sousa aborda a saída repentina do comando técnico do Vizela e lamenta o momento dos minhotos. Em simultâneo, desdobra-se em elogios a antigos jogadores, colegas de balneário e a Rui Borges, transmontano que sucedeu a Sousa no Mafra em 2023.
Ao Maisfutebol, este antigo médio natural de São João da Madeira – com formação no FC Porto e épocas por Beira-Mar, Belenenses, Santa Clara e Boavista – vai estudando as lides do basquetebol, por influência das filhas, mas o coração bate mais forte pelo futebol. Afinal, é filho de António Sousa e pai de Afonso Sousa, médio atualmente na Turquia.
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Maisfutebol: Saiu do Vizela no princípio de dezembro. Como descreve o momento que vive? É de procura de novos destinos, ou de acalmia?
Ricardo Sousa: Devemos estar sempre preparados para o que aí vem. É-me difícil estar sem futebol, porque gosto de estar na competição. Estou à espera de uma oportunidade, seja em Portugal ou no estrangeiro. Já tive uma sondagem para voltar a trabalhar no início de janeiro, na II Liga, mas as negociações não avançaram. Anseio por uma proposta que me agrade. Gostaria de continuar em Portugal, num projeto que me dê condições para lutar por aquilo que quero.
MF: (…)
RS: Nas primeiras semanas surge a acalmia, com foco na família, naquilo que não conseguimos dar enquanto estamos a trabalhar. Depois há a reativação, procurando aprimorar o que sonhamos ser.
MF: O Vizela tem o objetivo de regressar à Liga. O que ficou por fazer?
RS: Honestamente? Nem eu sei. Aceitei um projeto difícil. É um grande clube e organizado, com uma massa adepta forte e exigente, mas saíram oito titulares face à última época. Por imposição da direção assumi o objetivo da subida à Liga. Isso tornou o projeto difícil. Mas a verdade é que éramos uma das melhores equipas à 13.ª jornada, estávamos a dois pontos do terceiro classificado. A saída foi uma surpresa. A decisão partiu do clube. Tive a sorte e a felicidade de trabalhar com um diretor desportivo que muito sabe de futebol – o Toni Dovale [antigo jogador do Celta de Vigo] – é difícil encontrar um profissional como ele. Quem dera às equipas grandes. Foi ele que me permitiu ter um grupo coeso e com qualidade. Apesar das saídas no verão e das lesões, estávamos dentro do objetivo. Desde que saí, o Vizela tem duas vitórias em oito jogos. Esta situação causa mágoa. Criei uma grande afinidade com o grupo. Cumpriam tudo o que dizia e estavam predispostos a escutar.
MF: Como analisa a competitividade da II Liga?
RS: É um dos campeonatos mais competitivos do Mundo, as equipas estão equiparadas. Há muitos candidatos à subida. E olhamos para o Farense, suposto candidato, mas, afinal, na luta pela permanência. São fatores que atraem as pessoas aos estádios e que dinamizam o futebol português.
MF: Em que momento percebeu que seguiria a carreira de treinador?
RS: Desde cedo. Comecei a ver o futebol de forma diferente, desde cedo comecei a retirar conclusões sobre os positivos e negativos de cada treinador – a começa pela ideologia de treino e postura. E estava ciente da dificuldade desta vida.
MF: Foi treinado por António Sousa no Beira-Mar. O que retira do seu pai enquanto treinador?
RS: A forma como acolheu e uniu os grupos. Os jogadores estavam sempre com ele, mesmo que não jogassem. O meu pai sempre foi sincero e sério. É complicado gerir grandes grupos, seja por feitios, seja por querer jogar mais. O meu pai sempre soube dar a mão e, por isso, ter o grupo na mão. Também me sinto capaz de o fazer.
MF: Enquanto médio, o Ricardo foi orientado por Manuel Fernandes no Santa Clara, em 1999/00. O que ficou desse treinador?
RS: Um homem especial. Tinha sempre um conselho, baseado naquilo que viveu. Dava exemplos em todas as palestras, o que me deu força para seguir este caminho. É, ao lado do meu pai, o jogador com mais partidas na Liga. Já defrontei o filho do Manuel Fernandes – o Tiago Fernandes – e são diferentes, o Tiago é mais estratega. Graças à relação dos nossos pais, o Tiago é amigo de infância.
MF: No Beira-Mar, em 2019/20, treinou o Carlos Daniel, médio atualmente no Marítimo e que vive uma das melhores épocas da carreira.
RS: Nessa época jogámos contra o Fátima e adorei o Carlos, tinha muitas assistências e faro de golo. Infelizmente, contratei-o na época da pandemia. O Beira-Mar estava na luta pela subida à II Liga. Anos mais tarde, treinei o Carlos no Mafra, já na II Liga. Ele continua com uma qualidade técnica superlativa, sabe ser um “10” com faro de golo muito apurado. É com satisfação que vejo o Carlos despontar. Apesar dos 31 anos, ele tem feito boas épocas e foi um dos pilares da subida do Nacional em 2023/24. Nesta temporada tem melhores números porque joga mais próximo da área.
MF: O Ricardo esteve três épocas no Mafra e atingiu a meia-final da Taça de Portugal. Foi a fase com maior estabilidade neste percurso enquanto treinador?
RS: Sem dúvida. Alcancei a inédita meia-final da Taça – sobra uma pequena mágoa, pelo jogo em Tondela – e atingimos a melhor classificação na II Liga. Adorei lá estar, com adeptos fantásticos. Nos clubes onde treinei sempre atingi os objetivos. No ano do Feirense (2023/24), numa época muito difícil – de dois meses sem acesso às instalações de treino e jogo – saí com o clube dentro do objetivo proposto. Um mês antes de sair do Feirense recebi uma proposta de um clube da II Liga que lutava pela subida – e financeiramente muito estável. Mas o Feirense não me libertou, renovou e, um mês mais tarde, despediu-me. São situações difíceis de aceitar. É o futebol moderno. Há que ter esperança.
MF: No Mafra trabalhou com Samu Silva, guarda-redes titular e capitão no Marítimo. O que recorda dele?
RS: O Samu foi contratado proveniente do Desp. Chaves, onde era o terceiro guarda-redes. Poucas pessoas acreditavam nele, mas foi titular no Mafra. Optei por alternar os guarda-redes, porque tanto o Samu como o Dida [Renan Bragança] eram dois profissionais enormes. Já nessa fase notava que o Samu tinha uma capacidade acima da média. Por isso, ainda pode chegar muito acima no futebol português, sobretudo pelas qualidades humanas. Enquanto guarda-redes é um monstro entre os postes e sabe jogar com os pés. Identifico poucas fraquezas nele. Não tem dois metros, mas acresce muita qualidade à equipa. Estou certo de que vai chegar a uma equipa de referência na Liga.
MF: Quando saiu do Mafra foi rendido por Rui Borges, atual treinador do Sporting. Fica surpreso pelo trajeto deste transmontano?
RS: Já conhecia o Rui. Ele treinava o Mirandela e eu o Felgueiras, no Campeonato de Portugal. Estava visto que o Rui tinha capacidade para muito mais. Já na II Liga defrontei-o quando ele treinava o Académico de Viseu. E mais tarde no Nacional. As equipas dele sempre foram organizadas, sempre foi um adversário difícil. Estou muito feliz pelo sucesso do Rui. Ele merece. É dos puros.
Prossiga para a segunda parte da conversa de Ricardo Sousa com o Maisfutebol.