A Associação Desportiva de Fafe é a grande sensação da Taça de Portugal em 2025/26. É o único clube da Liga 3 nos quartos de final da prova rainha (onde está pela quinta vez) e, em quarta-feira de clássico no Dragão, recebe o Sp. Braga (18h45) num duelo minhoto que terá casa cheia no Municipal de Fafe, na tentativa de chegar pela terceira vez às meias-finais.
Mário Ferreira, que completa 31 anos esta terça-feira, é um dos mais jovens treinadores dos campeonatos nacionais e comanda uma equipa que tem um janeiro decisivo para o grande objetivo da época: ir à fase de subida da Liga 3. Porém, há também ambição de continuar a fazer história na Taça. Foi precisamente na estreia de Mário Ferreira que a equipa somou a primeira vitória da época e começou a caminhada de êxitos na prova: 1-0 na visita ao Oriental, o mesmo resultado conseguido em Évora ante o Lusitano, já depois de fazer tombar Moreirense (1-0) e Arouca (2-1) em Fafe.
Entrevista Maisfutebol a Mário Ferreira, que nesta Parte III fala do seu trajeto como treinador e dos objetivos de carreira, de José Mourinho como referência e ainda de Derlei, ex-futebolista e atual presidente da SAD da AD Fafe, que gere o futebol profissional dos minhotos.
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Ser treinador foi algo que sempre quis? E que objetivos tem nesta profissão?
MF – Sim, despertou muito cedo. Ainda jogava nos sub-19 do Leixões. Eu era um jogador de grupo, gostava do espírito de solidariedade, companheirismo e criei muitos laços de amizade que ainda hoje tenho. Como o André [Pereira], por exemplo. E sempre fui leal às ideias do treinador. Ou seja, nunca fui de ripostar e pedir explicações por não jogar e desde cedo quis entrar na área técnica e desde os 18/19 anos, pedi na altura ao Pedro Correia, que era o treinador do Leixões e agora é diretor-desportivo do AVS, para acompanhar uma das equipas da formação. Comecei a adjunto dos sub-13 e depois fui seguindo. Ainda fiz um ano de sénior a jogar no Leça, mas sempre estive ligado ao Leixões na formação, depois fui alguns anos adjunto do Manuel Monteiro até chegar a treinador principal. Comecei no Coimbrões, estive no Salgueiros, tive uma passagem pelo Estrela da Amadora e voltei a Fafe. Mas a ambição é o que tiver de ser, o que o destino traçar. Acredito que o trabalho é importante, obviamente tenho sonhos como toda a gente, gostava de ter uma carreira bonita, é o que o universo tiver para dar.
Em Portugal? No estrangeiro? Se há algo específico que pense…
MF – Um sonho pessoal era ouvir o hino da Liga dos Campeões, independentemente da eliminatória. Acho que todos nós, treinadores, sonhamos com isso. O futebol está muito global, o mercado está muito aberto para toda a gente, tem-se praticado bom futebol em várias partes do mundo, por isso o que tiver de vir ao meu destino, acho que vai ser positivo.
E na altura em que joga um ano de sénior no Leça, depois da formação no Senhora da Hora e no Leixões, já tinha a certeza que queria ser treinador?
MF – Sim, no Leça eu ainda fiz uns 15 jogos. Jogava no Leça e já era adjunto dos sub-16 do Leixões e decidi, no final desse ano, desistir, porque também estava a estudar, tinha sobrecarga enorme entre faculdade, jogar e treinar e na altura optei pelo treino, se calhar muito por estar aliado à faculdade e desisti de jogar. Tinha de optar por uma via e optei pela parte técnica.
Semanas antes de chegar ao Fafe, tinha saído do Estrela, falando em motivos pessoais…
MF – Nós, treinadores, quando começamos a parte do treino, temos sempre de ter a consciência de que o sair de casa é algo que pode acontecer e podemos ir para 50 quilómetros, mas também podemos ir para 300 ou 400 e na altura, quando fui para o Estrela em janeiro deixei para trás uma mulher e dois filhos pequeninos e sabia perfeitamente o risco que ia correr, era uma aposta, no fundo, em desenvolver as minhas competências como treinador, mas deixar para trás o crescimento dos meus filhos, o estar com a minha família e a verdade é que chegou a um ponto em que tive de decidir: ou estar com a minha família, ou dar continuidade a isso. Foi no momento que achei que tinha de o fazer e por acaso correu bem o facto de se abrir esta porta no Fafe.
No Estrela, esta época, teve essa experiência na Liga como adjunto de José Faria. Apesar de terem sido poucos meses, quão importante foi?
MF – Foi muito importante. Conhecemos realidades diferentes, jogámos contra o Al Nassr [ndr: na pré-época], equipas de II Liga, I Liga, jogos-treino e jogos oficiais obviamente, mas o que a mim me fez crescer mais foi conviver e partilhar com outros treinadores. Porque atualmente nós olhamos para clubes da Liga 3 e vemos cinco, seis, 20 elementos de staff. Na Liga, normalmente são cerca de 40 a 50 pessoas, porque há departamentos de tudo e mais alguma coisa: análise, marketing, fisioterapia, médicos. A partilha de experiências e conhecimento com todos eles foi o que me fez crescer mais e foi importante para mim.
No seu percurso como treinador fez parte da equipa técnica da AD Oliveirense, na altura em que até jogadores passaram dificuldades…
MF – (risos) foi, foi.
Como foi esse período?
MF – São momentos que nós levamos nesta vida que são muito engraçados. Chegamos a um clube em que um diretor desportivo quis fazer da Oliveirense uma SAD e fez promessas salariais e contratuais demasiado grandes para a realidade. Não cumpriu. E digo que foi engraçado porque havia sempre a esperança de que fosse cumprido, mas nunca foi. Obviamente que foi triste, tínhamos muitas famílias a passar necessidades, a precisar da parte salarial, olhamos para trás e tenho a certeza que mesmo os jogadores olham para trás e recordam aquilo como uma fase negativa e má do futebol. Termos pessoas como aquelas no futebol deixa uma imagem negativa. Lembro-me perfeitamente que na altura a AD Oliveirense abriu insolvência e muitos de nós ficámos sem receber um cêntimo.
Tem alguma referência como treinador?
MF – Sim, acho que José Mourinho foi um treinador que abriu portas a muitos dos treinadores como eu, como os Vascos [ndr: exemplifica com Botelho da Costa, Seabra…], que não tiveram uma carreira como jogador muito positiva. Recentemente, o treinador do Estoril falou sobre isso e sem dúvida que, para mim, foi e é um treinador de excelência. Não só pela parte do treino e do jogo, mas pela parte mental, pela forma como comunica. Acho que está num nível demasiado elevado.
E quem é o Mário Ferreira fora da vida de treinador?
MF – Uma pessoa normal, com 30 anos. Fui pai cedo, sempre tive o sonho de ser pai e tenho outro sonho familiar que é ser avô. Acho que deve ser uma sensação, não de dever cumprido, mas de ver a geração a aumentar. E gosto de fazer o que a maior parte das pessoas de 30 anos gosta, como jogar padel, fazer desportos coletivos, ter jantares, partilhar momentos com amigos, jogar bilhar, sueca…
A SAD da AD Fafe tem neste momento Derlei como presidente. Como é a sua relação com ele?
MF – É muito positiva. Eu tenho de perceber que, do outro lado, tenho um presidente que ganhou uma Liga dos Campeões, que tem quase o dobro da minha idade, podia ter idade para ser meu pai, há um respeito enorme por ele. Obviamente que esse respeito tem sempre o seu limite, mas nunca ultrapassando esse limite, tanto da minha parte, como da dele. O Derlei é uma pessoa humilde, pacífica e a relação é cordial.
Ele tem sido presença habitual no banco de suplentes. Como ex-futebolistas também falam do futebol e da equipa?
MF – Estamos sempre em contacto, temos uma relação próxima, falamos semanalmente sobre o dia a dia do clube, as necessidades, porque há sempre necessidades. Obviamente umas são cumpridas, outras não, mediante as ideias dele e da estrutura, mas a relação é próxima no sentido de melhorar a AD Fafe.