"Estou a ligar para saber o que está a acontecer": áudios revelam problemas e inação de Espanha antes do apagão que deixou Portugal às escuras - TVI

"Estou a ligar para saber o que está a acontecer": áudios revelam problemas e inação de Espanha antes do apagão que deixou Portugal às escuras

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  • 24 mar, 09:36
Apagão total (Lusa)

Notícia é avançada pelo El Mundo, que teve acesso aos áudios entregues pela operadora espanhola à comissão do Senado responsável por investigar o incidente. Num dos registos, um responsável da Red Eléctrica invoca ainda a falta de energia nuclear no sistema

A 26 de abril do ano passado, dois dias antes do apagão em massa que atingiu a Península Ibérica e algumas zonas de França, uma empresa de energia elétrica ligou para a Red Eléctrica, operadora do sistema, para se informar sobre as oscilações de tensão na rede.

"Estou a ligar para saber o que está a acontecer, porque estamos a ter muitas oscilações."

Do outro lado da linha, os técnicos da Red Eléctrica responderam: "Sim, é por causa de problemas com o sistema fotovoltaico."

Alguns dias antes, em 16 de abril, uma conversa semelhante: "Estamos a enfrentar picos de tensão que nos obrigam a regular a energia em todas as subestações" - ao que a Red Eléctrica explicou que era “porque quase não há energia nuclear no sistema”.

“Aconteceu ontem à tarde e não é um incidente isolado”, ouve-se ainda nos áudios a que o El Mundo teve acesso esta segunda-feira. As gravações parciais ouvidas pelos jornalistas do diário “mostram claramente que as empresas de geração de energia e também alguns grandes consumidores detetaram flutuações preocupantes nos níveis de tensão do sistema”, alertando a operadora estatal nas semanas que precederam o apagão de 28 de abril.

“A julgar pelas respostas”, adianta o El Mundo, os técnicos da Red Eléctrica já haviam identificado a causa dessas flutuações: o rápido início e paragem de reatores fotovoltaicos e energia nuclear insuficiente no sistema, dois fatores que a alta direção da operadora presidida por Beatriz Corredor rejeitou categoricamente em todas as declarações públicas sobre o apagão ibérico.

Ainda segundo as mesmas gravações, no próprio dia do apagão, 28 de abril, a instabilidade na rede foi registada desde as primeiras horas da madrugada, muito antes da falha generalizada, que começou a ser sentida por volta das 11h30 da manhã em Portugal, uma hora mais tarde em Espanha. Ao todo, a comissão do Senado responsável por investigar as causas do incidente teve conhecimento de 15 chamadas só naquela manhã.

“Estamos com oscilações de tensão na linha 400 kV em Olmedilla, a tensão está a oscilar bastante”, denuncia uma empresa de energia numa dessas chamadas com a operadora espanhola. “Estamos com o mesmo problema, está relacionado com o sistema fotovoltaico; estamos a tentar mitigá-lo”, respondeu um responsável da Red Eléctrica.

Apesar disto, e como denota o relatório oficial do governo espanhol sobre o incidente, foi só depois das 12h18 em Madrid que, em situação extrema – quando a sobrecarga já estava fora de controlo e faltavam recursos para a resolver – a Red Eléctrica acionou geradores para determinar qual dos seus reatores de ciclo combinado a gás é que poderia ser ativado mais rapidamente para fornecer energia de reserva. Mas já não foi a tempo de evitar o apagão, que teria início cerca de 12 minutos depois.

Até ao momento, ninguém foi responsabilizado pelo apagão de 28 de abril. Segundo o El Mundo, a comissão do Senado recebeu na segunda-feira um total de 17 áudios de conversas, fornecidos pelo setor elétrico, a demonstrar desequilíbrios críticos na rede elétrica não apenas horas antes do incidente, mas vários dias antes.

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