Custo do alojamento e falta de apoios afastam estudantes do ensino superior - TVI

Custo do alojamento e falta de apoios afastam estudantes do ensino superior

  • Agência Lusa
  • AM
  • 9 ago 2025, 09:08
Um quarto da residência de estudantes da Universidade de Lisboa, Ventura Terra (Lusa/ Miguel A. Lopes)

A falta de oferta leva os estudantes a antecipar a procura de casa e muitos iniciam essa busca vários meses antes de conhecerem os resultados do concurso nacional de acesso

O elevado custo do alojamento em várias cidades e a falta de apoios afastam cada vez mais jovens do ensino superior, alertam representantes estudantis que pedem o reforço da ação social escolar.

O prazo de candidaturas à 1.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior terminou na segunda-feira com cerca de 50 mil alunos inscritos, menos nove mil em relação ao ano anterior e um valor só comparável ao registado em 2018.

Um dos possíveis motivos apontados pelos presidentes das federações académicas de Lisboa e do Porto é o custo de frequentar o ensino superior, em que se destaca uma despesa em particular: o alojamento estudantil.

De acordo com o Observatório do Alojamento Estudantil, que identifica a oferta privada de alojamento para estudantes e as rendas praticadas a nível nacional, um quarto em Lisboa custa, em média, 500 euros por mês.

A capital é a cidade mais cara, mas noutras com instituições de ensino superior os preços também representam um entrave. No Porto, por exemplo, o valor médio das rendas é 400 euros e em Faro ronda os 380 euros, descendo ligeiramente para 330 euros em Aveiro e 280 euros em Coimbra.

“Uma família com condições socioeconómicas não tão favorecidas terá, certamente, muita dificuldade em permitir que os seus filhos estudem no ensino superior”, sublinhou o presidente da Federação Académica de Lisboa (FAL).

Em declarações à agência Lusa, Pedro Neto Monteiro lembra que, no ano passado, arrendar um quarto em Lisboa custava, em média, 480 euros.

“É um aumento significativo, sem correspondência na capacidade de as famílias suportarem esses cursos”, refere.

No Porto, as rendas estão igualmente mais caras este ano e Francisco Porto Fernandes, refere que enquanto os estudantes mais pobres têm prioridade no acesso às residências estudantis públicas ou acesso ao complemento de alojamento, as famílias de classe média veem-se “asfixiadas financeiramente” para que os seus filhos possam estudar no ensino superior.

Por outro lado, o presidente da Federação Académica do Porto (FAP) considera que mesmo os apoios para os estudantes carenciados são insuficientes.

No próximo ano letivo, 2025/2026, o apoio ao alojamento atribuído atualmente aos alunos bolseiros vai ser alargado a todos os estudantes do ensino superior deslocados cujo rendimento anual ‘per capita’ do agregado familiar fique abaixo dos 14.630 euros.

À semelhança do que está previsto para os bolseiros, também os restantes alunos deslocados com rendimentos mais baixos terão direito a um "complemento mensal igual ao valor efetivamente pago pelo alojamento e comprovado por recibo ou transferência bancária", de acordo com a lei da Assembleia da República.

O principal problema, referem os presidentes das duas federações académicas, é que cerca de metade dos jovens, sujeita ao mercado paralelo, não tem contrato de arrendamento.

“É uma boa medida e é importante que se mantenha, mas não resolve o problema de forma estrutural”, considera o dirigente da FAP, que defende a construção de mais residências públicas e o reforço das linhas de crédito para que as instituições de ensino superior celebrem protocolos com entidades públicas, privadas e sociais.

Quanto às residências estudantis, o Governo estima que, até setembro, estejam concluídas as obras em 19 residências universitárias, que representam mais de duas mil camas, a maioria novas, e às quais podem acrescer 2.270 através de protocolos para alojamento estudantil.

Pouca oferta leva estudantes a procurar casa muito antes de conhecerem colocação

A procura de casa começa cada vez mais cedo para os estudantes deslocados e, devido à pouca oferta, muitos fazem-no meses antes de saber onde foram colocados, mas há famílias para quem pagar um quarto é impossível, alertam associações.

Todos os anos, o exercício repete-se para milhares de jovens que saem de casa e mudam de cidade para ir para a universidade. Procurar alojamento é um desafio não só pelos preços elevados em muitas cidades, mas também pela falta de oferta.

Em Lisboa, por exemplo, onde estudam cerca de 50 mil estudantes deslocados, a renda mensal de um quarto é, em média, 500 euros, mas a um mês do início do ano letivo o Observatório do Alojamento Estudantil, que faz a monitorização da oferta privada de alojamento para estudantes, contabilizava pouco mais de 2.600.

A falta de oferta leva os estudantes a antecipar a procura de casa e muitos iniciam essa busca vários meses antes de conhecerem os resultados do concurso nacional de acesso.  

É o caso de Alexandre Caldeira, que terminou agora o 11.º ano. Ainda falta um ano para concluir o secundário, mas o jovem algarvio já sabe onde quer estudar depois: no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.

Por isso, a família aproveitou recentemente uma viagem a Lisboa para começar a procurar alojamento.

“Estamos a ver com bastante antecedência, porque a nossa ideia é, em janeiro, fazermos já uma pré-reserva”, contou à Lusa a mãe, Nádia Caldeira, admitindo que a questão do alojamento é uma preocupação grande.

Alexandre não é caso único e o presidente da Federação Académica de Lisboa (FAL) confirma que conhece vários casos de estudantes que começam a procurar alojamento muitos meses antes do início das aulas.

Pedro Neto Monteiro é, ele próprio, um exemplo.

“Eu sou um estudante deslocado, sou de Viseu, e comecei a procurar alojamento com cerca de sete ou oito meses de antecedência”, contou à Lusa o representante estudantil.

No entanto, o presidente da FAL sublinha que existem vários fatores de incerteza no acesso ao ensino superior e, mesmo que exista a vontade de ingressar numa determinada instituição, essa colocação pode não se confirmar.

Por outro lado, nem todas as famílias têm disponibilidade financeira para assumir o compromisso com tanto tempo de antecedência e o presidente da Federação Académica do Porto (FAP), que relata um cenário não muito diferente na Invicta, alerta que há famílias que não conseguem sequer assumir a despesa com uma renda durante o período de aulas.

“Se os estudantes bolseiros têm, na maioria dos casos, uma cama disponível (em residência pública) ou um complemento de alojamento, o problema também está nas classes médias que, muitas vezes, são completamente asfixiadas financeiramente para os seus filhos poderem estudar no ensino superior”, explica Francisco Porto Fernandes.

Se em Lisboa um quarto custa, em média, 500 euros mensais, no Porto o valor é apenas ligeiramente mais baixo, rondando os 400 euros de renda. A oferta é menor e o Observatório do Alojamento Estudantil contabilizava, no final da semana, 799 quartos disponíveis.

Com vagas insuficientes também nas residências públicas, as residências estudantis privadas poderiam ser uma alternativa de alojamento, mas os preços são ainda mais elevados

Em Lisboa, por exemplo, as opções mais baratas ultrapassam os 550 euros por um quarto partilhado e há residências que cobram mais de 1.600 euros por estúdios com cerca de 30 metros quadrados.

Até setembro, o Governo prevê que estejam concluídas as obras em 19 residências universitárias, que representam mais de duas mil camas, a maioria novas, e às quais podem acrescer 2.270 através de protocolos para alojamento estudantil.

Num balanço feito à Lusa na semana passada, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação referia que a meta definida, ainda pelo anterior Governo, era chegar às 18.000 camas, objetivo que, entre projetos concluídos e aprovados mas por arrancar, há já 19.000 camas contratualizadas.

Continue a ler esta notícia