A eleição de um speaker para a Câmara dos Representantes dos EUA continua num impasse ao fim de quatro dias de votações que terminam sempre com o candidato republicano Kevin McCarthy longe de conseguir os 218 votos necessários para ser eleito. À CNN Portugal, a investigadora Diana Soller, especialista em Relações Internacionais, admite que a guerra na Ucrânia possa ser um dos motivos para este impasse, que, além de estar a "beliscar" a imagem de McCarthy, também pode vir a enfraquecer a imagem de "toda a estrutura republicana".

"É a beleza da democracia americana - por vezes, uma ala pequena pode criar determinados embaraços." É assim que Diana Soller classifica este impasse político em torno da liderança da Câmara dos Representantes. A investigadora recorda, aliás, que esta "não é uma situação inédita" na política norte-americana, tendo já acontecido o mesmo em 1923, quando o partido não conseguiu chegar a um consenso para o líder republicano da Câmara dos Representantes, e antes, em 1965, quando foram precisos dois meses e 133 votações para que o Congresso elegesse finalmente um speaker.

Para Diana Soller, "não estamos perante o mesmo cenário" de 1956, mesmo que o número de votações para lá caminhe. Isto porque "o ritmo de votações é hoje completamente diferente", e o Partido Republicano terá de tomar uma posição "se esta situação se mantiver durante muito mais tempo" para salvaguardar a sua imagem, optando por outras alternativas, por exemplo.

"Por enquanto, é principalmente a imagem de Kevin McCarthy que sai beliscada desta situação, mas, se isto se mantiver por muito mais tempo, passa a ser toda a estrutura republicana a ficar em causa, por demonstrar que não tem capacidade para fazer uma coisa tão simples como eleger um speaker da Câmara dos Representantes", analisa.

Porque é que McCarthy não está a reunir consenso entre os republicanos?

O candidato republicano entrou nesta corrida para a liderança da Câmara dos Representantes confiante de que facilmente seria eleito - até porque a maioria dos republicanos no Congresso assim o fazia prever - mas, à medida que o número de votações foi crescendo, também o número de opositores internos foi aumentando. Inicialmente, contavam-se cinco "never Kevins" (como são conhecidos), mas, na terça-feira, o número de opositores subiu para 14, depois 19 e depois 20.

Alguns dos opositores acusam McCarthy de financiar candidatos mais moderados nas eleições intercalares de novembro, nas quais os conservadores conseguiram retirar o controlo aos democratas, mas ficaram muito aquém dos bons resultados que muitos meios de comunicação social previam. Outros criticam McCarthy por não negociar com eles a reforma das regras do debate e os nomes para liderar as comissões do Congresso no novo mandato.

Estas questões podem estar a pesar na eleição do candidato republicano, mas há outro fator que também pode estar a contribuir para este impasse, aponta a investigadora, referindo-se à guerra na Ucrânia. Isto porque, ao longo da sua campanha, Kevin McCarthy "disse muitas vezes que não queria dar um cheque em branco à Ucrânia" - o que, num "Congresso tradicionalmente pró-europeu", pode não ter caído bem.

Mas, acima de tudo, este impasse demonstra que, apesar de o trumpismo ainda não ter desaparecido - "muito pelo contrário", ressalva a investigadora -, os republicanos "estão a fazer pressão interna para que se perceba que o trumpismo não é a única corrente dentro do partido". "E Kevin McCarthy é um trumpista, mas um trumpista ainda mais radical do que a maioria", salienta.

Apesar deste impasse, a investigadora rejeita a ideia de que o Partido Republicano esteja dividido e argumenta que esta "é uma questão ultrapassável": McCarthy terá de ter "capacidade de negociar com os congressistas que não querem votar nele", caso contrário, "provavelmente, o Partido Republicano reunir-se-à outra vez de forma a criar uma candidatura mais consensual".

Beatriz Céu