Biden e Xi Jinping: o que sai do encontro entre líderes "em competição" que fez lembrar a Guerra Fria - TVI

Biden e Xi Jinping: o que sai do encontro entre líderes "em competição" que fez lembrar a Guerra Fria

Xi Jinping e Joe Biden (EPA/XINHUA)

Joe Biden recebeu Xi Jinping na Casa Branca e depois chamou-o "ditador". A China reagiu, acusando-o de fazer declarações "irresponsáveis". O encontro que era para "desanuviar as tensões" entre os dois países acabou com uma chamada de atenção dirigida aos Estados Unidos: "Têm de ter muito cuidado daqui para a frente"

Relacionados

Os resultados da reunião desta quarta-feira entre Joe Biden e Xi Jinping - o primeiro entre os presidentes chinês e norte-americano desde há um ano - mostram que este "não foi um encontro de dois amigos", mas sim entre dois líderes que "estão em competição" e que precisam de "aliviar as tensões" entre os dois países. Esta é a análise dos especialistas em Relações Internacionais ouvidos pela CNN Portugal, que enquadram este encontro na estratégia de "desanuviamento" utilizada pelos chefes de Estado durante a Guerra Fria.

"Esta reunião serviu acima de tudo para o que nós na Guerra Fria chamávamos de desanuviamento", começa por dizer a investigadora Diana Soller, explicando que esta estratégia decorria em "alturas muito tensas" durante aquele período de tensão geopolítica e em que "os líderes em competição se encontravam e discutiam as questões mais importantes da política internacional".

Por isso, mais do que alcançar acordos nas mais diversas questões da política externa, esta reunião, que decorreu à margem do fórum da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), tinha precisamente como objetivo "desanuviar a tensão entre os Estados Unidos e a China" e "criar alguma previsibilidade nas relações", salienta a especialista. Exemplo disso, aponta Diana Soller, foi o entendimento entre os dois presidentes de "poderem usar o telefone para ligar um ao outro diretamente" para tratar de questões essenciais, bem como o restabelecimento das ligações militares diretas entre os exércitos de ambos os países. Na prática, este acordo permite que os dois exércitos possam colaborar na realização de exercícios militares conjuntos e no desenvolvimento tecnológico e de armamento.

Também o professor Tiago André Lopes, especialista em Relações Internacionais, afirma que esta reunião lhe lembra "a fase da Guerra Fria em que se falava numa coexistência pacífica".

"Estamos numa fase em que os dois sistemas que estão em competição estão a tentar encontrar forma de competir sem ser de forma destrutiva. Esta reunião assinalou muito a noção de que ambos têm legitimidade para existir, há espaço político no mundo para os dois, mas ambos não vão abdicar da sua originalidade política", afirma à CNN Portugal Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense.

Foi, aliás, essa a posição do presidente chinês no início do encontro com Joe Biden, quando disse ao homólogo norte-americano que o planeta é "suficientemente grande” para que ambos os países tenham sucesso como potências, reconhecendo que ambas têm “pesadas responsabilidades” para o mundo.

Apesar deste desanuviamento de tensões, os especialistas assinalam alguns momentos da reunião entre os dois líderes que mostram que este "não foi um encontro entre dois amigos". Desde logo, o facto de Joe Biden e Xi Jinping não terem feito uma conferência de imprensa conjunta e de o presidente chinês não ter dirigido um convite ao homólogo norte-americano para visitar o país, tal como acontece noutros encontros diplomáticos, destaca Tiago André Lopes. Isto demonstra que a reunião "teve um valor diferente para ambos", observa o professor.

"Para Xi Jinping, apesar de ter sido dado um passo em frente, ainda há muitos passos que têm de ser dados. Este é o primeiro passo, mas o caminho é muito longo", acrescenta Tiago André Lopes.

Mas o encontro acabou por ficar marcado por uma declaração do presidente norte-americano no final da conferência de imprensa, quando uma jornalista perguntou a Biden se ainda considerava Xi Jinping "um ditador".

"Ele é um ditador no sentido em que é um homem que lidera um país que é comunista que se baseia numa forma de governo totalmente diferente da nossa", respondeu o chefe de Estado norte-americano. 

Na perspetiva de Diana Soller, esta declaração "não foi mais do que um episódio triste" por parte de Joe Biden e revela como entre os dois países "não há uma relação de amizade, mas sim de conflitualidade".

"Uma coisa é escrever isso num documento estratégico. A China também já escreveu vários documentos estratégicos nos quais é muito explícito que o seu maior objetivo ao nível da política externa é o declínio da hegemonia americano. Mas nunca vimos Xi dizer isso a Biden. Isto [a declaração de Biden] é visto pela China como uma ofensa", afirma a investigadora.

Entretanto, a China classificou como irresponsáveis as declarações do presidente dos Estados Unidos. “Esta declaração é extremamente errada e um ato político irresponsável", disse a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros, Mao Ning, em conferência de imprensa.

Diana Soller considera que esta reação "tão violenta" por parte da diplomacia chinesa deve servir de alerta para Joe Biden: "A China percebeu que aquilo não foi uma questão planeada. Mas o facto de ter havido uma verbalização nesses termos constitui para a China matéria para reclamação diplomática. Isto quer dizer que os Estados Unidos têm de ter muito cuidado daqui para a frente, porque a diplomacia é um instrumento fundamental em competição e não pode ser alienada."

Continue a ler esta notícia

Relacionados