Caro Portugal, suja-te com farinha e vai estudar o Kroos e o Andrich. Por favor - TVI

Caro Portugal, suja-te com farinha e vai estudar o Kroos e o Andrich. Por favor

Andrich

ALEMANHA 2-0 HUNGRIA || Não parece mas este texto é sobre o Alemanha-Hungria (os alemães apuraram-se para os oitavos). Não parece mas este texto é também sobre o Portugal-Chéquia (Portugal não está apurado para os oitavos mas para lá caminha). Não parece mas este texto é ainda sobre como podemos evitar 13 desperdícios no Portugal-Turquia (e Portugal pode ficar apurado para os oitavos nesse jogo)

As vicissitudes da farinha Amparo: o melhor do jogo

Se Portugal quer ganhar o Euro, e quer, tem de ver os melhores do torneio a jogar, comparar-se com eles, Portugal tem de estudá-los, saber onde é mais forte mas também onde lhes pode ir buscar forças: Portugal pode começar por se comparar com a Alemanha - não no talento, a Alemanha tem muito e nós também, não há inquietações por aí, mas Portugal pode comparar-se com a Alemanha no trabalho de bolas paradas e aí estamos a perder: tivemos 13 cantos contra a Chéquia que foram 13 situações de potencial perigo que se tornaram 13 situações de nada, sobre isso ouvi hoje o Gabriel Alves a dizer que "ao nível do treino ficam muitas dúvidas nos lances de bola parada de Portugal, parece um disco riscado: tivemos 13 cantos, foram todos batidos da mesma maneira, para quem está a defender aquilo é mesmo trigo limpo, farinha Amparo, nos nossos cantos parece que não existe trabalho de casa", o Gabriel Alves sabe expressões bem portuguesas, a farinha Amparo deu um golpe de marketing tão bem feito que passou de marca empresarial a provérbio, o Gabriel Alves sabe também muito de futebol e aprendo muito com ele no podcast do Observador "E o Campeão é...", ouçam, podem aprender ainda com o ex-árbitro Pedro Henriques, que é um craque na comunicação, podem aprender com o grande Inácio, que também deu origem a um provérbio - neste caso sobre fazer pirataria da Benfica TV -, aprender com quem está a fazer melhor que nós é um ato tão humilde quanto inteligente e os nossos jogadores e respetiva equipa técnica podem ter um ato desses se forem estudar o Kroos e o Andrich.

Minuto 12 do Alemanha-Hungria, Kroos prepara-se para marcar um canto, Andrich está de mãos nas ancas fora da área, já revi o lance várias vezes, o Andrich parece mais um toureiro e menos um futebolista, depois o Andrich começa a correr, o Kroos ainda não fez nada, o Andrich abranda, o Kroos bate o canto, o Andrich volta a acelerar, entra na área enquanto a bola sobrevoa a defesa toda e vai parar a uma zona que era de ninguém mas que agora já é de alguém, do Andrich, está sem marcação e é tudo bastante elaborado e trabalhado pela Alemanha - a maneira como o Kroos passou a bola, muito-longa bastante-tensa plenamente-no-alvo, e como o Andrich se sincronizou com o Kroos faz-nos constatar quão longe chegaram a inteligência e a destreza humanas, pena que às vezes não sejam aplicadas além-futebol, ahahahahah, entretanto o Andrich remata e o húngaro Bolla consegue desviar de cabeça a bola que ia para a baliza (é a fotografia que abre este texto), depois as câmaras mostram o Andrich a bater palmas, são para o Kroos, e a seguir a rir-se, é o Andrich a parabenizar-se parcialmente a si próprio - sabe que vai ter de trabalhar mais a finalização mas a parte do toureiro saiu muito bem, merece aquele autossorriso. Enquanto isso: Bolla é felicitado pelos húngaros como se tivesse marcado um golo.

O minuto 12 é trabalho de casa, não é um disco riscado e também não é o único single de sucesso: minuto 40, há mais minutos semelhantes mas este 40 está bem, minuto 40, canto do Kroos, agora é Kimmich que está à entrada da área, não está de mãos nas ancas, pressentimos que não será uma tourada, Kroos bate como no minuto 74 do Real Madrid-Dortmund, nesse jogo apareceu Carvajal a fazer o 1-0 mas neste apareceu um húngaro, Varga, que gosta tanto da maneira luminosa como Kroos define os cantos que cabeceou para a própria baliza, a sorte do Vargas é que aqueles cantos são para ser desviados por gente de 1,73 metros, o caso de Carvajal, e não por quem tem 1,81 metros, o caso do próprio Varga, e por isso a bola saiu ligeiramente ao lado, quase autogolo, "o Kroos é incrível, parece um robô a marcar os cantos", diz o comentador do jogo na TV.

E agora pergunta você, pessoa que me está a ler: mas o minuto 12 e 40 e cantos afins da Alemanha deram golo, Germano, deram?, não deram, cara pessoa, não deram não, mas agora pergunto eu: era melhor para a Alemanha marcar cantos de trigo limpo, farinha Amparo?, era?. Como não tenho a possibilidade de ter aqui a sua resposta, cara pessoa que muito estimo por me estar a ler, dou a minha: nenhuma equipa quer dar um canto à Alemanha porque sabe que de cada lance de canto alemão ou vem golo ou um quase golo e isso muda muito a maneira como uma equipa defende, porque se essa equipa conceder 13 cantos à Alemanha vai sofrer 13 golos ou 13 desgastes, e se essa equipa que defende fizer de tudo para não conceder cantos então deixa de defender com coragem e passa a defender com medo - e fica assim mais sujeita ao erro e a defender pior. Por isso: no caso da Chéquia, dar um canto a Portugal era um alívio em vez de ser um sofrimento. Caro Portugal, vai estudar o Kroos e o Andrich. Por favor.

Golaço: o momento do jogo

O segundo golo alemão tem 12 segundos de posse, cinco passes até ao remate de Gundogan: Kimmich recupera, dá para Rudiger (está envolvido nos dois golos), Rudiger para Kroos, Kroos para Musiala (também envolvido nos dois golos, marcou o primeiro), a bola segue para Mittelstädt, centro rasteiro-recuado para o coração da área, Gundogan desvia (também está nos dois golos), golaço coletivo, vejam:

 

O 1-0 foi assim, não foi tão momento do jogo, foi bem estranho até:

 

Kroos falha passes: o pior do jogo (LOL)

Kroos ficou na história do Alemanha 5-1 Escócia porque fez 102 passes e só falhou um e a maioria desses passes não se trata de passes para trás ou para o lado, a maioria foi mesmo para levar o jogo para a frente e parte dessa maioria de passes foi de média ou de longa distância. Na história deste jogo fica que Kroos é um alienígena a marcar cantos mas um humano a passar, falhou seis, LOL - tem agora 232 passes feitos e 225 bem-sucedidos, 11 passes para trás com sucesso em 11 realizados, 42 passes curtos todos bem feitos, 122 passes médios tentados em que 118 saíram bem, nove passes longos com sucesso entre os 10 que fez. O companheiro de equipa no Real Luka Modric tem igualmente dois jogos feitos neste Euro e leva 88% de eficácia de passe e o "humano" Kroos - viram as aspas irónicas? - tem 97%. Kroos vai acabar a carreira da única maneira certa para alguém como ele: sem ninguém dizer que está velho.

A surpresa do jogo: a Hungria

A Hungria teve oportunidades de golo claras ou muito claras ao minuto 1 (Sallai), aos 26 (Szoboszlai), aos 29 (Szoboszlai), aos 58 (Varga), aos 89 (a melhor, por Orbán, cortada em cima da linha por Kimmich); ao intervalo tinha sete remates para oito da Alemanha; quando a Hungria sofreu o segundo golo (67') só tinha menos dois remates que os alemães e só dali em diante é que a diferença aumentou (ficou 19-10 no fim). A Hungria nunca fez sentir que podia vencer o  jogo, o mérito disso é da Alemanha porque não houve demérito húngaro - a Alemanha é simplesmente mais forte e provou isso -, mas os húngaros mostraram que às vezes não dá mesmo para ganhar mesmo quando se dá tudo o que se tem. E eles deram e isso é que está certo e decente.

Post scriptum

Sandro Wagner (à direita na imagem em baixo), adjunto de Julian Nagelsmann (à esquerda), tem mesmo algo de José Fonte (ver aqui). Precisava muito de fazer este desabafo palerma, já não aguentava este peso, obrigado por me ouvirem. Agora sim, posso ir para casa. Até amanhã.

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