Futebol ao sol e à sombra, como escreveu Eduardo Galeano: 15h30, casa cheia, gente de sorriso no rosto. Que bonita é uma matiné de futebol! Que raro é isto acontecer para a Liga Portuguesa, no Dragão – há quase meia dúzia de anos que não havia jogo neste horário (desde dezembro 2018).
Parecia as Antas nos idos 90 num duelo com um histórico, embora já sem o aroma marroquino do futebol de Hassan ou Hadjry pelos leões de Faro, ou a classe de Deco e o instinto matador de Jardel pelos dragões da Invicta.
Há protagonistas diferentes e «do banco o Farense partiu a ganhar», como disse na véspera Vítor Bruno, comparando os seus cinco jogos como técnico principal contra os quase 500 de carreira de José Mota.
O técnico portista remodelou a defesa, recuperou João Mário (por troca com Martim Fernandes) e lançou de início os reforços Nehuén Pérez e Francisco Moura, adiantando Galeno e tendo deixado de fora também Zé Pedro e Vasco Sousa. Dos restantes Samu Omorodin ficou no banco, adiando por mais um jogo a sua assunção como titular na frente de ataque; e Fábio Vieira, lesionado, Tiago Djaló e Deniz Gül não constaram sequer da ficha de jogo.
Matiné com suspense
O entusiasmo da matiné deu lugar a um filme de suspense, que se prolongou até ao intervalo.
O 4-2-3-1 portista balanceado para o ataque até encostou o Farense às cordas, sem, contudo, chegar ao KO. Era como um Rocky Balboa vigoroso no ringue, porém com uma série de uppercuts falhados.
Logo aos 3m, já se gritava golo quando João Mário rematou cruzado ao poste. No minuto seguinte, Galeno com tudo para fazer golo falhou a baliza e a ansiedade cedo começava a tomar conta das bancadas. Pepê, Nico, Otávio, Galeno de novo foram falhando oportunidades, enquanto o Farense encostado à sua área em 20/30 metros resistia com Ricardo Velho e desdobrava o seu 5-4-1 sem nunca perder o sentido da baliza adversária.
Os 71%-29% de posse de bola e 13-7 em remates ao intervalo atestavam o domínio portista, que viria a consubstanciar-se por Galeno logo a abrir a segunda parte.
Aplaudido ao minuto 13, após a transferência falhada para o Al Ittihad, o extremo portista fez o Dragão vibrar ao converter um penálti por si sofrido, após um erro infantil de Marco Moreno.
No entanto, apesar de remodelada, a defesa portista ainda treme. E Otávio, o único da linha recuada que ficou de Alvalade, voltou a cometer um erro pela segunda jornada seguida. Desta vez, escapou-se Tomané, que com toda a frieza gelou o Dragão.
Dragão: do gelo à chama
Com o empate restabelecido três minutos depois, o caldeirão portista acabaria por aquecer até entrar em ebulição.
O minuto 65 é paradigmático de como ferviam os mais de 47 mil adeptos nas bancadas: Nico atirou ao poste e logo de seguida Pepê falhava um dos seus clássicos golos cantados. Cinco minutos depois, Galeno disparava uma bomba à barra e no minuto seguinte falhava na cara de Ricardo Velho.
Houvesse cabeça fria e o golo acabaria por chegar.
Seria Samu fazer o Dragão soltar a chama até explodir de alegria. Dez minutos depois de entrar, o investimento de peso para o ataque começou a render juros. Poderosíssimo, o ponta de lança sub-21 espanhol aproveitou uma recarga para encontrar por fim fazer a festa, com o Farense a reclamar um pisão sobre Poloni.
Depois de tanta produção ofensiva, estava ali o lucro merecido. Mesmo que o golo não acontecesse, ficou sempre a ideia de que este novo FC Porto de Vítor Bruno valoriza mais a qualidade técnica, a criatividade; e que, assim sendo, tem mais soluções do que na época passada contra equipas que se fecham num bloco baixo.
Nesta nova era do Dragão, o ar é menos rarefeito e o ambiente mais distendido. Respira-se melhor, há mais sorrisos e uma alegria que contagia quase por osmose das bancadas para o relvado.
Esta tarde, depois do sufoco, houve inspiração (clareza e não apenas transpiração) e, por fim, um merecido suspiro de alívio.