Um filósofo do futebol, ávido por conhecimento e com uma inteligência emocional evoluída, o que lhe permite seduzir os outros a seguirem-no, em vez de simplesmente os obrigar a fazê-lo. Assim é o sucessor de Martín Anselmi no banco do FC Porto, Francesco Farioli, italiano de 36 anos que em pouco tempo passou de responsável pelo treino de guarda-redes a um dos nomes mais entusiasmantes nos bancos do Velho Continente, muito às custas de um futebol de posse e pressão alta, bem mais ao estilo ibérico do que propriamente transalpino.
Natural de Barga, na Toscânia, Farioli é muito mais do que um treinador de futebol. Desde muito cedo que cultiva um espírito crítico evoluído, que o ajuda a ter uma visão holística sobre o jogo. Encara-o mesmo como «um reflexo e uma metáfora para a vida», tal como escreveu o Ajax aquando da sua apresentação, há sensivelmente um ano.
Em Amesterdão, viveu o ano mais esperançoso, mas também traumático, da sua ainda curta carreira. Um pouco à semelhança do que agora sucede no FC Porto, Farioli chegou ao Ajax com a tarefa de reerguer um histórico do futebol europeu, que vinha de um dececionante quinto lugar no campeonato neerlandês. Conseguiu-o, em parte, com uma prestação categórica na Eredivisie até à 29.ª jornada, que concluiu com nove pontos de vantagem para o segundo classificado, o PSV.
Tudo parecia encaminhado para o regresso aos títulos dos Lanceiros, mas uma reta final de temporada terrível, com apenas uma vitória nos últimos cinco jogos, permitiu a ultrapassagem ao rival de Eindhoven e o consequente adeus ao título.
Farioli reagiu a tudo com isso com pragmatismo, o mesmo que lhe permite ver para além do óbvio. «É uma lição muito difícil de aprender, mas é o que é. Não me arrependo de nada», disse. Nem mesmo de ter perdido o nascimento do segundo filho, em dezembro do ano passado, para ficar a trabalhar em Amesterdão. «Tenho as minhas obrigações como pai e treinador, mas vou dar o meu melhor para conciliar tudo», partilhou, na altura.
O seu perfil, discreto, contrasta com o da sua companheira, Agata Alonzo, que em 2008 participou no concurso Miss Itália, então com 17 anos, e, mais tarde, ficou famosa pela participação em reality shows em Itália. É também jornalista e, numa entrevista, confessou que os rumores de mercado são o que mais gosta de acompanhar. E como este verão promete ser agitado no Dragão…
Juntos desde 2019, têm dois filhos. A mais velha, Lea, parece ter herdado o gosto pelo futebol dos progenitores. Na chegada à cidade do Porto, perguntou ao pai se podia ir buscar as chaves do Estádio do Dragão, ela que pedia, amiúde, para visitar a Arena de Amesterdão nas folgas de Farioli, como o próprio contou numa ronda de perguntas de adeptos do Ajax.
Fã de Guardiola e do 4-3-3
O pouco tempo livre de que dispõe é passado com a família. Tudo o resto é futebol. Fã de Pep Guardiola, pela sua capacidade de se reinventar, Francesco Farioli é também ele um treinador que procura promover um futebol de autor.
O ponto de partida é o 4-3-3, que tanta história tem no FC Porto, mas é nas dinâmicas criadas que as suas equipas se transcendem. Ter a bola é algo que todos devem prezar, assim como sufocar o mais possível o adversário quando este a tiver em seu poder.
Foi assim que deu nas vistas na Turquia, no Karagumruk e, sobretudo, no Alanyaspor, que conduziu ao quinto lugar na Liga local, em 2022.
Farioli não ficou até ao fim na época seguinte, no Alanyaspor, mas o Nice não se esqueceu das coisas boas que fez até aí e chamou-o para a mais competitiva Ligue 1. Foi quinto classificado em 2023/2024 com a melhor defesa do campeonato, apenas 29 golos consentidos. Nessa temporada, só Real Madrid, Bayer Leverkusen e Inter sofreram menos, nas ligas do Big 5. Na época seguinte, nos neerlandeses do Ajax, tornou a conseguir o melhor registo defensivo do campeonato, com 32 golos sofridos.
Se está a pensar que Farioli é, afinal, um técnico de cariz mais defensivo, desengane-se. «Não é um treinador com uma matriz tipicamente italiana. Aproxima-se mais de uma escola de treinadores mais portuguesa ou espanhola, de treinadores que gostam de dominar o jogo, de ter a posse da bola, a iniciativa no jogo e de jogar em campo contrário», explica João Carlos Pereira.
O próprio Farioli já tratou de desmistificar essa ideia. «Não sou um treinador defensivo, mas alguém que consegue libertar os jogadores e fazer com que criem muitas oportunidades no último terço do terreno. É isso que tento fazer todos os dias no banco», admitiu, numa entrevista ao canal de Youtube Cronache di Spogliatoio.
Esse perfil foi desenvolvido, sobretudo, após se ter juntado, em 2015, à Aspire Academy, no Qatar, onde conheceu João Carlos Pereira. O português, hoje presidente do Marinhense, era na altura coordenador geral do projeto, e Farioli treinador dos guarda-redes.
«Era uma pessoa inquieta por conhecimento, que fazia muitas perguntas. Procurava satisfazer a sua curiosidade e envolvia-se em grupos de discussão. Não tinha problemas em bater à minha porta ou em ir ter comigo para fazer perguntas ou partilhar ideias. É ávido por conhecimento», recorda João Carlos Pereira, ao Maisfutebol.
Foi por essa altura que Farioli publicou um artigo na plataforma Wyscout sobre a forma de jogar do Foggia, à data orientado por Roberto de Zerbi, que gostou do que leu e convidou-o para a sua equipa técnica em 2017, ano em que orientou o Benevento na Serie A.
A paixão pelo lado estético e pelo controlo do jogo com bola uniu-os de imediato. Trabalharam juntos durante três épocas, as últimas duas passadas no Sassuolo, sempre com Farioli responsável pelo treino dos guarda-redes.
«Keep it simple»
Ainda que tenha crescido a admirar craques do Calcio como Alessandro Del Piero, Paolo Maldini ou Francesco Totti, o gosto de Farioli pelas balizas vem dos tempos da sua juventude, quando defendia a do modesto Margine Coperta, onde também iniciou o percurso como treinador, no início da década passada.
Foi igualmente inspirada nos guarda-redes a tese «O futebol como renascimento: a estética do jogo e o papel do guarda-redes», que publicou depois de ter completado o curso de Filosofia, na Universidade de Florença.
Culto, curioso por natureza e apologista de um futebol atrevido e complexo, Francesco Farioli procura a simplicidade em tudo o resto. «Keep it simple», que se traduz num porreiro «Não compliques», é um dos lemas que procura seguir no seu quotidiano.
Da roupa que gosta de vestir, em tons azul-marinho e negros, ao corte de cabelo, que apara uma vez por semana, Farioli gosta de levar a vida a bem. É fã dos tenores italianos Luciano Pavarotti e Andrea Bocelli, e tem no quadro «Viandante sul mare di nebbia», de Caspar David Friedrich, a sua obra de eleição.
Toda essa bagagem ajuda-o a ter uma perspetiva mais abrangente da vida e do futebol. «É uma pessoa extremamente inteligente e, do ponto de vista da inteligência emocional, é bastante evoluído. É alguém de relações fáceis, afável e simpático. Vai aproximar-se bastante dos jogadores. É um líder que não se impõe, mas que conquista e seduz as pessoas a segui-lo», assinala João Carlos Pereira.