Mário Branco: «Paus, facas e até o espigão da bandeira de canto apontado aos meus jogadores» - TVI

Mário Branco: «Paus, facas e até o espigão da bandeira de canto apontado aos meus jogadores»

Mário Branco, diretor desportivo do Fenerbahçe (DR)

Diretor desportivo do Fenerbahçe recorda, em exclusivo ao Maisfutebol, os incidentes ocorridos, na noite deste domingo, após o triunfo na casa do «rival» Trabzonspor (2-3). Do «camarote privado» ao relvado, Mário Branco sublinha que o futebol espelha a sociedade «exacerbada».

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A noite deste domingo perdurará na memória de Mário Branco como «perturbadora». Isto porque o diretor desportivo do Fenerbahçe assistiu, na primeira pessoa, à confusão que «engoliu» a sua equipa após o triunfo no reduto Trabzonspor (2-3), em encontro da 30.ª jornada da Liga.

«As imagens são elucidativas da gravidade dos incidentes, mas parecia que estava a adivinhar este desfecho, porque na segunda parte praticamente não se jogou. O encontro foi interrompido duas ou três vezes, por arremesso de garrafas, caixas de plástico e isqueiros, que atingiram o Fred, o Tadic ou o Samuel Osayi», começa por descrever, em entrevista ao Maisfutebol.

Mário Branco, que assistiu à maioria da partida no camarote privado, reservado à comitiva visitante, diz-se «surpreso» por o encontro ter sido disputado até ao fim.

«A área lateral do campo estava cheia de plástico, o que dificultava a ação dos jogadores. Para nós foi uma surpresa o jogo não ter terminado mais cedo. Na segunda parte sofremos dois golos, o primeiro na sequência de um livre que demorou quatro minutos para ser marcado, uma vez que o nosso guarda-redes foi molestado pelos adeptos. Só a interferência ilegal do público permitiu ao adversário repor a igualdade», argumenta.

Em todo o caso, a ira proveniente das bancadas não visava apenas quem vestia de amarelo e azul dentro de campo: «Estive no camarote [privado] e houve tentativas de agressão, com o arremesso de objetos. Aliás, uma garrafa vinha em direção à minha cara, mas consegui agarrá-la».

Longe de imaginar o que se seguiria, o diretor do Fenerbahçe desceu ao relvado nos últimos minutos, a fim de evitar qualquer desaguisado. Aquando do derradeiro apito de Halil Humut Meret – árbitro agredido em dezembro – Mário Branco dirigiu-se ao juiz, trocou algumas impressões sobre as peripécias da partida, e juntou-se às celebrações no meio-campo.

«Fomos superiores e tivemos coragem para ganhar o jogo, porque foi muito difícil, sobretudo em termos psicológicos. A deslocação mais complicada, precisamente pelo ambiente no estádio, é o Trabzonspor. Festejamos no centro de campo, tal como eles fizeram na primeira volta, sem que nada lhes tenha acontecido», conta o português, de 48 anos.

 

Todavia, a frustração dos adeptos da casa estendeu-se ao relvado quando um solitário «ultra» escapou aos seguranças e, de punhos cerrados, enfrentou jogadores e dirigentes do Fenerbahçe. A resposta de Samuel Osayi – que agrediu o adepto em causa – agravou os ânimos, sendo o mote para a batalha campal.

«Vi paus, facas e até o espigão da bandeira de canto apontado aos meus jogadores. Tiveram a integridade física em causa, defenderam-se e corremos para o túnel. E, lá, ainda houve algumas agressões, de alguns jogadores [do Trabzonspor] que não se comportaram à altura e não percebiam o sucedido», recorda Mário Branco.

Seguiram-se duas horas no balneário, sucessivas chamadas das famílias dos jogadores e o rebobinar de momentos inéditos.

«Foi a primeira vez que vi adeptos saltarem das bancadas e armados. O que me mais me perturbou foi o ódio nos olhares. Agora, tenho jogadores estrangeiros que, antes de viajarem para as respetivas seleções, puseram em causa regressar à Turquia. São reações a quente, mas estes incidentes em nada abonam a favor do futebol turco. Há jogadores com escoriações e arranhões», lamenta.

 

«Fomos atacados e tentámos nos defender»

Na manhã desta segunda-feira, o presidente da FIFA recorreu às redes sociais para repudiar estes atos de violência. Questionado sobre eventuais castigos a aplicar a Samuel Osayi ou Michy Batshuayi, por agredirem adeptos, Mário Branco argumenta que os jogadores agiram em «legítima defesa».

«A nossa comitiva conta com cerca de 50 elementos e estávamos perante um estádio com 40 mil pessoas. Fomos atacados, em todas as direções, e tentámos nos defender. As imagens são esclarecedoras. Os atletas, depois de 100 minutos intensos, tiveram de usar o corpo para se protegerem, enquanto defendiam o símbolo e a instituição que representam», riposta o português.

Por isso, Mário Branco aguarda as providências da justiça turca, enquanto 12 adeptos já foram detidos e outros cinco permanecem em custódia policial. Em simultâneo, revela o português, a direção do Fenerbahçe reunirá esta segunda-feira.

Este não é o primeiro embate entre a equipa do Fenerbahçe e os adeptos do Trabzonspor. Em 2015, enquanto se deslocava para o estádio dos «rivais», o autocarro do emblema de Istambul foi alvejado, a tiro, sem que nenhum suspeito tenha sido identificado. Desde então, conta Mário Branco, a tensão e a rivalidade agravaram-se.

«Focado em terminar a minha missão»

Na Turquia desde junho de 2022, depois da passagem por Famalicão, Mário Branco integrou a equipa técnica de Jorge Jesus e foi responsável pelas contratações sonantes de Bonucci, Fred, Dzeko e Tadic. Pouco, ou nada, intimidado pelos incidentes relatados, afirma estar de pé e cale no Fenerbahçe, pelo menos até 31 de maio.

«Estou focado em terminar a minha missão. Estamos no segundo lugar da Liga, vamos disputar a Supertaça [a 7 de abril, frente ao Galatasaray], e estamos nos “quartos” da Liga Conferência. Tenho contrato e não é esta situação que me vai fazer desistir», reitera.

Ainda que tenha exercido o cargo de diretor desportivo nos gregos do PAOK e nos croatas do Hajduk Split, Mário Branco garante que nunca viveu um descalabro deste nível. Mas, sublinha, este problema não é sinónimo de «recuo no tempo».

«É o reflexo da sociedade, cada vez mais exacerbada, em todas as atividades, como a política e a economia. E não é só na Turquia, também em Portugal já aconteceram incidentes semelhantes. Portanto, este é um problema transversal e algo que devemos erradicar», conclui.

 

Mário Branco, outrora «scout» em Espanha, Polónia e Roménia, exerceu a função de diretor desportivo no Leixões e Estoril. Pelo meio, trabalhou com os romenos do Astra Giurgiu.

Quanto ao Fenerbahçe, os comandados de Ismail Kartal são segundos na Liga, com 79 pontos, menos dois face ao Galatasaray, e mais 30 para o Trabzonspor.

Nesta Liga – destino frequente entre os portugueses – atuam jogadores como Sérgio Oliveira (Galatasaray), Gedson Fernandes (Besiktas), Rochinha (Kasimpasa), Sequeira (Pendikspor) ou Nani (Adana Demirspor). Além disso, Fernando Santos é, desde janeiro, timoneiro do Besiktas (4.º).

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