“Viviam sozinhos mas eram autónomos”, dizem os vizinhos: duas pessoas com 88 anos, um casal, morreram esta quinta-feira dentro da própria casa em Fernão Ferro, Seixal - ficaram encurralados pela água que subiu de forma repentina durante a madrugada, água que veio da rua, da rua alagada pela chuva.
"O que sabemos é que houve um aluimento de terras que provocou a inundação da casa e, claro, as pessoas, idosas, já com a mobilidade mais reduzida, tiveram algumas dificuldades para conseguir, presumimos nós, sair de casa. Foi então que se deu esta tragédia que a todos nos toca e nos choca bastante”, refere Rui Pereira, presidente da Junta de Freguesia de Fernão Ferro.
As vítimas viviam sozinhas mas recebiam diariamente apoio da Segurança Social, sendo visitadas pela família aos fins de semana. A habitação, sabe-se agora, não reunia as condições básicas para ser legalizada.
“A nossa freguesia, a seguir ao 25 de Abril, começou a crescer de forma ilegal. Ou seja, a pessoa vinha para cá, construía de forma desorganizada e ilegal. Ao longo dos anos tem-se feito um grande trabalho nesta reconversão urbanística. Grande parte da freguesia já está legalizada, mas há zonas que ainda estão mais atrasadas e aquela zona onde ocorreu esta tragédia é um desses locais onde está mais demorado”, afirma Rui Pereira.
Segundo o presidente da Junta, o imóvel “não reunia as condições necessárias para ser legalizada” e exigiria “outras obras de manutenção”. “Não temos conhecimento do plano ao pormenor daquela zona, mas sabemos que toda aquela área faz parte da AUGI [Área Urbana de Génese Ilegal], que está a ser legalizada e está a ser trabalhada. Possivelmente daqui a mais uns tempos estaria tudo devidamente correto.”
Rua transformada num rio
Durante a madrugada, a rua transformou-se num verdadeiro rio. Vizinhos relataram um cenário caótico num local onde “ninguém conseguia atravessar”. Alertados para a situação, GNR, bombeiros e familiares foram os primeiros a chegar ao local. Perante a intensidade de água e a impossibilidade de entrar pela porta, os bombeiros viram-se obrigados a arrombar uma janela, encontrando no interior as duas pessoas já sem vida.
A subida repentina das águas fez com que o casal não conseguisse, alegadamente, alcançar um botão de pânico que tinham na residência. Este botão estaria ligado a um serviço de teleassistência disponibilizado por várias autoridades públicas como GNR, PSP e algumas câmaras municipais e ainda organizações como a Cruz Vermelha, havendo também modalidades semelhantes publicitadas sob forma de subscrições por empresas de alarmes ou de seguros. Usualmente destinam-se a casos de solidão e a vítimas de violência doméstica.
Equipas forenses foram posteriormente mobilizadas para o local para perceber as circunstâncias do ocorrido.
"Problema arrasta-se há 30 anos ou mais" e todos sabem dele
A população local e a autarquia apontam agora o dedo à falta de escoamento e às obras recentes que, segundo dizem, agravaram a situação. “Ninguém pode dizer que não conhece este problema, já é algo que se arrasta há 30 anos ou mais. Ultimamente, com maior caudal de água, fruto de algumas restrições que foram feitas às valas reais existentes, muitas não estão limpas, muitas não estão com a sua necessária manutenção, e depois provoca tudo isto, ou seja, a água”, diz Rui Pereira.
Questionado sobre a responsabilidade da Junta de Freguesia, o autarca afirma que “esta estrada é uma estrada nacional, pertence às Infraestruturas de Portugal”. Ainda assim, garante que a Junta tem procurado intervir "dentro das suas limitações". “Temos feito alguma coisa, não é o suficiente, reconheço, mas temos feito para minimizar o impacto. Só que esta estrada precisa de uma reconversão total, valas à dimensão da estrada, piso novo, aquedutos que permitam que a água escoe de forma mais fácil.”
O presidente da Junta revelou ainda que, “em janeiro do próximo ano, a estrada iria começar a arrancar as obras de recodificação”. “Mas, sinceramente, não creio que isso esteja previsto. Seria muito salutar, mas até hoje ainda não temos qualquer notificação nesse sentido.”
Sobre o risco de existirem mais situações semelhantes, Rui Pereira admite que há “situações débeis” na freguesia, mas garante que, para já, “nada motiva a retirar as pessoas de casa neste momento”.
Além das duas vítimas mortais, foram registadas mais de 450 ocorrências desde as 14:00 de quarta-feira na Península de Setúbal, segundo o comando sub-regional de Emergência e Proteção Civil da Península de Setúbal. O distrito esteve em alerta vermelho esta quinta-feira devido à depressão Cláudia, que têm afetado o território continental e a Madeira, com precipitação intensa, acompanhada de trovoada e granizo.