Israel intercetou a flotilha humanitária quando Gaza estava à distância de menos de 24 horas de viagem: minutos antes disso, Miguel Duarte dizia à CNN Portugal que ou Israel intervém "hoje" ou a flotilha "chega a Gaza amanhã". O "hoje" de Miguel Duarte era quarta-feira e Israel interveio mesmo; por isso o "amanhã", que é esta quinta-feira, continua a ter Gaza, ou o que resta dela, mas é uma Gaza aonde a flotilha não chegou. Mariana Mortágua, líder do Bloco de Esquerda, e Sofia Aparício, atriz, foram detidas primeiro. Miguel Duarte foi intercetado mais tarde - antes disso, Joana Mortágua - irmã de Mariana Mortágua - ainda tinha conseguido falar com ele e anunciou que Miguel Duarte estava livre. Já não está.
Nota prévia: os ativistas atiraram os telemóveis para o mar. Mas antes de se explicar por que motivo o fizeram, primeiro isto: o momento da primeira interceção ocorreu enquanto a deputada do Bloco de Esquerda fazia um direto para o Instagram a explicar como Israel estava a abordar uma série de embarcações. Depois, Mariana Mortágua indicou que os israelitas pediram para falar com o capitão da embarcação. O direto terminou pouco depois, ouvindo-se um "mãos no ar".
À CNN Portugal, Jorge Costa, do Bloco de Esquerda, garantiu que o partido estava em contacto com Mariana Mortágua até "há minutos, quando se ouviu a voz de um soldado israelita exigindo aos participantes da flotilha que pusessem as mãos no ar". A partir daí, "foi cumprida a ordem que estava estabelecida entre os participantes para que os telemóveis fossem atirados ao mar para garantir a segurança dos contactos e das informações desses aparelhos". "Desde esse momento, não sabemos mais informações sobre a Mariana Mortágua, a Sofia Aparício e o Miguel Duarte."
Pouco tempo antes da interceção, a conta oficial da Flotilha Global Sumud indicava que várias embarcações integradas na flotilha estavam a ser “ilegalmente intercetadas”. “As câmaras [das embarcações] estão offline e militares israelitas estão a aceder às embarcações. Estamos ativamente a trabalhar para confirmar a segurança e o estado de todos os ativistas a bordo.”
Entretanto, num comunicado oficial, a Marinha israelita ordenou aos barcos da flotilha humanitária com destino a Gaza que mudassem de rumo. As autoridades entraram "em contacto com a flotilha" e pediu-lhes que "mudassem de rumo", escreveram as autoridades israelitas. "Israel informou a frota que se aproximava de uma zona de combate ativa e que estava a violar um bloqueio naval legal. Israel reiterou a oferta de transferir toda a ajuda de forma pacífica por canais seguros para Gaza", acrescentou a mensagem divulgada pela diplomacia israelita.
O áudio
Minutos antes das detenções de Mariana Mortágua e Sofia Aparício, a CNN Portugal falou com Miguel Duarte, que estava a bordo da embarcação Family Madeira - e que contou como os membros da missão humanitária temiam pela sua segurança. Enviou um ficheiro áudio à CNN Portugal, este:
“Neste momento, a violência com que Israel vai intervir não depende de nós, depende dos nossos governos", diz Miguel Duarte no áudio. "Portanto, se os nossos Estados não intervierem, Israel pode entender que não tem nenhum custo político em fazer-nos mal e entrará de forma violenta”, afirmou o ativista português - que, horas antes da operação israelita, pediu uma resposta mais forte por parte das forças diplomáticas portuguesas. “Se Israel entender que os nossos Governos se atravessarão, então pensará duas vezes. Neste momento está fora das nossas mãos”.
Quando Miguel Duarte falou com a CNN Portugal, os membros da missão humanitária, que tinham previsto chegar a Gaza durante esta quinta-feira, estavam a preparar-se para uma intervenção mais musculada de Israel, num momento em que não havia qualquer garantia de segurança para quem estava a bordo. “Na verdade, não existe nada que esteja garantido em termos de segurança para nós próprios. Esperamos que o custo político de nos fazer mal seja demasiado alto para Israel o aceitar - mas não sabemos”, diz Miguel Duarte no áudio que enviou à CNN Portugal.
Há cerca de um mês em navegação - e com o objetivo de romper o bloqueio israelita e entregar mantimentos à Faixa de Gaza -, a flotilha transportava mantimentos para menores, farinha, arroz, fraldas, produtos sanitários femininos, kits de dessalinização de água, suprimentos médicos, muletas e próteses infantis. Nenhum dos alimentos foi até ao momento descartado. “Transportamos essencialmente bens não perecíveis. A ajuda humanitária que transportamos para Gaza não está em risco de apodrecer, isso não é um problema.”
Barcos de Espanha e Itália foram embora, Marcelo promete ajuda
A flotilha Global Sumud é composta por mais de 40 barcos civis e transporta mais de 500 pessoas. Na semana passada, os barcos foram atingidos por drones armados com granadas de atordoamento e substâncias irritantes enquanto navegavam nas águas internacionais da Grécia.
Depois disto, os Governos de Itália e Espanha enviaram meios navais para dar assistência às embarcações. Esse auxílio foi entretanto desmobilizado. “Na verdade, já deram meia volta, já se foram embora, não passaram das 150 milhas de Gaza”, explica Miguel Duarte no áudio. “Por muito que o bloqueio seja ilegal, estas embarcações ainda assim rejeitaram andar por águas internacionais para proteger a ajuda humanitária que deve chegar a Gaza.”
Além disso, conta, “instaram-nos a voltar para trás - portanto, de algum modo tentaram sabotar a nossa missão”. Nos últimos dias, o Governo italiano anunciou que iria parar de acompanhar a flotilha e a presidente Giorgia Meloni chegou a sugerir que a missão humanitária era uma tentativa de perturbar o plano de paz proposto por Donald Trump. “Receio que a tentativa da flotilha de romper o bloqueio naval israelita possa servir de pretexto para isso”, afirmou Meloni.
Também o Governo de Luís Montenegro afirmou que, nas últimas horas, existia um “registo de perigosidade”, mas considerou que o seu Executivo fez “aquilo que era adequado”. Um dia antes, o Ministério dos Negócios Estrangeiros fez um apelo aos ativistas portugueses para que se “mantenham em águas internacionais”. “Sem pôr em causa o respeito pela autonomia individual, deixamos este novo apelo e recordamos que há disponibilidade efetiva para fazer chegar a ajuda humanitária que transportam a Gaza através de Chipre”
Interpelado sobre se houve contactos com o Governo de Israel no sentido de proteger os cidadãos nacionais que integram esta iniciativa humanitária, o primeiro-ministro respondeu que há “uma preocupação em garantir que não há nenhum acidente e que a segurança destas pessoas não é posta em causa”. Entretanto, Marcelo prometeu apoiar os portugueses detidos por Israel.
A Flotilha Global Sumud é considerada a maior flotilha organizada até ao momento. Entre os participantes de mais de 40 nacionalidades constam três portugueses: a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, o ativista Miguel Duarte e a atriz Sofia Aparício.