O Lens está a traçar o caminho para criar uma daquelas histórias memoráveis do futebol. Uma modesta equipa francesa, pouco conhecida ou até mesmo desconhecida para o adepto comum, é atualmente líder isolada da Ligue 1.
Por trás deste sucesso surpreendente, há uma gestão de elite, contratações milimétricas e uma aposta num treinador que cedeu o lugar a Paulo Fonseca no Lyon.
O Maisfutebol esteve à conversa com jornalistas franceses, que abriram o livro sobre as razões do sucesso e as expectativas para esta reta final de época.
O Lens encontra-se em primeiro lugar com 43 pontos - menos um do que o segundo, PSG. Desde o regresso ao principal escalão, em 2021, a equipa do norte de França terminou, por norma, entre o sétimo e o oitavo lugar.
«Vê-los no topo da Liga em janeiro foi algo que poucas pessoas poderiam imaginar. No início da temporada, o objetivo era simplesmente evitar a descida, com uma possível disputa por uma vaga europeia se as coisas corressem bem», começou por referir Valentin Carpentier, jornalista do canal da Ligue 1+.
Jean Bommel, jornalista da RMC Sport, enalteceu o número de vitórias. O Lens bateu, inclusive, o recorde de vitórias seguidas do clube: são já dez consecutivas (nove para a Liga e uma para a Taça).
«É uma ótima surpresa, mas também é trabalho. Não ganhamos tantos jogos por acaso. 14 em 18 é enorme. É um fenômeno que não estava previsto, mas quando se olha de mais perto, tem muitos elementos que são positivos», atirou.
O primeiro ponto que vale ressaltar é, de facto, o trabalho conjunto entre a direção e toda a estrutura do clube, como realça Jean Bommel. «Construíram uma equipa em que todas as estrelas estão alinhadas. Todos entendem-se bem e discutem muito entre eles, então tudo é fluido. É a base para explicar um pouco esse fenômeno», referiu.
Porém, há mais um fator predominante que ajuda a explicar o arranque de temporada: o mercado de verão. O Lens perdeu figuras importantes da temporada passada. Viu-se, portanto, obrigado a reinventar-se de forma milimétrica.
«Cada nova contratação teve um impacto quase imediato», começou por referir Valentin.
Um dos nomes que salta logo à vista é o de Thauvin, campeão do Mundo por França em 2018. «É um pouco o pai dos jovens, inspira e faz evoluir a equipa», atirou Jean Bommel. O avançado de 32 anos trocou a Udinese, de Itália, pelo Lens, regressando assim ao país natal. As boas exibições fizeram, até, com que Thauvin regressasse à seleção francesa seis anos depois.
Mas a lista de boas contratações não fica por aqui.
Samson Baidoo, defesa-central de 21 anos, é internacional pela Áustria e reforçou o clube vindo do Red Bull Salzburgo. Para Valentin, Baidoo é «já um dos melhores defesas da Ligue 1».
Ainda no eixo defensivo, Mathieu Udol também merece destaque. O lateral esquerdo ex-Metz vem acrescentar «experiência» ao plantel, como conta Bommel. «Ele é tão bom que falamos dele para a seleção francesa», confessou.
Passando para o ataque, Odsonne Édouard é o nome a ter em conta. O ponta-de-lança francês teve uma passagem, sem sucesso, por Inglaterra (Crystal Palace e Leicester City). «Chegou com o objetivo de relançar a carreira, e já foi um sucesso: 8 golos em 16 jogos. É o melhor marcador do clube, a par de Wesley Saïd», atirou Valentin.
Na baliza, Robin Risser, guarda-redes de apenas 21 anos formado no Estrasburgo, agarrou com as duas luvas a titularidade. «Nunca tinha jogado ao mais alto nível. Hoje, é o guarda-redes da melhor defesa da Ligue 1, com o maior número de jogos sem sofrer golos», referiu Valentin.
Há um reforço que, para Bommel, tem sido predominante: Mamadou Sangaré, médio de 23 anos ex-Rapid de Viena. «Talvez o reforço mais importante. É uma das revelações no meio do campo, porque é extraordinário», reforçou.
Há também uma figura chave: o homem do leme. Pierre Sage, técnico de 46 anos. Na temporada passada liderou o Lyon, tendo sido despedido e substituído por Paulo Fonseca a meio da época. «A saída [do Lyon] foi recebida com desapontamento. Hoje, é considerado um dos melhores treinadores da Ligue 1», atirou Valentin.
Bommel recordou a chegada de Pierre Sage ao Lyon. Em 2023/24 pegou na equipa na última posição da Liga e terminou a temporada em sexto, garantindo classificação para a Liga Europa. No que toca ao Lens, o técnico francês soube ambientar-se facilmente.
«Pierre Sage integrou-se rapidamente na região. Visitou sítios importantes na região, integrou-se. Ele entende como funciona este clube, como funcionam os fãs. Tem uma inteligência e uma adaptação que é muito importante», atirou.
Ao fim de 18 jornadas, o Lens já conta com o dobro de vitórias em comparação com a temporada passada - 14 contra sete. Por esta altura, em 2024/25, eram sétimos com 27 pontos.
O PSG, que na temporada passada foi campeão muito cedo, tinha 46 pontos ao fim de 18 jornadas. O Lens tem apenas menos três (43). Para Jan Bommel, a equipa de Pierre deverá, no mínimo, garantir um lugar na Champions.
«Se não se classificarem para a Liga dos Campeões, acho que teremos de ficar dececionados. Obviamente que ser campeões seria excecional, sobretudo contra o PSG, que hoje é a melhor equipa do Mundo», referiu.
O Lens não é campeão francês desde 1998. Na verdade, foi a única vez que a formação do norte de França conquistou a Ligue 1. «Quanto à disputa pelo título, é difícil dizer. Ainda é muito cedo, especialmente porque não há margem para erros com um PSG que é simplesmente muito forte», referiu Valentin.
Por esse motivo, a hipótese do Lens ser campeão continua, para já, a ser um cenário não muito esperado entre as terras francesas. «Ninguém está a falar claramente sobre o Lens ser campeão cá no norte de França. Teremos de esperar até abril», concluiu Bommel. O PSG, recorde-se, é tetracampeão francês.
Na temporada 2022/23, o Lens terminou em segundo lugar com 84 pontos - apenas menos um do que o campeão PSG. Neste caso, repetir essa façanha - e garantir um lugar direto na Champions - já tornaria esta época numa narrativa memorável na história do futebol.