Estão vivos, mas já planearam e pagaram o próprio funeral. "A família só tem de aparecer para a cerimónia" - TVI

Estão vivos, mas já planearam e pagaram o próprio funeral. "A família só tem de aparecer para a cerimónia"

Cemitério. Foto de Gabriel Luengas/Europa Press via Getty Images

Das flores à roupa, da música aos contornos da cerimónia. José, Sandra e Graça já têm "tudo tratadinho". Não querem deixar assuntos delicados para quem cá fica e querem garantir que as suas últimas vontades serão respeitadas. Garantem que não querem atrair a morte, mas encaram a decisão de preparar o próprio funeral como um ato de amor. Outro exemplo é o de Maria, que, quando morreu, tinha pensado mesmo em tudo. Até na forma como os filhos iriam secar as lágrimas

José Subtil tem uma jovialidade invejável na voz. E não é para menos: aos 75 anos, feitos este domingo, continua a dar aulas de História numa universidade privada e a somar títulos à respeitosa lista de livros que publicou ao longo da carreira. Apesar de “querer por cá andar muitos anos”, José fala da morte com a mesma naturalidade com que fala da vida. Afinal, “é o que temos mais certo”.

A morte é algo tão natural que até já contratou e pagou o próprio funeral. “Das coisas mais traumatizantes é, para quem cá fica, ter de cuidar do corpo de quem parte. Este tipo de serviço é uma fórmula muito funcional e muito expedita de aliviar os vivos. Para quem vai, a morte é mais uma reflexão metafísica e, para quem é de fé, uma passagem. Mas o corpo tem de ser tratado e alguém tem de resolver aquilo”, justifica.

José Subtil já escolheu cada pormenor do próprio funeral. (Foto: Acervo pessoal José Subtil)

José Subtil tem dois filhos: uma a viver no Reino Unido, onde este tipo de prevenção é já “muito comum”, e outro a viver em Angola. “A mulher que vive comigo também viaja muito, os meus irmãos estão lá para o Norte. Se me acontecer alguma coisa, tenho o assunto resolvido. A família só tem de aparecer para a cerimónia”, acrescenta.

Ainda vivo, José já é cliente de uma das maiores funerárias do país. Contratou um serviço que lhe permitiu deixar escritos todos os pormenores que quer ver respeitados na sua última viagem: “Escolhi as flores - rosas brancas, que acho muito bonitas e adequadas. Escolhi um padre, mas não para dar missa, só para encomendar o corpo, e escolhi uma violinista da Gulbenkian, que toca muito bem e de que eu gosto muito, que vai lá tocar uma música de Schubert para mim”. Além de Shubert, no velório, vai haver Bach e Wagner. “Também gosto de Supertrump, mas achei os outros mais adequados”, brinca.

E já sabe também que vai ser cremado: “Ainda por cima o crematório deles é bom! É asseado, é limpinho e as pessoas são muito atenciosas.”

“Já está tudo tratadinho”

José pagou 4 mil euros pelo próprio funeral, que não sabe quando vai acontecer, mas espera, reforça, “que venha mais tarde do que cedo”. “Foi barato! Até pensava que fosse mais caro. Também havia um serviço que era irem colocar as cinzas ao mar. Mas isso depois dava trabalho a quem cá está que é o que eu não quero”, considera.

O serviço contratado pelo professor José Subtil é o Plano Funeral em Vida, disponibilizado pela Servilusa desde 2012. “Já o fazíamos antes, mas de uma forma mais reativa. Contudo, reparámos que havia uma procura suficiente para nos levar a esta preocupação de profissionalizar a oferta”, explica Paulo Moniz Carreira, diretor-geral de negócios da agência funerária.

Trata-se de uma solução personalizável, “num plano totalmente aberto para preparar o seu próprio funeral como se o estivesse a preparar no próprio dia para outra pessoa”. O cliente pode escolher o caixão, onde vai ser a cerimónia, as flores, a roupa, a música, se vai ser sepultado ou cremado ou até o local da colocação futura das cinzas. O valor depende da peculiaridade dos desejos finais, mas o preço base, atualmente, ronda os 1500 euros.

A funerária faz cerca de sete mil funerais por ano. A esmagadora maioria continua a ser contratada na hora, por terceiros. Mas já estão a vender cerca de 100 por ano, a la carte e aos próprios. “Pedimos sempre uma testemunha na hora da assinatura, para haver uma maior tranquilidade e segurança das opções tomadas e para poder mais facilmente acionar o contrato, no caso de acontecer a fatalidade”, explica Paulo Moniz Carreira.

José Subtil diz que lhe entregaram “uns cartõezinhos”, que já distribuiu a “várias pessoas”, para que, “na hora H, toda a gente saiba que já está tudo tratadinho”.

Cinco pacotes de lenços de papel

Maria Carreira morreu aos 87 anos, em 2012. Não foi precavida ao ponto de deixar tudo pago, mas pensou igualmente em todos os pormenores. A neta, Tânia Neves, conta que a avó preparou tudo com muita antecedência e ia avisando os familiares do que já estava tratado.

“Quando morreu, fomos ao local que ela nos tinha indicado e lá estava a roupa nova (blusa, saia e casaco, camisa interior, cuecas, collants… tudo novo!). Os sapatos ainda tinham papel amarrotado dentro, para não perderem a forma. Guardou também algum dinheiro para pagarmos missas pela alma dela e, junto à roupa, estavam cinco pacotinhos de lenços de papel, um para cada filho”, conta.

Tânia diz que encarou o gesto da avó como um ato de amor e um exemplo que tem pensado em seguir. “Se planeamos e desejamos tantas etapas da nossa vida, porque não fazer o mesmo com a morte?”, questiona.

Eduardo Carqueja é psicólogo e olha para este exemplo com os mesmos olhos com que a neta de Maria o viu: “Sem lhe conhecer o passado, acredito que provavelmente esta senhora sempre foi uma avó e uma mãe muito dedicada e extremamente cuidadora”.

Na verdade, acrescenta o especialista, estas atitudes facilitam a vida a quem, em pleno processo de luto, tem de lidar com decisões importantes e com dúvidas e culpabilidade sobre se está a fazer as opções corretas.

Um vestido com brilhantes e uma urna com “muito glitter”

Eduardo Carqueja trabalha em cuidados paliativos e conhece últimos desejos de muitos que, prestes a partir, vivem a angústia acrescida de não ter a certeza se vão ser cumpridos. Também por isso, defende que quem nos rodeia saber aquilo que desejamos no nosso funeral “devia ser tão natural como saberem a comida de que gostamos”.

“A morte parece que não faz parte da vida. Ela existe. Falando disto, não numa dimensão obsessiva de controlo, é perfeitamente ajustado. É envolver a morte na naturalidade da própria vida”, resume.

Sandra Canada tem 44 anos e um filho com 19. Lida com a morte desde muito cedo, até porque ficou viúva e teve de lidar com toda a burocracia em pleno momento de choque e com um bebé nos braços. Não quer que o filho e o atual marido passem pelo mesmo e, por isso, já está a pagar o próprio funeral e tem escrito todas as decisões que a funerária contratada deve tomar.

Sandra começou a preparar o próprio funeral, depois de lhe ter sido detetado um problema de saúde. (Foto: Acervo pessoal Sandra Canada)

Em 2018, descobriu um problema de saúde que a atirou para os cuidados intensivos de um hospital, em Liverpool, no Reino Unido, onde vive. Conta que, em sete semanas, sofreu 27 convulsões, perdeu a visão, a audição e achou que fosse morrer. A doença tornou-a numa “bomba-relógio” e levou-a a tomar a decisão de preparar o resto da sua vida e dos que cá ficarem e a sua própria morte.

“Decidi comprar uma casa, fazer um seguro de vida. É um seguro que, caso a gente morra, eles é que pagam. O meu funeral está pago e tive de preencher um papel com todas as minhas vontades. Não quero voltar para Portugal (não que tenha alguma coisa contra Portugal, mas foi aqui que fui verdadeiramente feliz), quero que me vistam o vestido com mais brilhantes que eu tiver na altura, quero ser cremada e quero que coloquem as cinzas numa caixinha com muito glitter. No trajeto até à igreja, vou de charrete com cavalos. Na cerimónia, não quero ninguém de preto, quero uma cerimónia rápida. Aqui demoram até um mês e meio para enterrar as pessoas e eu pedi no máximo três semanas”, relata.

50 euros por mês para ter o funeral de sonho

Sandra paga 45 libras por mês (cerca de 50 euros) para ter o seu funeral de sonho. Vai ser assim durante mais três anos. Depois fica com tudo pago. Quando morrer, a seguradora de que é cliente aciona a funerária, que se encarregará de lhe cumprir os desejos.

Está à beira da confirmação do diagnóstico de Alzheimer precoce e começa a apresentar já pequenos sintomas. Por isso, faz questão de lembrar o marido e o filho de que tem este serviço contratado e de quais são os seus desejos. O filho, estudante de medicina, encara bem as conversas da mãe. O marido mostra alguma relutância. “O Bruno gosta de viver um dia de cada vez e não gosta de encarar a hipótese de eu morrer antes dele. Por isso, não gosta de falar disto e chuta para canto. Mas eu faço questão de lhe ir lembrando onde tenho determinados documentos guardados, de tudo o que tenho tratado para ele não ser apanhado de surpresa. Ele despacha-me, mas sei que me ouve”, conta.

O serviço contratado por Sandra Canada é um seguro funerário. Muito comum no Reino Unido e que algumas seguradoras portuguesas já disponibilizam.

A Fidelidade tem dois produtos que permitem aos clientes deixar o funeral pago. “São muito mais do que um seguro de funeral. O Proteção Vital da Família permite a adesão até aos 70 anos e o pagamento de prémios mensais, trimestrais ou anuais, que dão acesso a várias assistências (vida, saúde, acidentes), incluindo o funeral. Mas inclui também outras coberturas, como trasladação, repatriamento do corpo para Portugal, no caso de morrer no estrangeiro, que é um serviço muito caro. Temos também o PV65+, para pessoas com mais de 65 anos, em que o cliente paga 5500 euros, prémio único, e fica com todas as questões relacionadas com a sua morte pagas (incluindo se morrer no estrangeiro e necessitar que um familiar se desloque para trazer o corpo para Portugal. Depois, fica a pagar 20 euros por mês e fica com todas as outras coberturas de saúde e acidentes também asseguradas”, relata Vera Barahona, diretora adjunta da direção de negócio Vida da Fidelidade Seguros.

Aqui, não há lugar a grandes escolhas. O serviço fúnebre é um serviço standard, que é esclarecido no momento da assinatura do contrato. É difícil avaliar quem, de entre os mais de 100 mil clientes do Proteção Vital da Família, escolheu este produto por causa da cobertura funeral. Já no PV65+, que é mais específico, “quase de certeza” que os mais de seis mil subscritores contrataram o serviço para deixar o próprio funeral tratado.

“Ainda não é muito procurado”

Também a Victoria Seguros tem um produto semelhante. “Não deixa de ser um seguro de vida, com uma nuance de só ser pago em caso de morte”, começa por explicar Margarida Tavares, responsável de subscrição vida e acidentes pessoais da Victoria Seguros

A empresa decidiu avançar para este produto em 2013, porque em Espanha era muito procurado. Por cá, pelo menos por enquanto, o cenário é outro. Acredita a responsável que a diferença de aceitação, mais do que uma questão cultural, terá a ver com o facto de, em Portugal, a Segurança Social comparticipar o funeral.

O produto da Victoria Seguros cobre o tomador do seguro, o cônjuge e filhos com mais de 14 anos. Tem um prémio fixo de 180 euros por ano, com um total de capital coberto de 8 mil euros. No caso de acidente, em que morra mais do que um membro da família, o capital coberto sobe para 11 mil euros. Tem ainda uma adenda: no caso da morte de um ascendente do tomador do seguro, ele recebe 350 euros a título de ajuda com despesas que possa ter. O tomador pode ainda deixar a um beneficiário à escolha ou à funerária.

“Mas é muito raro o cliente deixar à funerária”, acrescenta Margarida Tavares, que sublinha ainda que “não é muito procurado, talvez por estar muito no início ainda”. “Se vendermos cinco por mês já é muito”, remata.

O que Margarida nota é que estes clientes têm, quase na totalidade, mais de 50 anos e procuram muito o seguro por causa da ajuda em caso da morte de ascendente. “Os últimos casos eram emigrantes. Temos sempre um aumento ligeiro na venda no verão, quando os emigrantes vêm de férias. Têm cá os pais e este seguro permite-lhes sempre terem o valor dos 350 euros em caso de morte de um dos pais, para virem ao funeral”, explica.

Outra vez o glitter

Quem ouve Graça Cardoso falar da vida é capaz de estranhar a naturalidade com que fala do próprio funeral, que está a pagar todos os meses. “Se pudesse, vivia até aos 500! Gosto de cá andar. Mas isso não me impede de aliviar o sofrimento dos meus, que cá ficarem quando eu partir”, adianta.

Graça, uma lisboeta a viver em Seia, faz 63 anos já no próximo mês e contratou um seguro que lhe paga o funeral até 2500 euros e ainda indemniza os herdeiros: “Deixo alguma coisa aos meus filhos e não deixo despesas com o funeral”.

Graça não quer que os filhos passem pelo mesmo do que ela passou quando o pai morreu. (Foto: Acervo pessoal Graça Cardoso)

Graça revela que foi a morte da mãe que espoletou esta decisão. “Quando a minha mãe morreu, o meu pai pagou tudo. Quando o meu pai morreu, elei não tinha cartão multibanco, eu não conseguia movimentar a conta. A funerária não passava o documento para a Segurança Social sem pagarmos e a Segurança Social não pagava sem o documento. Se não fosse a minha irmã, que vivia um pouco melhor do que eu, ainda hoje tinha o meu pai sentado no sofá a olhar para mim”, recorda.

Diz que, quando revela que tem o funeral pago, lhe chamam doida. Mas pouco se importa e dá por bem empregues os cerca de 17 euros mensais. Optou por um seguro e não pela contratação direta de uma funerária, porque nada lhe garante que, até ela morrer, a funerária não entre em falência.

E Graça nem pede grandes luxos na última viagem: “Não me importo nada que seja um caixão baratinho. A única coisa que peço é que ponham glitter, porque eu quero ir em bom. Quero que me festejem a vida e não chorem a minha morte”.

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