Morreu esta terça-feira o cardeal George Pell, uma das figuras mais importantes da Igreja Católica da Austrália, e cuja carreira ficou manchada por uma investigação relacionada com abuso sexual de menores, da qual resultou uma condenação, e posteriormente uma absolvição. Entre esse período chegou a estar preso durante 404 dias.

O antigo arcebispo de Melbourne e Sydney morreu aos 81 anos na cidade do Vaticano, depois de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória na sequência de uma cirurgia à anca. Dias antes tinha estado presente no funeral do Papa emérito Bento XVI.

George Pell subiu a pulso até se tornar, em 2014, a figura mais proeminente da história da Igreja Católica australiana, depois de subir ao cargo que gere as finanças do Vaticano, o terceiro mais importante na hierarquia da instituição. Pelo meio ficou conhecido pela sua postura conservadora, nomeadamente na oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à homossexualidade, ao aborto e à contraceção. Entre algumas das suas opiniões estão frases que classificam o aborto como uma falha moral pior que o abuso sexual de menores por parte de membros do clero, que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é "uma grande injustiça" para as crianças ou a descrição da contraceção como uma "heresia". Foi ainda, de forma pública, uma das figuras mais relevantes na luta contra a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Austrália.

O cardeal australiano foi condenado em 2018 por abusos a dois adolescentes que cantavam no coro da Catedral de St. Patrick, quando George Pell era arcebispo de Melbourne, em 1996. O clérigo afirmou sempre que estava inocente, acabando por ver as acusações anuladas por um tribunal superior em 2020. As famílias das alegadas vítimas já informaram que não vão desistir dos processos, com Lisa Flynn, diretora do escritório de advogados que representa o pai de uma das vítimas, a garantir que vai manter "o processo contra a igreja", nomeadamente pela procura de possíveis compensações. "Há ainda uma grande quantidade de provas que sustentam a acusação", acrescentou. No ano passado, o Supremo Tribunal da região de Victoria tinha recusado um pedido da Igreja Católica para suspender o processo.

Mas os escândalos a envolver George Pell não se ficam po aí. Uma comissão instaurada na Austrália concluiu em 2020 que o cardeal teve conhecimento de abusos sexuais cometidos na arquidiocese de Ballarat, na década de 1970, criticando-o por não ter feito nada para denunciar os padres que cometeram pedofilia naquelas paróquias. Os autores do relatório consideraram "pouco plausível" que George Pell não tivesse sabido porque é que Gerald Ridsdale, um padre conhecido por abusos a menores, estava constantemente a ser movido de paróquia.

O cardeal disse sempre nunca ter sabido de nada, confessando-se mesmo "surpreendido" pelas conclusões da comissão.

Apesar das várias controvérsias, George Pell ficou até ao fim como uma figura importante da Igreja Católica, o que levou várias figuras relevantes da instituição a recordarem o seu legado. Um deles foi o arcebispo de Sydney, Anthony Fisher, que se disse chocado pela notícia. Já o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, garantiu que o governo ia trabalhar para conseguir fazer regressar o corpo ao país.

António Guimarães